A música erudita brasileira perdeu, neste sábado (3), um de seus nomes mais importantes. O maestro Roberto Tibiriçá Passos morreu aos 72 anos, em São Paulo, cidade onde nasceu, após enfrentar um câncer. A morte encerra uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada à música, mas deixa um legado que ultrapassa os palcos e as salas de concerto.

Nascido em 5 de janeiro de 1954, Roberto Tibiriçá iniciou sua carreira como pianista e, ao longo dos anos, consolidou-se como um dos grandes regentes brasileiros. Sua atuação esteve ligada a algumas das principais orquestras do país, além de projetos que aproximaram a música de concerto de públicos diferentes.

Mais do que conduzir músicos diante de uma orquestra, Tibiriçá construiu uma carreira marcada pela defesa da música brasileira, pelo diálogo entre diferentes gêneros e pela valorização de artistas que ajudaram a formar a história musical do país.

Sua morte, ocorrida em plena atividade profissional, representa uma perda significativa para a cultura brasileira.

Uma carreira construída ao longo de mais de 50 anos

A trajetória de Roberto Tibiriçá começou ainda como pianista, mas foi na regência que ele encontrou uma das principais formas de expressão artística.

Ao longo de mais de 50 anos de carreira, o maestro esteve à frente de importantes grupos sinfônicos brasileiros. Entre eles estão a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), a Orquestra Petrobras Sinfônica, a Sinfônica Heliópolis, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e a Orquestra Sinfônica do Paraná.

A passagem por essas instituições ajudou a consolidar seu nome no cenário da música de concerto no Brasil.

Como maestro e regente titular, Tibiriçá participou de diferentes projetos e temporadas, conduzindo repertórios de compositores brasileiros e estrangeiros e contribuindo para a formação de novas plateias.

Sua experiência também permitiu que ele transitasse por diferentes ambientes musicais, sempre mantendo uma relação próxima com a produção artística brasileira.

Maestro defendia o encontro entre música erudita e popular

Uma das características marcantes da trajetória de Roberto Tibiriçá foi sua disposição para aproximar a música erudita da música popular brasileira.

O maestro entendia que a música de concerto poderia dialogar com diferentes linguagens e alcançar pessoas que nem sempre tinham contato frequente com as salas tradicionais de concerto.

Essa visão ficou evidente em trabalhos ligados ao projeto Aquarius, iniciativa que promoveu apresentações de música clássica em espaços abertos e para grandes públicos.

Como regente em alguns dos concertos do projeto, Tibiriçá teve a oportunidade de dividir o palco musical com artistas de diferentes gerações e estilos.

Entre os nomes com os quais trabalhou estão Lenine, Adriana Calcanhotto e Luedji Luna.

A presença desses artistas ao lado de uma orquestra mostrava a capacidade do maestro de construir pontes entre universos musicais que, muitas vezes, são apresentados como distantes.

Para Tibiriçá, entretanto, a música poderia funcionar justamente como um ponto de encontro.

Um olhar além dos palcos

Embora seja lembrado principalmente pela atuação como maestro, Roberto Tibiriçá também desempenhou um papel importante na área fonográfica.

Em diferentes momentos de sua carreira, ele atuou como diretor artístico de gravadoras brasileiras, incluindo a RGE/Fermata e a Copacabana.

Nessas funções, participou da escolha, promoção e edição de trabalhos ligados à música clássica.

Sua atuação como executivo do setor fonográfico ampliou ainda mais sua contribuição para a preservação e divulgação da música de concerto no país.

Em uma época em que a indústria fonográfica tinha papel central na circulação de obras musicais, participar da produção e lançamento de gravações significava também ajudar a preservar registros que poderiam atravessar gerações.

Gravação histórica de Guiomar Novaes

Entre os projetos ligados à atuação de Tibiriçá no mercado fonográfico está a edição de um trabalho histórico da pianista Guiomar Novaes, um dos grandes nomes da música de concerto brasileira.

O álbum foi gravado no Brasil e reúne exclusivamente obras de compositores brasileiros, entre eles Camargo Guarnieri e Heitor Villa-Lobos.

