A possibilidade de utilizar doses muito pequenas de substâncias psicodélicas para compreender melhor o funcionamento do cérebro tem despertado o interesse da comunidade científica. Um estudo piloto conduzido por pesquisadores da Universidade de Maastricht, na Holanda, sugere que microdoses de LSD podem estar associadas a melhorias na atenção sustentada de mulheres saudáveis. Os resultados foram apresentados no congresso da Sociedade Europeia de Neuropsicofarmacologia (ECNP), realizado em Munique, na Alemanha.

A pesquisa identificou diferenças no desempenho de mulheres que receberam pequenas doses de LSD em comparação com participantes que receberam placebo, uma substância sem princípio farmacológico ativo. Entre os resultados observados, as mulheres que receberam a substância apresentaram respostas mais rápidas em uma tarefa de atenção e registraram menos lapsos durante o teste.

Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o trabalho é preliminar e não permite afirmar que a microdosagem melhore a capacidade cognitiva de maneira geral. O estudo também não demonstra que o LSD seja um tratamento eficaz para transtornos de atenção ou outras condições de saúde.

A investigação faz parte de um campo de pesquisa que procura entender como substâncias psicodélicas podem influenciar processos mentais específicos, quais são seus possíveis efeitos e quais riscos precisam ser considerados antes de qualquer aplicação clínica.

Como o estudo foi realizado

A pesquisa envolveu 48 adultos saudáveis, sendo 24 mulheres, com idade média de 36,9 anos. Durante um período de duas semanas, os participantes receberam quatro doses de 15 microgramas de LSD ou placebo, conforme a distribuição estabelecida pelos pesquisadores.

O estudo foi conduzido com distribuição aleatória dos participantes entre os grupos. Além disso, nem os voluntários nem os pesquisadores sabiam quem havia recebido a substância psicodélica ou o placebo durante a realização do experimento. Esse procedimento, conhecido como duplo-cego, ajuda a reduzir a influência das expectativas dos participantes e dos pesquisadores sobre os resultados.

Os cientistas avaliaram diferentes aspectos do funcionamento cognitivo, incluindo a atenção sustentada, o processamento de informações e a memória de trabalho.

A atenção sustentada é a capacidade de manter o foco em uma atividade durante determinado período, mesmo quando a tarefa é repetitiva ou exige concentração contínua. Essa habilidade é importante em diversas situações cotidianas, como acompanhar uma explicação, ler um texto, executar atividades profissionais e responder a estímulos relevantes.

Para avaliar essa capacidade, os participantes realizaram uma tarefa na qual precisavam observar uma tela e responder rapidamente quando determinado sinal aparecia.

Foi nesse teste específico que os pesquisadores identificaram a diferença mais evidente entre as mulheres que receberam LSD e aquelas que receberam placebo.

Mulheres apresentaram respostas mais rápidas

Entre as participantes que receberam microdoses de LSD, o tempo médio de reação foi de 308 milissegundos. No grupo que recebeu placebo, a média foi de 335 milissegundos.

A diferença representa uma resposta aproximadamente 27 milissegundos mais rápida entre as mulheres que receberam a substância.

Os pesquisadores também observaram uma diferença na quantidade de lapsos de atenção durante a tarefa. Entre as participantes que receberam LSD, a média foi de 2,3 lapsos, enquanto no grupo placebo o número chegou a 4,7.

Esses resultados sugerem que, nas condições específicas do experimento, as mulheres que receberam a substância conseguiram responder mais rapidamente aos estímulos e apresentaram menos falhas de atenção.

Entretanto, é importante interpretar os números com cautela. Uma diferença observada em uma tarefa laboratorial não significa necessariamente que a pessoa terá melhor desempenho em todas as atividades do cotidiano.

Além disso, os dados apresentados não permitem concluir que os mesmos resultados ocorreriam em pessoas com dificuldades de concentração, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou outras condições clínicas.

