Com a proximidade da volta às aulas em grande parte do Brasil, estudantes que se preparam para o Enem e para os principais vestibulares retomam uma rotina que exige disciplina, concentração e, sobretudo, capacidade de pensar por conta própria. Nesse cenário, professores e coordenadores pedagógicos têm chamado atenção para um comportamento cada vez mais comum: o uso indiscriminado de inteligência artificial e de vídeos curtos como substitutos do estudo tradicional.

O problema, segundo os educadores, não está necessariamente na tecnologia. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas digitais e conteúdos rápidos podem contribuir para o aprendizado quando utilizados de maneira adequada. A preocupação aparece quando o estudante deixa de resolver exercícios, escrever, interpretar textos e revisar os próprios erros para simplesmente buscar uma resposta pronta.

Na prática, o aluno pode ter a impressão de que aprendeu determinado conteúdo porque conseguiu encontrar uma explicação rápida ou recebeu uma solução produzida por uma ferramenta de IA. Porém, quando precisa resolver sozinho uma questão diferente ou desenvolver uma argumentação sem ajuda, pode descobrir que não domina realmente o assunto.

Esse fenômeno é especialmente preocupante em provas como o Enem e vestibulares, que exigem interpretação, capacidade de relacionar informações, raciocínio e autonomia.

A falsa sensação de que aprendeu

Um dos principais riscos apontados por especialistas é justamente a criação de uma falsa sensação de domínio do conteúdo.

Ao pedir para uma inteligência artificial resolver uma questão de matemática, explicar um assunto de história ou produzir uma redação, o estudante recebe rapidamente um material organizado. O resultado pode parecer excelente, mas isso não significa que o processo necessário para chegar àquela resposta tenha sido desenvolvido pelo próprio aluno.

Esse comportamento é associado ao conceito de terceirização cognitiva, quando parte do esforço mental é transferida para uma ferramenta externa.

Para quem está se preparando para uma prova longa e competitiva, essa diferença é fundamental.

Não basta reconhecer uma resposta correta. É necessário compreender por que ela está correta e conseguir utilizar o conhecimento em uma situação diferente.

Uma questão do Enem pode apresentar um texto, gráfico ou situação-problema completamente diferente daquele encontrado durante os estudos. Nesse momento, não existe uma resposta pronta para copiar.

É o raciocínio construído durante a preparação que precisa aparecer.

Vídeos curtos também entram na discussão

A preocupação dos educadores não se limita à inteligência artificial.

Plataformas de vídeos curtos, como TikTok e Reels, também mudaram a maneira como muitos jovens consomem informação.

Fórmulas rápidas, resumos de poucos segundos, “macetes” para resolver questões e listas de conteúdos que prometem facilitar a preparação podem ser úteis como complemento. O problema surge quando esse formato passa a ser a principal forma de estudar.

O Enem, por exemplo, exige que o candidato permaneça concentrado durante uma prova extensa, composta por grande quantidade de textos e questões.

Essa realidade é muito diferente da experiência proporcionada por vídeos de poucos segundos, nos quais uma informação é apresentada rapidamente antes que o usuário passe para o próximo conteúdo.

Educadores apontam que o excesso de estímulos rápidos pode dificultar a adaptação a atividades que exigem concentração prolongada.

Ler um texto extenso, interpretar diferentes informações e resolver uma questão que exige várias etapas demanda um tipo de atenção diferente daquela utilizada para consumir conteúdos rápidos nas redes sociais.

Redação é um dos maiores desafios

A situação fica ainda mais evidente quando o assunto é redação.

No Enem e em vestibulares, escrever não significa apenas organizar palavras de maneira correta. O candidato precisa compreender a proposta, selecionar informações, construir uma argumentação coerente e apresentar suas próprias ideias dentro das regras estabelecidas pela prova.

Quando o estudante utiliza constantemente a IA para produzir textos completos, pode acabar deixando de exercitar justamente essas habilidades.

Uma redação pronta pode servir como referência para entender estrutura, repertório e organização. Mas copiar modelos ou depender de textos produzidos automaticamente não substitui a prática individual.

O candidato precisa aprender a pensar, argumentar e escrever sem depender de uma ferramenta.

É durante esse processo que surgem os erros que permitem ao professor identificar dificuldades e orientar a evolução do aluno.

Pesquisa aponta diferença entre prática e aprendizado

Um estudo realizado com mais de mil estudantes do ensino médio na Turquia e publicado na revista PNAS trouxe um dado que ajuda a ilustrar o problema.

Segundo a pesquisa, estudantes que tiveram acesso irrestrito à inteligência artificial apresentaram desempenho até 48% superior em determinados exercícios realizados durante a prática.

Entretanto, no exame final, o resultado foi diferente: esse grupo apresentou desempenho 17% inferior.

