Trump voltou a responsabilizar fatores ligados à guerra por trás da alta dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Nesta segunda-feira (5), o presidente americano afirmou que os ataques realizados pela Ucrânia contra refinarias de petróleo russas estão entre os principais motivos para a gasolina continuar cara no país. A declaração foi publicada pelo republicano na rede Truth Social, em meio a um cenário internacional de forte instabilidade no mercado de energia.
Na avaliação de Trump, o Estreito de Ormuz, que durante meses esteve no centro das preocupações do mercado devido aos conflitos envolvendo Estados Unidos e Irã, deixou de ser o principal fator de pressão sobre os preços. O presidente argumentou que o volume de petróleo exportado voltou a crescer, mas que os problemas relacionados ao refino continuam afetando a oferta de combustíveis.
Trump também criticou governadores democratas e afirmou que o fechamento de refinarias em estados governados pelo partido, especialmente na Califórnia, contribui para manter os preços elevados.
A declaração ocorre em um momento politicamente sensível nos Estados Unidos, às vésperas das eleições de meio de mandato. O preço da gasolina é um dos indicadores econômicos que mais afetam diretamente o cotidiano dos americanos, já que influencia o custo dos deslocamentos, do transporte de mercadorias e, indiretamente, de diversos produtos e serviços.
Trump muda o foco da explicação para a alta dos combustíveis
Em sua manifestação, Trump afirmou que o Estreito de Ormuz já não seria o principal responsável pela pressão sobre os preços da gasolina.
Segundo o presidente, o volume de barris exportados voltou a níveis elevados, mas os ataques contra instalações de refino na Rússia e o fechamento de unidades nos Estados Unidos estariam limitando a capacidade de transformar o petróleo bruto em combustíveis disponíveis ao consumidor.
A declaração coloca as refinarias no centro da discussão.
O petróleo passa por diferentes etapas antes de chegar ao tanque dos veículos. A existência de grandes volumes de petróleo bruto não significa automaticamente que gasolina, diesel e outros derivados estejam disponíveis na mesma proporção.
É justamente essa diferença entre produção, refino, transporte e distribuição que ajuda a explicar por que os preços podem permanecer elevados mesmo quando as exportações de petróleo começam a se recuperar.
Guerra no Oriente Médio também afetou o mercado
A alta dos combustíveis começou a ganhar força ao longo do ano em meio à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã.
Um dos principais pontos de tensão foi o Estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica utilizada para transportar petróleo produzido por alguns dos maiores produtores do mundo.
A região conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e desempenha papel fundamental no comércio internacional de energia.
Quando surgiram ameaças de interrupção do transporte pela região, o mercado reagiu rapidamente. Investidores e compradores passaram a considerar o risco de que uma quantidade menor de petróleo chegasse ao mercado global.
Esse movimento pode provocar alta nos preços mesmo antes de uma falta efetiva do produto.
O motivo é simples: o mercado trabalha também com expectativas. Se existe a possibilidade de redução da oferta no futuro, contratos podem ficar mais caros imediatamente.
Retomada das exportações não resolveu todos os problemas
Meses depois do início das turbulências, o fluxo de petróleo pelo Golfo Pérsico começou a apresentar recuperação.
Segundo estimativa do Goldman Sachs, as exportações da região chegaram a aproximadamente 23,3 milhões de barris por dia na última semana de setembro, volume próximo da média registrada em 2025.
Ainda assim, o preço internacional do petróleo permaneceu pressionado.
O barril do Brent, principal referência internacional, chegou a superar novamente a marca de US$ 100 na quinta-feira (1º).
Isso mostra que a retomada das exportações não é suficiente, sozinha, para normalizar o mercado.
O petróleo bruto é apenas uma parte da cadeia. É necessário também garantir capacidade de refino, transporte seguro e disponibilidade dos derivados.
Refinarias se tornam ponto central da crise
A capacidade de refino ganhou importância justamente porque os conflitos afetaram instalações responsáveis por transformar o petróleo bruto em produtos utilizados diariamente pela população.
Gasolina, diesel e querosene de aviação dependem dessa etapa.
Ataques contra refinarias russas, além de outras interrupções provocadas pelo cenário internacional, podem reduzir a disponibilidade desses produtos mesmo quando existe petróleo suficiente para ser processado.
O analista Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, destaca que produção, refino e transporte precisam ser analisados separadamente para compreender o comportamento dos preços.
Na prática, um país pode ter petróleo disponível, mas enfrentar dificuldades para transformá-lo em combustível ou para transportar o produto refinado até os consumidores.
Esse desequilíbrio ajuda a manter a pressão sobre os preços.
Estoques globais estão mais baixos
Outro fator importante apontado por especialistas é a redução dos estoques globais de petróleo.
De acordo com dados da Agência Internacional de Energia (IEA), os estoques mundiais caíram 507 milhões de barris desde fevereiro.
