Sob pressão e estresse cérebro prioriza sobrevivência e prejudica atenção e memória, explica psiquiatra
Esquecer compromissos, dar “branco” em provas ou perder o raciocínio em momentos de pressão são situações comuns — e têm explicação científica. Quando o corpo está sob estresse, o cérebro ativa um mecanismo primitivo conhecido como “luta ou fuga”, que prioriza respostas rápidas diante de possíveis ameaças.
Nesse cenário, funções cognitivas mais complexas, como memória e atenção, ficam em segundo plano. De acordo com o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse processo altera diretamente o funcionamento mental.
“Quando a pessoa está sob estresse, o cérebro liga o sistema de ‘luta ou fuga’, que tende a priorizar a resposta ao que parece urgente ou ameaçador. Nesse momento, reduz a eficiência de funções cognitivas mais refinadas, como atenção, memória de trabalho e flexibilidade mental”, explica o psiquiatra.
Isso significa que na prática a mente fica mais focada em lidar com a pressão do que em registrar ou recuperar informações — o que ajuda a explicar lapsos de memória em situações estressantes.
Ansiedade e excesso de preocupação “ocupam” a memória
O impacto do estresse na memória também está diretamente ligado à ansiedade. Segundo Perin, pensamentos de preocupação constante consomem recursos mentais importantes.
“A ansiedade consome recursos da memória de trabalho e prejudica a atenção. A pessoa fica mais capturada por preocupação e antecipação negativa, e menos disponível para raciocinar com clareza”, afirma.
Esse fenômeno explica a sensação de “branco” em momentos decisivos, como apresentações, entrevistas ou provas. O cérebro está ocupado demais com sinais de ameaça para conseguir acessar informações armazenadas.
Do ponto de vista biológico, o estresse ativa um sistema hormonal conhecido como eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela liberação de substâncias como cortisol e adrenalina.
A neuropsicóloga Sandra Schewinsky, do Hospital Sírio-Libanês, explica que esses hormônios são essenciais em situações pontuais, mas prejudiciais quando permanecem elevados por muito tempo.
“Quando o cortisol permanece elevado por períodos prolongados, como ocorre no estresse crônico, ele pode prejudicar o funcionamento de áreas importantes do cérebro, afetando a capacidade de registrar, consolidar e recuperar informações”, destaca Schewinsky.
Quando há excesso de estresse, a comunicação entre algumas áreas do cérebro é prejudicada, comprometendo todo o processo da memória. As principais regiões afetadas são:
- Hipocampo: responsável pela formação de novas memórias;
- Amígdala: ligada às emoções;
- Córtex pré-frontal: essencial para atenção, planejamento e memória de trabalho.
Estresse crônico pode causar efeitos mais duradouros
Nem todo esquecimento é motivo de preocupação. Em muitos casos, as falhas de memória são temporárias e desaparecem quando o estresse diminui. No entanto, quando a pressão é intensa e prolongada, os impactos podem ser mais duradouros.
Perin alerta que o estresse crônico afeta diretamente circuitos cerebrais importantes. “A pessoa pode até continuar funcionando, mas com mais lentidão, mais distração e mais erros, além de maior dificuldade de organizar informações”, afirma.
Já Schewinsky destaca que o problema pode ir além da memória. “O estresse contínuo também está associado a maior risco de condições como acidente vascular encefálico, infarto e problemas metabólicos, como o diabetes”, explica.
Outro ponto importante é que a memória de curto prazo costuma ser a primeira afetada. Em casos mais graves, o prejuízo pode atingir também a memória de longo prazo.
Rotina moderna intensifica o problema
Fatores do dia a dia têm potencializado o impacto do estresse na memória. Os principais identificados pelos especialistas são: excesso de trabalho e sobrecarga mental, privação de sono, uso constante de telas e redes sociais e exposição contínua a informações e notícias.
“Isso fragmenta a atenção e, muitas vezes, rouba sono de qualidade — e sono insuficiente compromete atenção, memória de trabalho e funções executivas”, diz Perin.
Em casos mais extremos, o quadro pode evoluir para burnout, caracterizado por exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade e até sintomas depressivos.
Falhas de memória ocasionais são comuns, mas alguns sinais indicam a necessidade de avaliação profissional. O psiquiatra explica que é importante buscar ajuda quando os lapsos passam a interferir na rotina.
“O sinal de alerta é quando a dificuldade de memória ou concentração interfere no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos, ou vem acompanhada de insônia, ansiedade intensa ou exaustão”, afirma Perin.
Schewinsky reforça que é essencial analisar o contexto. Em geral, lapsos relacionados ao estresse melhoram quando a causa é resolvida. Porém, quando persistem ou pioram, é necessário investigar.
O que fazer para proteger a memória
A boa notícia é que o cérebro tem capacidade de se recuperar — desde que o estresse seja controlado. Especialistas apontam algumas estratégias eficazes:
- Melhorar a qualidade do sono;
- Praticar atividade física regularmente;
- Fazer pausas ao longo do dia;
- Reduzir o uso excessivo de telas;
- Investir em relações sociais e momentos de lazer;
- Praticar técnicas de relaxamento e respiração.
Além disso, a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a reduzir pensamentos negativos e liberar recursos mentais. “Quando a pessoa reduz preocupação excessiva e autocrítica, ela consegue prestar mais atenção e registrar melhor as informações”, conclui Perin.
Esquecer coisas sob pressão não significa, necessariamente, um problema grave. Na maioria das vezes, é apenas o cérebro tentando lidar com uma sobrecarga. Mas ignorar sinais persistentes pode custar caro.
Se o estresse virou rotina e a memória começou a falhar com frequência, o caminho mais inteligente não é forçar a produtividade — é desacelerar e cuidar da saúde mental.
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