Jurista sul-africana de 85 anos recebeu o Nobel da Paz de 2026 e destacou sua trajetória na luta contra o apartheid, na defesa de Nelson Mandela e na responsabilização por violações de direitos humanos.

A jurista sul-africana Navi Pillay, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026, chamou a atenção ao fazer sua primeira declaração após receber a honraria nesta sexta-feira (9). Em tom descontraído, ela brincou sobre a possibilidade de dividir o prêmio com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, depois de comentar a recepção que recebeu.

“Talvez dividiria o prêmio com Trump”, afirmou Pillay, em uma referência bem-humorada ao presidente americano. A declaração ocorreu em meio à repercussão internacional da premiação e às manifestações anteriores de Trump, que havia defendido publicamente que merecia receber o reconhecimento por suas ações em conflitos internacionais.

A jurista também demonstrou surpresa com a homenagem e afirmou que, mesmo após décadas dedicadas ao Direito e à defesa das liberdades fundamentais, ainda precisava compreender a dimensão daquele momento. “Como advogada e juíza, ainda quero verificar se tudo isso é verdade”, declarou, questionando, em tom de brincadeira, se a premiação era realmente real.

A fala repercutiu por reunir humor, reconhecimento profissional e uma referência ao debate internacional sobre os esforços pela paz. Mais do que a brincadeira envolvendo Trump, a primeira manifestação de Pillay destacou a importância de defender os direitos humanos, investigar violações e garantir que decisões jurídicas sejam tomadas com base em provas e princípios legais.

Declarações sobre Gaza marcam primeira manifestação

Durante sua manifestação após receber o Nobel, Navi Pillay também falou sobre seu trabalho recente relacionado à situação na Faixa de Gaza. A jurista destacou a importância de apresentar conclusões baseadas na análise dos fatos, mesmo quando os resultados provocam controvérsias políticas e diplomáticas.

“A última coisa que fiz foi apresentar o relatório sobre Gaza, no qual afirmamos que o que está acontecendo lá é genocídio”, declarou.

Pillay também comentou as reações ao trabalho realizado e afirmou que uma das principais respostas recebidas foi o reconhecimento de sua coragem. Para ela, a aplicação imparcial da lei deve ser uma obrigação de quem atua no sistema de Justiça, e não uma atitude excepcional.

“Por que seria preciso coragem para dizer a verdade? Você interpreta a lei, analisa todos os fatos. É uma tomada de decisão imparcial”, afirmou.

As declarações refletem sua visão sobre o papel das instituições jurídicas diante de conflitos internacionais. Em situações marcadas por disputas políticas, violência e acusações graves, investigações independentes e análises fundamentadas são essenciais para avaliar responsabilidades e proteger as populações atingidas.

As conclusões apresentadas pela comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Gaza foram rejeitadas pelo governo israelense. A posição da comissão e a resposta de Israel fazem parte de uma controvérsia internacional que envolve questões humanitárias, jurídicas e diplomáticas.

Trump havia afirmado que merecia o Nobel da Paz

A brincadeira de Navi Pillay ocorreu dois dias depois de Donald Trump voltar a defender que deveria receber o Prêmio Nobel da Paz. Na quarta-feira (7), o presidente americano alegou que suas ações teriam impedido uma possível “destruição total do mundo”.

Trump tem utilizado iniciativas de seu governo em conflitos internacionais como argumento para justificar a reivindicação da honraria. A declaração voltou a colocar o presidente no centro das discussões sobre o reconhecimento internacional de esforços diplomáticos e iniciativas voltadas à redução de conflitos.

A menção feita por Pillay, entretanto, foi apresentada em tom de humor, sem representar um anúncio de compartilhamento formal do prêmio.

O Nobel da Paz é concedido pelo Comitê Norueguês do Nobel a pessoas ou organizações reconhecidas por contribuições relacionadas à paz. A escolha dos premiados segue um processo próprio, e a premiação não pode ser alterada por uma declaração informal feita durante uma entrevista ou cerimônia.

A referência a Trump acabou acrescentando um elemento de descontração à primeira manifestação pública da jurista, mas o foco de seu discurso permaneceu relacionado à defesa dos direitos humanos e à continuidade de seu trabalho jurídico.

Uma trajetória marcada pela luta contra o apartheid

Aos 85 anos, Navi Pillay construiu uma carreira que atravessa diferentes períodos da história política e jurídica contemporânea. Nascida em 1941, na província de Natal, na África do Sul, ela pertence à comunidade tâmil, de origem indiana, e iniciou sua trajetória profissional em um contexto marcado pela segregação racial institucionalizada.