O disco foi lançado em 1974 pela RGE e representa um registro de grande importância para a memória musical brasileira.

A participação de Roberto Tibiriçá nesse processo demonstra que sua preocupação com a música clássica não se limitava à realização de concertos.

Ele também entendia a importância de registrar, preservar e colocar à disposição do público obras e interpretações de artistas fundamentais para a história cultural do país.

Apoio a Magda Tagliaferro

Outra contribuição importante de Tibiriçá para a área fonográfica ocorreu durante sua passagem pela gravadora Copacabana.

Como um dos diretores da empresa, ele participou da aprovação de um dos últimos álbuns da pianista Magda Tagliaferro, importante artista brasileira de projeção internacional.

O disco, intitulado “Gravado em recital”, foi lançado em 1979 e recebeu esse nome justamente por registrar uma apresentação realizada ao vivo no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

O trabalho representa mais um exemplo da atuação de Tibiriçá na preservação da memória de grandes intérpretes da música brasileira.

Ao apoiar projetos dessa natureza, o maestro ajudou a garantir que momentos importantes da trajetória desses artistas fossem registrados e permanecessem acessíveis às futuras gerações.

Uma relação profunda com a música brasileira

A trajetória de Roberto Tibiriçá revela uma relação que ia muito além da simples interpretação de partituras.

Ele participou de diferentes etapas da cadeia musical: foi pianista, maestro, regente, diretor artístico e articulador de projetos culturais.

Essa multiplicidade de funções permitiu que atuasse tanto na criação e execução de concertos quanto na produção e preservação de gravações.

Sua carreira também atravessou diferentes períodos da música brasileira, acompanhando mudanças importantes no modo como a música erudita era apresentada, registrada e divulgada.

Em todos esses espaços, Tibiriçá manteve uma preocupação com a valorização da produção nacional.

Um legado que permanece

A morte do maestro deixa uma lacuna no cenário da música de concerto brasileira, mas seu trabalho permanece presente em diferentes registros.

Está nas orquestras que conduziu, nos músicos que acompanharam sua trajetória, nos concertos realizados e nas gravações que ajudou a tornar possíveis.

Também está na ideia de que a música erudita não precisa permanecer restrita a determinados espaços ou públicos.

Ao aproximar compositores clássicos de artistas da música popular e participar de projetos destinados a grandes plateias, Tibiriçá ajudou a ampliar os caminhos de acesso à música de concerto.

Sua trajetória mostra que um maestro pode exercer uma influência que ultrapassa o momento em que levanta a batuta diante de uma orquestra.

Despedida de um nome fundamental da cultura

Roberto Tibiriçá morreu aos 72 anos, mas deixou uma trajetória construída durante mais de cinco décadas.

Sua partida encerra uma carreira que permaneceu ativa até os últimos anos e que teve como principal característica a dedicação à música brasileira.

Da atuação em grandes orquestras ao trabalho nos bastidores das gravadoras, passando pela aproximação entre música erudita e popular, Tibiriçá construiu um percurso singular.

Seu legado também pode ser percebido na valorização de compositores, pianistas e intérpretes brasileiros cujas obras ganharam espaço em concertos e registros fonográficos.

A música de concerto brasileira perde um de seus grandes regentes, mas a obra construída por Roberto Tibiriçá permanece.

Cada gravação preservada, cada concerto realizado e cada músico que teve sua trajetória influenciada pelo maestro representa parte dessa herança.

Ao deixar a cena aos 72 anos, Roberto Tibiriçá não leva consigo aquilo que construiu. Pelo contrário: deixa uma memória artística que continua sendo executada, ouvida e revisitada.

Em um país de enorme diversidade musical, sua trajetória reforça a importância de preservar a música erudita brasileira e, ao mesmo tempo, mantê-la aberta ao diálogo com outras formas de expressão.

É esse talvez um dos maiores legados de Roberto Tibiriçá: mostrar, por meio de sua própria carreira, que a música pode atravessar fronteiras, aproximar públicos e sobreviver ao tempo.