Esvaziada por cortes de financiamento, pressionada pelas grandes potências e diante de uma crise do multilateralismo, a Organização das Nações Unidas (ONU) inicia nesta terça-feira (22), em Nova York, sua 81ª Assembleia Geral em um dos momentos mais delicados de sua história recente. O encontro reunirá representantes dos 193 Estados-membros para discutir guerras, segurança, desenvolvimento, mudanças climáticas, inteligência artificial e os próprios caminhos da organização. O tema oficial desta edição é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
A escolha do tema revela, de certa maneira, o tamanho do desafio. A ONU chega ao encontro precisando recuperar confiança justamente em um cenário internacional no qual a cooperação entre países vem sendo colocada à prova. Guerras prolongadas, disputas comerciais, conflitos diplomáticos e o enfraquecimento de mecanismos multilaterais aumentaram a percepção de que a organização encontra dificuldades para transformar debates e resoluções em respostas concretas.
É nesse ambiente que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta ao púlpito da ONU. Os Estados Unidos continuam sendo o maior contribuinte individual da organização, mas o governo Trump adotou uma postura de forte questionamento à participação americana em instituições multilaterais. Em janeiro, Washington anunciou a retirada de diversas organizações e mecanismos internacionais, incluindo estruturas ligadas ao sistema das Nações Unidas.
A relação entre Washington e a ONU também ganhou um componente financeiro. Em setembro, o governo americano pagou US$ 725 milhões à organização, reduzindo parte da dívida e garantindo a manutenção do direito de voto dos Estados Unidos na Assembleia Geral. Mesmo após o pagamento, porém, o país ainda devia US$ 1,312 bilhão ao orçamento regular da ONU. O governo americano também efetuou um pagamento adicional de US$ 102 milhões destinado às operações de manutenção da paz.
O episódio mostra uma contradição que acompanha a crise atual: os Estados Unidos permanecem fundamentais para o funcionamento financeiro da ONU, ao mesmo tempo em que o governo de Trump questiona o tamanho, os custos e a atuação de instituições internacionais.
Uma organização pressionada pelo próprio sistema que ajudou a construir
A dificuldade da ONU não está restrita à relação com Washington. A organização enfrenta um cenário internacional em que seus mecanismos dependem, em grande medida, da disposição política dos próprios Estados-membros.
O Conselho de Segurança é um dos principais exemplos. Os cinco membros permanentes — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido — possuem poder de veto. Isso significa que decisões sobre algumas das crises internacionais mais graves podem ser bloqueadas quando existe oposição de uma dessas potências.
Para críticos, esse mecanismo contribui para a paralisia da organização. Para seus defensores, o sistema reflete a realidade política criada após a Segunda Guerra Mundial e evita que decisões fundamentais sejam tomadas sem a participação das principais potências militares.
O problema é que o mundo de hoje já não é o mesmo de 1945. Países emergentes reivindicam maior representação, enquanto regiões inteiras defendem mudanças na estrutura de tomada de decisões. A própria escolha do próximo secretário-geral da ONU ocorre em meio a esse debate.
Sucessão de Guterres expõe dificuldades
António Guterres encerra seu segundo mandato em 31 de dezembro de 2026, após dez anos à frente da organização. O processo para escolher seu sucessor também se transformou em um retrato das dificuldades políticas enfrentadas pela ONU.
A escolha começa no Conselho de Segurança, que precisa recomendar um nome à Assembleia Geral. Na prática, qualquer candidato precisa evitar a oposição de um dos cinco membros permanentes.
Em setembro, uma terceira votação informal do Conselho de Segurança mostrou a costarriquenha Rebeca Grynspan à frente, com nove votos de “incentivo”, cinco de “desencorajamento” e um sem opinião. A guianense Carolyn Rodrigues-Birkett recebeu oito votos de incentivo, seis de desencorajamento e um sem opinião.
A disputa sofreu uma mudança importante neste fim de semana com a retirada da candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet. A decisão ocorreu depois de sua campanha não conseguir reunir apoio suficiente no Conselho de Segurança. Com a saída de Bachelet, sete candidatos permanecem na disputa pelo cargo.
