Duas histórias e um diagnóstico. Débora Saueressig e Sarita Melo mostram como muitas mulheres só recebem diagnóstico na vida adulta
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação social, padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos.
De acordo com o Ministério da Saúde, o autismo se manifesta desde a infância e acompanha a pessoa ao longo da vida, embora os sinais possam variar bastante de intensidade e forma de apresentação.
Nos últimos anos, especialistas têm chamado a atenção para um fenômeno que antes passava despercebido: muitas mulheres só descobrem que estão no espectro autista na vida adulta.
Em vários casos, o diagnóstico surge depois que os próprios filhos passam por avaliações médicas — e as mães começam a reconhecer em si mesmas características semelhantes.
Esse foi o caminho vivido por Débora Saueressig e Sarita Melo. Embora tenham trajetórias diferentes, as duas compartilham um ponto em comum: foi a maternidade que abriu a porta para compreender algo que esteve presente durante toda a vida.
Quando o diagnóstico do filho revela outra história
Aos 47 anos, a vida de Débora Saueressig ganhou uma explicação que ela não teve durante décadas. O diagnóstico de autismo veio tardiamente, depois de uma trajetória marcada por sensações que por muito tempo pareciam não ter sentido claro.
Hipersensibilidade a estímulos, rigidez de comportamento e uma exaustão social constante faziam parte de sua rotina. Mas tudo começou a ganhar outra dimensão quando o autismo entrou em sua vida por outro caminho: o diagnóstico do próprio filho.
Ainda muito pequeno, o menino já apresentava diferenças importantes no desenvolvimento social e comunicativo, além de interesses restritos, respostas sensoriais intensas e dificuldades motoras. A confirmação veio antes de ele completar dois anos, após uma avaliação especializada.
Ao buscar entender melhor o universo do autismo para apoiar o filho, Débora passou a mergulhar em estudos sobre o tema. Foi nesse processo que começou a perceber algo familiar demais nas descrições. “À medida que estudava, comecei a reconhecer padrões que também estavam presentes na minha própria história”, relata.
A descoberta levou Débora a iniciar uma investigação diagnóstica. O resultado confirmou que ela também estava no espectro autista. Segundo a neuropsicóloga Luciana Xavier, da clínica Neuropsicolux, em São Paulo, esse tipo de descoberta não é incomum.

“O atraso diagnóstico decorre de um conjunto de fatores estruturais. Grande parte do conhecimento clínico sobre autismo foi construída a partir de amostras predominantemente masculinas, o que consolidou um modelo de referência baseado nos meninos. Como consequência, apresentações femininas acabam sendo menos reconhecidas”, explica.
O autismo que passa despercebido em meninas
Embora os critérios diagnósticos sejam os mesmos para homens e mulheres, a forma como o autismo se manifesta pode ser diferente. Meninos tendem a apresentar sinais mais visíveis, enquanto meninas frequentemente desenvolvem estratégias para se adaptar socialmente.
“Muitas meninas aprendem a observar e imitar comportamentos sociais. Elas reproduzem padrões de interação e mantêm interesses que parecem socialmente aceitáveis, o que reduz a visibilidade dos sinais clínicos”, afirma a especialista.
Esse processo é conhecido como masking, ou mascaramento, que refere-se ao esforço de ocultar características do autismo para se adaptar socialmente. A pessoa aprende roteiros de interação, monitora o próprio comportamento e tenta reproduzir expectativas sociais.
Apesar de facilitar a adaptação em alguns contextos, essa estratégia pode ter um custo emocional alto. Muitas mulheres relatam cansaço intenso após interações sociais e sensação constante de esforço para se encaixar.
Sinais de autismo que podem passar despercebidos
Algumas características do espectro autista podem ser confundidas com timidez ou traços de personalidade, o que dificulta o diagnóstico precoce:
- Dificuldade sutil de reciprocidade social
- Interesses intensos, mas socialmente aceitos
- Necessidade de previsibilidade e rotina
- Sensibilidade elevada a sons, luz ou texturas
- Fadiga após interações sociais prolongadas
- Dificuldade de interpretar nuances da comunicação
Quando compreender o filho ajuda a entender a si mesma
Uma trajetória semelhante foi vivida por Sarita Melo. Ela descobriu que era autista aos 28 anos, durante a investigação dos atrasos no desenvolvimento da própria filha. A menina foi diagnosticada em 2020, quando tinha pouco mais de um ano de idade.
A partir dali, a família iniciou um processo de intervenção precoce, com terapias e acompanhamento especializado. O quadro da criança exige maior nível de suporte e também envolve deficiência intelectual, o que torna o desenvolvimento mais lento.
Enquanto buscava entender o diagnóstico da filha, Sarita passou a estudar profundamente o autismo. Foi nesse processo que começou a reconhecer em si, características semelhantes às que observava na menina. A investigação acabou levando ao diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista nível 1.

Com o tempo, a família também percebeu que o autismo aparecia em outras gerações. Hoje, além de Sarita e da filha, três sobrinhos também receberam diagnóstico dentro do espectro, em diferentes níveis de suporte. Segundo a neuropsicóloga, esse tipo de descoberta familiar é relativamente comum.
“O autismo apresenta forte componente genético. Quando uma criança recebe diagnóstico, não é incomum identificar características semelhantes em outros membros da família”, afirma.
Diagnóstico tardio
Receber o diagnóstico na vida adulta costuma provocar sentimentos mistos. Muitas mulheres relatam alívio por finalmente compreender experiências que antes pareciam inexplicáveis.
“O diagnóstico permite reinterpretar a própria história de vida. Ele favorece maior autocompreensão e pode ajudar no desenvolvimento de estratégias mais adequadas de regulação emocional”, explica Luciana Xavier.
No caso de Débora, a descoberta trouxe uma nova forma de olhar para si mesma. “O diagnóstico não mudou a essência da minha relação com meu filho, mas ajudou a compreender melhor algumas experiências compartilhadas entre nós dois”.
Já Sarita vê a descoberta como uma peça importante para entender a própria trajetória e também a dinâmica da família. As duas histórias ilustram uma realidade que a ciência começa a reconhecer com mais clareza.
Para muitas mulheres, o autismo sempre esteve presente — apenas sem nome. E, em muitos casos, são justamente os filhos que ajudam a revelar essa parte invisível da própria história.
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