Inep nega tempo extra no Enem 2026 a candidatos com transtornos mentais mesmo após o envio de laudos médicos que, segundo os estudantes, atendiam às exigências previstas no edital do Exame Nacional do Ensino Médio. Entre os candidatos estão pessoas com ansiedade, transtorno bipolar e TDAH, que relatam dificuldades para conseguir o atendimento especializado solicitado.

Os estudantes afirmam que apresentaram documentação contendo diagnóstico, identificação do profissional responsável e, em alguns casos, a descrição da necessidade de tempo adicional. Mesmo assim, receberam respostas informando que o CID apresentado não caracterizaria uma condição para acesso aos 60 minutos extras.

A situação tem provocado preocupação entre candidatos que passaram meses se preparando para o exame e dependem dos recursos de acessibilidade para realizar a prova em condições adequadas.

Candidatos afirmam ter seguido as exigências

De acordo com os relatos apresentados, os estudantes enviaram documentos médicos contendo informações como nome completo, diagnóstico, assinatura e identificação do profissional responsável. Nos pedidos de tempo adicional, os laudos também apresentavam, segundo os candidatos, a descrição das dificuldades que justificariam a necessidade do recurso.

Mesmo assim, alguns pedidos foram indeferidos.

A justificativa apresentada pelo sistema informava que o CID registrado no momento da inscrição não caracterizaria uma condição para acesso ao tempo adicional de prova.

A decisão surpreendeu estudantes que esperavam contar com o recurso durante o exame depois de meses de preparação.

O Inep afirmou que os casos de indeferimento acontecem quando a documentação necessária não é apresentada ou quando os documentos enviados não atendem aos critérios estabelecidos.

A divergência entre o que os estudantes afirmam ter apresentado e a resposta recebida pelo sistema, porém, tem gerado questionamentos sobre os critérios utilizados na análise.

Jovem com transtorno bipolar relata desespero

Um dos casos é o de Leticia Evelyn, de Fortaleza, que solicitou atendimento especializado apresentando um laudo médico relacionado ao transtorno bipolar.

Segundo o documento apresentado, a estudante possui sintomas como instabilidade de humor, impulsividade, aceleração do ritmo do pensamento, inquietação e dificuldade de concentração.

O laudo também registra que essas características podem comprometer o tempo necessário para a realização de determinadas atividades e aponta a necessidade de tempo adicional em provas.

Apesar das informações apresentadas no documento, a solicitação de Leticia para os 60 minutos extras não foi aprovada pelo sistema.

A estudante afirma que tentou buscar esclarecimentos junto ao canal Fale Conosco do Ministério da Educação, mas ainda aguardava uma resposta.

“Meu documento tem CID, os medicamentos controlados que tomo, a descrição… é tudo respaldado. Estou desesperada”, relatou.

A declaração revela a dimensão pessoal do problema. Para quem depende do atendimento especializado, a aprovação ou rejeição do pedido pode interferir diretamente na forma como o estudante enfrentará uma das provas mais importantes de sua trajetória acadêmica.

Mudança de status aumentou a preocupação

Além dos casos em que os pedidos foram rejeitados inicialmente, houve estudantes que relatam ter recebido uma confirmação positiva e, semanas depois, encontrado uma mudança na situação.

Segundo os relatos, algumas solicitações apareceram inicialmente como aprovadas no sistema de inscrição. Posteriormente, entretanto, passaram a constar como recusadas.

O problema ganhou ainda mais gravidade porque, em alguns casos, a alteração ocorreu depois do encerramento do período destinado aos recursos.

O Inep afirmou que os participantes puderam contestar as decisões entre 29 de junho e 3 de julho de 2026.

A existência de alterações posteriores gerou críticas justamente porque os estudantes já não teriam a mesma possibilidade de apresentar uma contestação dentro do prazo originalmente estabelecido.

Na última sexta-feira (21), o Inep reconheceu a existência de um erro relacionado ao sistema e informou que a plataforma havia sido corrigida e normalizada.

Mesmo após a correção anunciada, porém, estudantes continuaram relatando problemas.

“Que isonomia é essa?”, questiona candidata

Outro caso envolve Sarah Serpa, de Brasília, que apresentou um laudo relacionado ao transtorno de ansiedade generalizada.

Segundo a estudante, o documento cumpria as exigências previstas no edital.

Inicialmente, o sistema confirmou a concessão do tempo adicional. Mais tarde, entretanto, a situação foi alterada e o pedido passou a aparecer como recusado.

A mudança deixou a candidata sem entender por que o mesmo diagnóstico poderia resultar em decisões diferentes entre estudantes.

“Por que aceitaram inicialmente, então? Não faz sentido… Outras pessoas com o mesmo diagnóstico de TAG conseguiram a concessão de 60 minutos adicionais. Que isonomia é essa, em que uns conseguem e outros não?”, questionou.

A dúvida apresentada por Sarah toca em um dos principais pontos da discussão: a necessidade de critérios claros, objetivos e aplicados de maneira uniforme.

Para os estudantes, a previsibilidade é fundamental. Eles precisam saber com antecedência quais condições serão consideradas e quais documentos serão suficientes para comprovar a necessidade do atendimento.

Caso de TDAH também chama atenção

A situação também envolve estudantes com TDAH.

Ana Isis Guimarães afirma que seu laudo foi rejeitado durante o processo de solicitação do atendimento especializado.

Segundo ela, o documento descrevia os sintomas e os medicamentos utilizados, mas não apresentava de forma explícita a necessidade de tempo adicional.

O que causou ainda mais estranhamento foi o fato de o mesmo tipo de documento ter sido aceito em edições anteriores do Enem.

A estudante afirma que não houve mudança de médico e que o laudo apresentado em 2026 seguia o mesmo padrão dos anos anteriores.