Ao mesmo tempo, países-membros liberaram mais de 300 milhões de barris de suas reservas estratégicas de emergência.
As reservas funcionam como uma espécie de proteção para momentos de crise. Quando os estoques comerciais diminuem, governos e empresas podem aumentar as compras para garantir segurança energética.
Esse movimento, por sua vez, ajuda a sustentar os preços.
Mesmo com a recuperação das exportações, portanto, o mercado ainda precisa recompor parte dos estoques perdidos durante o período de instabilidade.
Mercado continua preocupado com novos ataques
A reabertura ou normalização parcial das rotas de transporte não significa que o risco desapareceu.
O mercado continua acompanhando atentamente os conflitos e qualquer sinal de uma nova interrupção na produção ou no transporte de petróleo.
Ataques contra refinarias, instalações de produção ou navios podem provocar rapidamente uma nova redução da oferta.
A incerteza também influencia os contratos futuros. Quando governos e empresas acreditam que existe risco de falta de combustível, podem optar por armazenar mais petróleo e derivados.
Esse comportamento reduz a quantidade disponível imediatamente no mercado e pode contribuir para novas altas.
Inverno pode aumentar pressão sobre os preços
Outro fator que começa a entrar no radar dos analistas é a chegada do inverno no Hemisfério Norte.
Durante os meses mais frios, aumenta a demanda por energia nos Estados Unidos e em países europeus.
Além do consumo de gás natural, a procura por petróleo e seus derivados também pode crescer.
Para Felipe Sant’Anna, o aumento sazonal da demanda pode adicionar pressão ao mercado caso a oferta ainda não esteja completamente normalizada.
O resultado dependerá de como produção, refino, estoques e transporte estarão funcionando durante os próximos meses.
O que pode fazer o petróleo cair?
Especialistas avaliam que uma queda mais consistente dos preços dependerá principalmente da combinação de três fatores: recuperação duradoura das exportações, retomada da produção interrompida e normalização do mercado de combustíveis.
A Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos estima que aproximadamente 5,7 milhões de barris por dia de produção permaneçam parados, em média, durante o quarto trimestre.
A expectativa é que boa parte da produção do Oriente Médio volte a níveis próximos dos registrados antes do conflito no segundo trimestre de 2027.
Isso significa que o mercado ainda pode enfrentar meses de volatilidade.
Uma oferta maior e mais previsível tende a reduzir a pressão sobre os preços, especialmente se os estoques também começarem a ser recompostos.
Possível liberação de reservas pode aumentar oferta
Outra medida discutida internacionalmente é a liberação de reservas estratégicas.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, países da União Europeia discutem a possibilidade de liberar cerca de 50 milhões de barris de diesel, enquanto integrantes da Agência Internacional de Energia poderiam disponibilizar outros 50 milhões de barris de petróleo.
A entrada desses volumes no mercado poderia aumentar temporariamente a oferta e ajudar a reduzir a pressão sobre os preços.
Ainda assim, uma solução definitiva dependeria de uma estabilização mais ampla do cenário internacional.
Conflito entre EUA e Irã continua no centro das incertezas
Enquanto o mercado tenta encontrar equilíbrio, Estados Unidos e Irã permanecem em um impasse após meses de conflito e negociações sem acordo definitivo.
Entre os principais pontos de divergência estão o programa nuclear iraniano, as sanções impostas pelos Estados Unidos e a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.
O Irã reivindica o fim das sanções e garantias para retomar as negociações. Os Estados Unidos, por outro lado, exigem restrições ao programa nuclear iraniano e a manutenção da livre circulação de embarcações pela região.
Enquanto essas questões permanecerem sem solução, o mercado deverá continuar reagindo a cada nova informação.
Preço da gasolina continua sendo desafio político
A alta dos combustíveis tem impacto direto na vida dos consumidores e também representa um desafio político para o governo americano.
Quando gasolina e diesel ficam mais caros, o efeito ultrapassa os postos de combustível. O transporte de alimentos, produtos industriais e mercadorias também pode encarecer, aumentando a pressão sobre a inflação.
Por isso, a discussão sobre os preços do petróleo ganhou ainda mais importância nos Estados Unidos.
Ao responsabilizar os ataques ucranianos contra refinarias russas e as decisões de estados democratas pelo aumento da gasolina, Trump apresentou sua própria interpretação para o cenário.
Entretanto, o comportamento do petróleo é resultado de uma combinação de fatores: guerras, estoques, produção, capacidade de refino, transporte, demanda sazonal e expectativas do mercado.
A retomada das exportações representa um sinal positivo, mas ainda não garante uma queda imediata dos preços.
Enquanto conflitos e incertezas permanecerem no cenário internacional, consumidores e empresas deverão continuar convivendo com um mercado de energia volátil, no qual acontecimentos ocorridos a milhares de quilômetros de distância podem chegar rapidamente ao bolso de quem abastece o carro todos os dias.













