A música afro-brasileira e suas raízes ancestrais ganham um novo capítulo com o lançamento de “Pra gira girar – Uma celebração aos Tincoãs”, primeiro álbum do coletivo Pra Gira Girar. Previsto para 30 de outubro de 2026, pelo selo Amor in Sound, o disco reúne 12 canções do repertório dos Os Tincoãs, grupo baiano que marcou a história da música brasileira ao unir sonoridades tradicionais, espiritualidade e referências culturais de matriz africana.

O projeto surgiu a partir da repercussão positiva de um espetáculo criado pelo coletivo para homenagear o grupo original. A experiência nos palcos despertou nos músicos o desejo de registrar as interpretações em álbum e apresentar a obra dos Tincoãs a públicos que talvez ainda não conheçam a importância de sua trajetória.

A produção musical foi conduzida por Mario Caldato, com colaboração do baixista Alexandre Kassin, reunindo diferentes experiências musicais em torno de um repertório que atravessa décadas. O trabalho também conta com uma capa assinada pela artista Ilana Paterman Brasil e terá edição em LP, reforçando a proposta de valorizar a experiência musical e a memória cultural.

A história dos Tincoãs e sua contribuição para a música brasileira

Formado em 1960, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, o grupo Os Tincoãs construiu uma trajetória marcada pela valorização das tradições afro-brasileiras. A projeção alcançada durante a década de 1970 ajudou a consolidar sua identidade musical, caracterizada pela combinação de vozes, harmonias envolventes e referências ligadas à ancestralidade e à espiritualidade.

O repertório do grupo incorporou elementos culturais e religiosos de matriz africana, apresentando ao público composições que dialogam com tradições preservadas ao longo de gerações. Essa abordagem contribuiu para estabelecer Os Tincoãs como uma referência singular na música brasileira.

Suas canções não se limitavam à dimensão sonora. As letras, os arranjos e as referências espirituais ajudavam a construir uma linguagem artística que valorizava a memória coletiva e a presença das culturas afro-brasileiras na formação do país.

Ao escolher esse repertório para seu primeiro álbum, o Pra Gira Girar assume a tarefa de revisitar uma obra que carrega significados históricos e culturais. A proposta é manter essas composições em circulação, permitindo que novos ouvintes tenham contato com uma produção que continua despertando interesse mesmo décadas após seu período de maior projeção.

Álbum reúne 12 canções do repertório original

“Pra gira girar – Uma celebração aos Tincoãs” apresenta 12 músicas extraídas da discografia do grupo baiano. Entre as composições selecionadas estão “A força da Jurema”, de Mateus Aleluia, Dadinho e Heraldo Bozas, lançada em 1973; “Cordeiro de Nanã”, de Mateus Aleluia e Dadinho, de 1977; e “Lamento às águas”, também assinada pela dupla e lançada em 1977.

O repertório inclui ainda “Na beira do mar”, de 1973, além de “Oxossi te chama” e “Salmo”, ambas de 1975, composições que integram a fase de destaque dos Tincoãs.

A seleção revela a intenção de percorrer diferentes momentos da produção do grupo, reunindo músicas associadas à força de sua identidade artística. Cada releitura representa uma oportunidade de apresentar essas obras sob uma nova perspectiva, sem apagar as referências que fizeram parte de sua criação original.

O desafio de reinterpretar um repertório tão ligado à ancestralidade está em equilibrar renovação e respeito à obra homenageada. Nesse sentido, o projeto busca valorizar as composições e suas mensagens, colocando diferentes músicos em diálogo com uma tradição musical que permanece relevante.

A proposta também contribui para ampliar a circulação de canções que podem não estar presentes no cotidiano de parte do público, mas que ocupam um espaço importante na história da música afro-brasileira.

Alvaro Lancellotti lidera o coletivo

O núcleo central do Pra Gira Girar é formado por Alvaro Lancellotti, mentor do projeto e responsável pelos vocais, ao lado de Alan de Deus e Michele Leal, também nos vocais, e Pedro Costa, na guitarra.

A formação reúne artistas com funções complementares, criando uma base para a interpretação das composições escolhidas. A proposta musical se desenvolveu a partir do espetáculo dedicado aos Tincoãs, experiência que serviu como ponto de partida para a gravação do álbum.

Em declaração sobre a origem do trabalho, Alvaro Lancellotti explicou que a gravação não estava inicialmente nos planos do coletivo. Segundo ele, a receptividade do show levou os integrantes a perceberem a importância de registrar a homenagem.

“Esse disco é uma consequência do show, nada tínhamos planejado”, afirmou o músico ao explicar como a apresentação acabou dando origem ao projeto fonográfico.

Lancellotti também destacou que a riqueza da obra dos Tincoãs e a oportunidade limitada de parte do público de acompanhar o grupo ao vivo motivaram a iniciativa. Na avaliação do mentor, havia uma vontade genuína de reapresentar esse repertório e aproximá-lo de novas gerações.

A decisão de transformar o espetáculo em disco demonstra como apresentações ao vivo podem abrir caminhos para outros formatos de preservação e divulgação musical.

Participações ampliam a diversidade sonora

Além dos quatro integrantes do núcleo central, o álbum conta com a participação de Alexandre Kassin, no baixo e na coprodução; Anna Magalhães, na percussão; Diogo Gomes, no trompete; e Zé Manoel, no piano e nos vocais.

A presença desses músicos amplia as possibilidades de arranjo e acrescenta diferentes elementos à construção sonora do projeto. A produção conduzida por Mario Caldato, com a colaboração de Kassin, organiza essas contribuições em torno das características do repertório homenageado.

O disco também presta homenagem póstuma ao percussionista Zero Awá, que viveu entre 1957 e 2025 e aparece na ficha técnica da obra in memoriam. Sua inclusão reconhece sua participação no projeto e mantém sua memória ligada ao registro musical.

A edição em LP acrescenta uma dimensão especial ao lançamento, aproximando o álbum de uma tradição de escuta que valoriza o disco como obra completa, com repertório, identidade visual e sequência musical.

A capa criada por Ilana Paterman Brasil integra esse conjunto artístico, oferecendo uma identidade visual própria à homenagem.

Um projeto de memória e continuidade cultural

O lançamento de “Pra Gira Girar – Uma celebração aos Tincoãs” vai além da simples regravação de músicas conhecidas. O álbum nasce do reconhecimento de uma obra que reúne elementos fundamentais da cultura afro-brasileira e busca ampliar seu alcance por meio de novas interpretações.

Ao revisitar canções criadas em diferentes momentos da trajetória dos Tincoãs, o coletivo contribui para manter vivo um repertório ligado à ancestralidade, à espiritualidade e à memória cultural do país.

A iniciativa também chama atenção para a importância de projetos que recuperam trabalhos de artistas e grupos que ajudaram a construir a diversidade musical brasileira. Em um cenário no qual lançamentos inéditos disputam constantemente a atenção do público, revisitar obras históricas pode abrir espaço para novas descobertas e conversas sobre as raízes da música nacional.

Com lançamento previsto para 30 de outubro, o primeiro álbum do Pra Gira Girar transforma uma homenagem concebida para os palcos em um registro fonográfico destinado a circular entre diferentes públicos.

A expectativa do projeto é aproximar ouvintes antigos e novos da obra dos Tincoãs, reafirmando a capacidade da música de atravessar gerações e preservar histórias. Por meio das 12 faixas, o coletivo propõe uma celebração que une passado e presente, mantendo em movimento um legado artístico cuja importância ultrapassa o tempo de sua criação.