“Em todos os anos anteriores, eu fiz a prova com os meus direitos garantidos. Esse seria um ano inteiro de estudos perdido por uma situação que eu não consigo entender. Não mudei de médico, e o laudo deste ano é o mesmo dos anos anteriores”, afirmou.

No cartão de confirmação do Enem 2025, segundo as informações apresentadas, consta a concessão dos 60 minutos adicionais para a estudante em razão do TDAH.

A comparação entre os dois anos tornou a situação ainda mais difícil de compreender para a candidata.

Atendimento especializado busca garantir condições de participação

O atendimento especializado no Enem tem como objetivo permitir que participantes com determinadas condições possam realizar a prova levando em consideração suas necessidades específicas.

A lógica é garantir que uma dificuldade relacionada à condição do estudante não se transforme, por si só, em uma barreira para demonstrar seus conhecimentos.

O tempo adicional, por exemplo, pode ser importante para candidatos que apresentam dificuldades específicas de concentração, processamento de informações ou execução das atividades.

Por isso, a análise dos documentos médicos possui um papel fundamental.

Ao mesmo tempo em que o Inep precisa estabelecer critérios para evitar pedidos indevidos, os estudantes esperam que os documentos apresentados sejam avaliados de maneira individualizada e coerente com as necessidades descritas pelos profissionais responsáveis.

Preparação para o Enem envolve meses de esforço

Para milhões de estudantes, o Enem representa muito mais do que uma prova.

O resultado pode ser utilizado para disputar vagas em universidades públicas, participar de programas de acesso ao ensino superior e buscar novas oportunidades acadêmicas e profissionais.

A preparação costuma envolver meses de estudos, simulados, aulas e dedicação.

Para candidatos que necessitam de atendimento especializado, existe ainda uma preocupação adicional: garantir que as condições oferecidas no dia da prova sejam compatíveis com suas necessidades.

Quando uma solicitação é indeferida, o estudante pode sentir que todo o planejamento ficou ameaçado.

É por isso que os relatos de Leticia, Sarah e Ana Isis ganharam tanta repercussão.

Mais do que uma questão burocrática, a discussão envolve estudantes que desejam apenas ter condições adequadas para realizar a mesma prova que os demais candidatos.

Inep afirma que há critérios para análise

O Inep sustenta que os pedidos são avaliados conforme os critérios estabelecidos no edital e que o indeferimento ocorre quando a documentação não é apresentada ou não atende às exigências.

A posição da instituição é importante para esclarecer que o simples diagnóstico não necessariamente garante automaticamente todos os recursos solicitados.

Em determinadas situações, o laudo precisa demonstrar a necessidade específica do atendimento requerido.

Esse ponto pode explicar parte das negativas, especialmente quando o documento apresenta o diagnóstico, mas não descreve de maneira suficiente a necessidade do tempo adicional.

O problema, porém, fica mais complexo quando estudantes afirmam que apresentaram documentos semelhantes aos aceitos em anos anteriores ou quando uma solicitação inicialmente aprovada posteriormente aparece como recusada.

Nesses casos, a transparência na análise e a possibilidade de revisão tornam-se ainda mais importantes.

O desafio de garantir igualdade

A discussão sobre atendimento especializado no Enem envolve um conceito fundamental: igualdade de oportunidades.

Tratar todos os candidatos exatamente da mesma maneira nem sempre significa oferecer condições iguais.

Em algumas situações, garantir igualdade significa reconhecer necessidades diferentes e oferecer recursos capazes de permitir que cada estudante demonstre seu conhecimento.

É nesse contexto que entram medidas como tempo adicional e auxílio especializado.

Para os candidatos, o recurso não representa uma vantagem competitiva, mas uma forma de reduzir uma barreira relacionada à condição apresentada.

Por isso, decisões consideradas inconsistentes podem gerar insegurança e sensação de injustiça.

Datas do Enem 2026

O Enem 2026 será aplicado em duas datas principais.

A primeira etapa está marcada para 8 de novembro, quando os participantes farão as provas de Linguagens, Ciências Humanas e a redação.

A segunda etapa acontecerá em 15 de novembro, com as provas de Ciências da Natureza e Matemática.

O gabarito oficial deverá ser divulgado até 30 de novembro de 2026.

Com a aproximação das provas, candidatos que solicitaram atendimento especializado acompanham com atenção a situação de seus pedidos.

Para aqueles que tiveram o benefício negado, a expectativa é de que eventuais problemas sejam esclarecidos antes da aplicação do exame.

Estudantes pedem clareza e segurança

Os relatos envolvendo candidatos com ansiedade, transtorno bipolar e TDAH colocam em evidência a importância de um sistema de atendimento especializado que seja previsível, transparente e capaz de analisar adequadamente as necessidades individuais.

Para quem passou meses estudando, a preparação não termina nos livros ou nas salas de aula. Ela também envolve a garantia de que, no dia do exame, será possível realizar a prova nas condições adequadas.

A expectativa dos estudantes é que as situações relatadas sejam analisadas e, quando houver erro, corrigidas antes da aplicação do Enem.

No fim, a discussão não é apenas sobre 60 minutos a mais.

É sobre permitir que jovens que enfrentam dificuldades específicas tenham a oportunidade de mostrar aquilo que aprenderam sem que uma falha administrativa, uma interpretação inadequada de um documento ou uma inconsistência no sistema se transforme em mais um obstáculo.

Enquanto o Inep defende que os procedimentos seguem critérios definidos no edital, os candidatos esperam respostas concretas.

E, para quem sonha com uma vaga na universidade, ter a certeza de que será ouvido e poderá fazer a prova em condições adequadas também faz parte da preparação para o futuro.