Em 1967, tornou-se a primeira mulher a abrir um escritório de advocacia em sua província. Durante o regime do apartheid, que vigorou oficialmente entre 1948 e o início da década de 1990, a população negra enfrentava restrições de direitos, discriminação sistemática e violência praticada por agentes do Estado.

Nesse cenário, Pillay atuou na defesa de ativistas contrários ao regime e denunciou casos de tortura e violações de direitos de pessoas presas. Seu trabalho jurídico ocorreu em um período no qual a contestação às políticas segregacionistas podia representar riscos pessoais e profissionais.

Entre os nomes ligados à resistência ao apartheid está Nelson Mandela, principal símbolo da luta contra o regime. Mandela permaneceu preso durante 27 anos e foi libertado em 1990, antes de se tornar presidente da África do Sul.

Em 1993, Mandela dividiu o Prêmio Nobel da Paz com Frederik de Klerk, então presidente sul-africano. A honraria reconheceu os esforços para encerrar pacificamente o apartheid e estabelecer as bases de uma democracia no país.

A atuação de Pillay integrou esse contexto mais amplo de resistência e defesa de direitos, contribuindo para uma trajetória que posteriormente alcançaria instituições jurídicas internacionais.

Atuação em tribunais internacionais

Com o fim do apartheid, a carreira de Navi Pillay ganhou dimensão internacional. Em 1995, ela foi nomeada juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado para julgar pessoas responsáveis por crimes relacionados ao genocídio de 1994.

Pillay presidiu o tribunal entre 1999 e 2003 e participou de decisões históricas envolvendo violência sexual em conflitos armados. A atuação do órgão contribuiu para consolidar o entendimento de que determinados atos de violência sexual podem constituir crimes internacionais, inclusive crimes contra a humanidade e genocídio, quando presentes os requisitos jurídicos correspondentes.

Em 2003, a jurista passou a integrar o Tribunal Penal Internacional, instituição responsável por julgar indivíduos acusados de alguns dos crimes mais graves reconhecidos pelo Direito Internacional.

Anos depois, entre 2008 e 2014, exerceu o cargo de alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Durante esse período, trabalhou na promoção e na proteção de direitos fundamentais em diferentes regiões, acompanhando situações de violência, discriminação e violações de garantias individuais.

A experiência acumulada em tribunais e organismos multilaterais consolidou sua presença no cenário internacional e ampliou sua atuação em debates sobre responsabilização, justiça e proteção de populações vulneráveis.

Compromisso com a Justiça continua aos 85 anos

Mesmo após décadas de atuação, Navi Pillay afirmou que pretende continuar contribuindo para iniciativas relacionadas aos direitos humanos e à Justiça internacional.

Durante sua manifestação, ela destacou que permanece trabalhando como juíza ad hoc no caso apresentado pela Gâmbia contra Mianmar, relacionado às acusações de genocídio contra a população rohingya.

A jurista também mencionou sua participação em atividades de apoio à Academia dos Princípios de Nuremberg, voltada à promoção do Direito Penal Internacional e à responsabilização por crimes graves.

“Acabei de completar 85 anos no mês passado”, afirmou Pillay ao comentar as perguntas que recebe sobre quando pretende encerrar suas atividades. A declaração demonstrou sua disposição de continuar contribuindo enquanto tiver condições de exercer suas funções.

Nobel reconhece trajetória internacional

A concessão do Nobel da Paz de 2026 coloca em evidência uma trajetória que reúne advocacia, magistratura, atuação em tribunais internacionais e participação em organismos das Nações Unidas.

O reconhecimento também chama atenção para o papel das instituições jurídicas na investigação de violações, na proteção das vítimas e na responsabilização de pessoas acusadas de crimes graves.

Ao comentar a premiação, Navi Pillay combinou uma brincadeira sobre Donald Trump com reflexões sobre sua atuação profissional e a importância da imparcialidade na aplicação da lei.

Sua trajetória, iniciada durante o apartheid sul-africano e ampliada por décadas de trabalho internacional, mostra como a defesa dos direitos humanos pode ultrapassar fronteiras nacionais e alcançar diferentes contextos de conflito.

Aos 85 anos, a jurista afirma que continua disposta a contribuir para esse trabalho. O Nobel da Paz representa, nesse contexto, o reconhecimento de uma carreira dedicada à Justiça internacional e à defesa dos direitos fundamentais.