Oriente Médio voltou ao centro das atenções na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quarta-feira (23), quando o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, fez um discurso marcado por fortes críticas aos Estados Unidos e a Israel. Em uma fala realizada em meio à guerra entre Washington e Teerã, o líder iraniano acusou os dois países de praticarem terrorismo e afirmou que não haverá paz duradoura na região sem uma solução que contemple a questão palestina.

Pezeshkian também respondeu diretamente às declarações feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o discurso na ONU na terça-feira (22). Trump havia afirmado que poderia “aniquilar” o Irã caso não fosse alcançado um acordo para encerrar o conflito.

O presidente iraniano afirmou que a postura de Washington não fará o país abandonar suas posições. Ao mesmo tempo, deixou aberta a possibilidade de diálogo e negociações, desde que, segundo ele, não ocorram sob ameaça ou imposição militar.

“Estamos prontos para o diálogo, a diplomacia e as negociações”, afirmou Pezeshkian, acrescentando que isso não poderia acontecer sob o que classificou como linguagem de força.

Pezeshkian acusa EUA e Israel

Durante o discurso, Pezeshkian afirmou que o Irã tem sido vítima de ataques e rejeitou as acusações de terrorismo feitas contra seu governo.

O presidente iraniano disse que os Estados Unidos e Israel seriam, segundo sua avaliação, os responsáveis por atos que classificou como terrorismo, citando ataques contra civis e violações do direito internacional.

Pezeshkian apresentou imagens durante sua fala, incluindo fotografias do antigo líder supremo iraniano Ali Khamenei e de crianças que, segundo o governo iraniano, morreram em ataques durante o conflito.

A acusação ocorre em um contexto de guerra aberta entre Irã e Estados Unidos, com Israel também envolvido diretamente no conflito. A escalada militar transformou a questão iraniana em um dos principais temas da atual Assembleia Geral da ONU.

Ao falar sobre as ações de seu país, Pezeshkian afirmou que o Irã estaria apenas se defendendo e rejeitou a ideia de que Teerã tenha como objetivo atacar populações civis. Entretanto, veículos internacionais registraram que civis também morreram em ataques iranianos durante o conflito, tornando essa afirmação uma questão contestada.

Palestina aparece como ponto central do discurso

Outro eixo importante da fala do presidente iraniano foi a situação dos palestinos.

Pezeshkian afirmou que a paz no Oriente Médio não poderá ser alcançada sem “justiça para a Palestina”. A declaração coloca a questão palestina novamente no centro das discussões diplomáticas realizadas durante a Assembleia Geral.

O conflito entre Israel e palestinos permanece como uma das principais questões internacionais debatidas na ONU, especialmente diante das consequências humanitárias da guerra em Gaza.

Ao defender uma solução regional, o presidente iraniano também afirmou que Teerã não considera seus vizinhos do Golfo Pérsico como rivais.

A declaração ocorre em um momento de elevada tensão entre o Irã e países da região, alguns dos quais são aliados dos Estados Unidos e foram afetados pela escalada do conflito.

Pezeshkian defendeu a ideia de que os próprios países do Oriente Médio devem participar da construção de mecanismos de segurança regional, reduzindo a influência de potências externas.

Questão nuclear também foi mencionada

O programa nuclear iraniano esteve entre os assuntos abordados pelo presidente.

Pezeshkian afirmou que questões relacionadas ao programa nuclear não serão resolvidas no campo de batalha. O líder iraniano também defendeu o direito do país de manter um programa nuclear civil e afirmou que Teerã não pretende desenvolver armas nucleares.

A questão nuclear é um dos principais pontos de divergência entre Irã e Estados Unidos.

Washington afirma que busca impedir que o governo iraniano obtenha armas nucleares, enquanto Teerã sustenta que seu programa possui finalidade pacífica.

As divergências sobre o tema estão diretamente ligadas às negociações que os dois países tentam manter, mesmo em meio ao conflito militar.

Discurso ocorreu após reunião entre negociadores

A fala de Pezeshkian aconteceu apenas um dia depois de uma reunião entre representantes dos governos iraniano e norte-americano.