A diferença chama atenção porque mostra que conseguir realizar uma atividade com auxílio da tecnologia não significa necessariamente ter aprendido o conteúdo.

Outro grupo utilizou uma versão da ferramenta com barreiras pedagógicas. Em vez de simplesmente entregar respostas, a ferramenta oferecia dicas e orientações para que os próprios estudantes desenvolvessem o raciocínio.

Nesse grupo, houve melhora significativa durante a prática sem a mesma queda observada posteriormente.

Os resultados reforçam uma discussão que vem ganhando espaço na educação: como utilizar a inteligência artificial para estimular o aprendizado, e não para substituí-lo?

IA pode ser uma aliada

Apesar dos alertas, especialistas não defendem simplesmente o abandono da tecnologia.

A inteligência artificial pode ser utilizada de diversas maneiras positivas durante a preparação para provas.

Um estudante pode, por exemplo, pedir uma explicação diferente para determinado assunto, solicitar questões adicionais, identificar possíveis erros em uma resolução ou criar perguntas para testar seus conhecimentos.

O ponto principal está na maneira como a ferramenta é utilizada.

Se a IA entrega a resposta e o estudante apenas copia, existe pouco aprendizado envolvido.

Se a ferramenta apresenta pistas, questiona o raciocínio e ajuda o aluno a encontrar sozinho uma solução, ela pode se tornar uma ferramenta complementar importante.

Para Denise Canal, diretora do Colégio Virgem Poderosa, da Rede Santa Catarina, o desafio está justamente em ensinar os estudantes a utilizar a tecnologia de maneira consciente.

Segundo ela, a inteligência artificial pode contribuir para aprofundar conhecimentos e organizar os estudos, mas não deve substituir o esforço intelectual.

Voltar ao básico continua sendo necessário

Na preparação para uma prova como o Enem, algumas práticas continuam indispensáveis mesmo diante das novas tecnologias.

Resolver questões sem consultar respostas é uma delas.

Esse exercício permite ao estudante perceber o que realmente sabe e quais conteúdos ainda precisam ser revisados.

Outra prática importante é revisar os próprios erros.

Quando uma questão é respondida incorretamente, simplesmente conferir o gabarito não é suficiente. É necessário compreender por que o erro aconteceu.

Foi falta de atenção? Falta de conhecimento? Dificuldade de interpretação? Confusão entre conceitos?

Responder a essas perguntas ajuda a transformar o erro em aprendizado.

A produção de redações autorais também deve fazer parte da rotina de quem se prepara para o exame.

Tecnologia com intenção pedagógica

O desafio para estudantes, famílias e escolas será encontrar equilíbrio.

Não faz sentido ignorar completamente as tecnologias que já fazem parte da vida dos jovens. Ao mesmo tempo, permitir que ferramentas digitais façam todo o trabalho intelectual também pode comprometer a formação acadêmica.

A solução passa pelo uso consciente.

Vídeos curtos podem introduzir um conteúdo. A inteligência artificial pode ajudar a esclarecer uma dúvida. Plataformas digitais podem ampliar o acesso a exercícios.

Mas, depois disso, o estudante precisa fechar a tela e tentar fazer sozinho.

É nesse momento que o conhecimento deixa de ser apenas informação recebida e começa a ser realmente construído.

Preparação exige autonomia

O Enem e os vestibulares não avaliam apenas a capacidade de memorizar informações.

Eles exigem interpretação, raciocínio, leitura, escrita e capacidade de aplicar conhecimentos em situações diferentes.

Por isso, a preparação precisa desenvolver autonomia.

O estudante que aprende a resolver uma questão sozinho, escrever um texto próprio e identificar os próprios erros constrói habilidades que vão além da prova.

Essa autonomia também será importante na vida acadêmica e profissional.

A inteligência artificial provavelmente continuará presente na educação e no mercado de trabalho. Por isso, aprender a utilizá-la de maneira responsável pode ser tão importante quanto saber quando não utilizá-la.

O equilíbrio pode fazer a diferença

Com a volta às aulas e a aproximação das provas, estudantes entram em uma fase decisiva de preparação.

Mais do que abandonar celulares, redes sociais ou ferramentas de inteligência artificial, o desafio será entender o papel de cada recurso.

A tecnologia pode acelerar o acesso à informação, mas não consegue substituir completamente o processo de pensar, questionar, errar e tentar novamente.

Para quem se prepara para o Enem e vestibulares, talvez a principal lição seja justamente essa: uma resposta pronta pode resolver uma questão, mas é o esforço de encontrar a resposta que constrói o conhecimento.

No fim, o estudante precisará estar sozinho diante da prova, sem TikTok, sem inteligência artificial e sem alguém para entregar a solução.

É nesse momento que todo o preparo realizado ao longo do ano será colocado à prova.