O processo evidencia que a escolha do secretário-geral não depende apenas de uma votação entre os 193 países. Antes disso, é necessário construir um acordo entre as principais potências do Conselho de Segurança.
Trump concentra as atenções
Apesar da crise institucional da ONU, Trump deve novamente concentrar parte significativa das atenções durante a Assembleia Geral.
A agenda do presidente americano inclui encontros bilaterais e discussões sobre conflitos internacionais, além de sua primeira reunião presencial com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, após a retirada de Nicolás Maduro do poder em janeiro. Trump também deve participar de uma série de encontros diplomáticos durante sua passagem por Nova York.
Outro assunto que pode ganhar destaque é um acordo envolvendo Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia sobre segurança no Ártico. O entendimento deve ser formalizado durante a semana da Assembleia Geral. A Dinamarca afirma que a Otan terá papel importante na segurança da região, enquanto Trump apresenta o acordo como uma forma de ampliar a participação americana na proteção da Groenlândia.
A presença americana, portanto, deve ocupar espaço considerável em uma reunião que pretende justamente discutir o futuro da cooperação internacional.
Países buscam novas formas de cooperação
Enquanto a ONU enfrenta pressões, alguns países passaram a defender iniciativas para reforçar o multilateralismo fora dos mecanismos tradicionais.
Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia anunciaram uma iniciativa chamada Parceiros pelo Multilateralismo, ou P4M. A proposta foi apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo presidente queniano William Ruto e pelo primeiro-ministro canadense Mark Carney.
Os líderes defendem uma atualização do sistema internacional para que ele reflita melhor as mudanças ocorridas nas últimas décadas, sem abandonar princípios estabelecidos pela Carta da ONU, como soberania dos Estados, integridade territorial, solução pacífica de conflitos, direitos humanos e respeito ao direito internacional.
A iniciativa ocorre em um momento no qual países tradicionalmente próximos aos Estados Unidos também procuram ampliar relações com outros blocos e parceiros. O movimento canadense em direção a uma aproximação maior com a União Europeia é um exemplo dessa diversificação diplomática.
Uma Assembleia sob o peso das guerras
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã também deverá estar entre os temas centrais da Assembleia Geral. O conflito amplia as preocupações sobre segurança internacional, circulação de energia e estabilidade no Oriente Médio.
A guerra na Ucrânia, as tensões envolvendo Israel e os palestinos e outras crises regionais também estarão presentes nas discussões. Ao mesmo tempo, a ONU tenta ampliar sua atuação em temas emergentes, como inteligência artificial, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.
O próprio Guterres tem defendido maior cooperação internacional para lidar com os riscos associados à inteligência artificial, enquanto o governo americano adota uma visão diferente sobre a necessidade de novas formas de regulamentação.
O futuro da ONU em discussão
A 81ª Assembleia Geral acontece, portanto, muito além do tradicional encontro anual de chefes de Estado. Ela será também um espaço para discutir se a ONU conseguirá se adaptar a um mundo marcado por novas disputas de poder, crises financeiras, guerras e transformações tecnológicas.
O Brasil abrirá novamente o Debate Geral, tradição mantida desde 1955. Na sequência, será a vez dos Estados Unidos. Os discursos de Lula e Trump devem colocar lado a lado duas visões diferentes sobre o papel da cooperação internacional e da própria ordem multilateral.
A ONU continua sendo o principal fórum mundial onde praticamente todos os países podem se sentar à mesma mesa. O desafio, agora, é transformar essa mesa em um espaço capaz de produzir acordos e respostas diante de crises que ultrapassam fronteiras.
Em sua 81ª edição, a Assembleia Geral terá uma tarefa simbólica e prática: discutir não apenas os problemas do mundo, mas também se a instituição criada para ajudar a enfrentá-los ainda dispõe de força política, recursos financeiros e consenso suficiente para cumprir essa missão.