Na terça-feira (22), o enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, Steve Witkoff, participou de uma reunião de aproximadamente três horas com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, durante a programação da Assembleia Geral da ONU.

O encontro foi realizado por meio de mediação do Catar e representou um dos contatos mais relevantes entre os dois lados desde o colapso de uma trégua anterior.

Donald Trump classificou a reunião como “muito boa”, embora tenha fornecido poucos detalhes sobre o conteúdo das conversas.

Do lado iraniano, representantes do governo indicaram que as condições apresentadas por Teerã permanecem relacionadas ao fim da guerra, à interrupção das ações militares norte-americanas, ao bloqueio naval e à liberação de ativos iranianos.

Até o momento, não houve anúncio de um acordo definitivo entre os dois países.

Trump havia elevado o tom contra o Irã

Um dos principais motivos para o discurso de Pezeshkian ter sido acompanhado com atenção internacional foi o tom adotado por Donald Trump um dia antes.

Durante seu pronunciamento na Assembleia Geral, o presidente norte-americano afirmou que tinha uma decisão importante a tomar: chegar a um acordo com o Irã ou “aniquilar” a República Islâmica.

Trump também defendeu a atuação militar dos Estados Unidos no conflito e afirmou que seu governo pretende impedir que o Irã desenvolva armas nucleares.

A declaração aumentou a tensão diplomática em um momento no qual representantes dos dois governos haviam acabado de retomar contatos indiretos.

Pezeshkian afirmou que seu discurso havia sido alterado após ouvir as declarações do presidente norte-americano.

Irã diz estar aberto à diplomacia

Apesar das acusações e do tom duro contra os Estados Unidos e Israel, o presidente iraniano não fechou completamente a porta para negociações.

Pezeshkian afirmou que Teerã continua disposto a conversar, mas estabeleceu como condição que o processo ocorra sem ameaças ou imposições.

A posição indica uma combinação entre resistência às pressões militares e manutenção de uma possibilidade de negociação diplomática.

Segundo a Reuters, o presidente iraniano afirmou que o Irã não pretende se render, mas continua aberto à diplomacia como caminho para encerrar o conflito.

Estreito de Ormuz aumenta preocupação internacional

Outro ponto relacionado ao conflito é a situação do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas para o transporte internacional de petróleo.

O conflito e as restrições à navegação na região afetaram o transporte comercial e aumentaram a preocupação internacional com o fornecimento de energia.

Durante seu discurso, Pezeshkian afirmou que o Irã não aceita que a passagem seja utilizada para transportar armas destinadas a ataques contra o país.

Teerã também apresentou propostas relacionadas à segurança da região e à possibilidade de retomada do tráfego marítimo sob determinadas condições.

Guerra e diplomacia caminham lado a lado

O discurso de Pezeshkian ocorreu em um momento no qual ações militares e negociações diplomáticas acontecem simultaneamente.

Enquanto os governos envolvidos mantêm posições duras publicamente, representantes dos Estados Unidos e do Irã voltaram a conversar nos bastidores.

A situação demonstra a complexidade das negociações, que envolvem não apenas o programa nuclear iraniano, mas também sanções econômicas, segurança regional, circulação de navios pelo Estreito de Ormuz e o futuro das relações entre Teerã e Washington.

Na ONU, Pezeshkian procurou apresentar a posição iraniana diante de líderes de diferentes países e responsabilizar Estados Unidos e Israel pela escalada do conflito.

Ao mesmo tempo, sua declaração de que o Irã continua disposto a negociar mantém aberta uma possibilidade diplomática.

O cenário, porém, permanece incerto. As acusações entre os governos continuam, os confrontos ainda afetam a região e não há, até o momento, um acordo definitivo capaz de encerrar a guerra.

A Assembleia Geral da ONU segue sendo um dos principais espaços diplomáticos para a discussão da crise, enquanto representantes internacionais tentam encontrar caminhos para reduzir as tensões e evitar uma ampliação ainda maior do conflito no Oriente Médio.