Efeito não foi observado da mesma maneira entre homens

Um dos aspectos que chamou a atenção dos pesquisadores foi a diferença entre os resultados encontrados nas mulheres e nos homens.

Segundo os dados divulgados, o efeito observado na tarefa de atenção sustentada entre as mulheres não se repetiu da mesma maneira entre os participantes do sexo masculino.

Essa diferença levantou novas questões sobre os possíveis fatores biológicos que podem influenciar a resposta individual ao LSD.

Entre as hipóteses que merecem investigação estão as possíveis relações entre características hormonais, o ciclo menstrual e o uso de contraceptivos hormonais. Esses fatores podem ser importantes para compreender se existem diferenças na resposta à substância em determinados grupos.

A pesquisadora Iva Totomanova, da Universidade de Maastricht, destacou que os resultados não devem ser interpretados como uma prova de que as mulheres respondem melhor ao LSD em todas as situações.

A cientista também ressaltou que o estudo não demonstra uma melhora geral da cognição. A diferença identificada está relacionada principalmente ao desempenho em uma tarefa específica de atenção sustentada.

Os pesquisadores defendem que estudos futuros incluam amostras maiores e investiguem de forma mais detalhada os fatores que podem explicar os resultados observados.

O que é microdosagem?

A microdosagem consiste no uso de quantidades muito pequenas de uma substância psicodélica, geralmente abaixo das doses associadas a alterações perceptivas intensas.

Nos últimos anos, a prática passou a despertar interesse entre pessoas que acreditam que pequenas quantidades dessas substâncias podem favorecer a concentração, a criatividade, o humor ou a produtividade.

Entretanto, o interesse popular não deve ser confundido com comprovação científica. Os estudos sobre microdosagem ainda apresentam limitações, e os resultados variam conforme a substância, a quantidade utilizada, as características dos participantes e os métodos empregados nas pesquisas.

No caso do LSD, trata-se de uma substância psicodélica potente que atua principalmente em sistemas de neurotransmissão envolvidos na percepção e em outros processos cerebrais. Seus efeitos podem variar de acordo com diversos fatores individuais e contextuais.

Mesmo quando as quantidades são pequenas, não é possível presumir que o uso seja isento de riscos. A substância pode provocar efeitos psicológicos e físicos indesejados, e a composição e a concentração de produtos obtidos fora de ambientes controlados podem ser incertas.

Por isso, os resultados de uma pesquisa experimental não devem ser interpretados como uma recomendação para utilizar LSD com a finalidade de melhorar a atenção.

Memória e processamento de informações continuam sem respostas claras

Além da atenção sustentada, os pesquisadores avaliaram o processamento de informações e a memória de trabalho, responsável por manter e manipular temporariamente informações necessárias para realizar determinadas tarefas.

Essas capacidades são fundamentais para atividades como acompanhar instruções, resolver problemas, fazer cálculos mentalmente e organizar informações durante uma conversa.

No entanto, o estudo não encontrou resultados conclusivos que permitissem afirmar que as microdoses de LSD melhoram essas funções cognitivas.

A ausência de conclusões claras reforça a necessidade de não generalizar os resultados observados na atenção para outras áreas do funcionamento cerebral.

Para compreender melhor os possíveis efeitos da substância, novas pesquisas precisarão avaliar diferentes tarefas cognitivas, verificar a consistência dos resultados e investigar se eventuais diferenças permanecem ao longo do tempo.

Também será importante estabelecer se as mudanças observadas possuem relevância prática ou se ficam restritas às condições específicas dos testes realizados em laboratório.

Pesquisadores defendem novos estudos

Por se tratar de um estudo piloto, a pesquisa possui limitações importantes, especialmente em relação ao número de participantes. Uma amostra de 48 pessoas pode ajudar a identificar sinais que merecem investigação, mas é insuficiente para estabelecer conclusões amplas sobre os efeitos da substância na população.

Os pesquisadores destacam a necessidade de realizar estudos maiores, com grupos mais diversificados e avaliações capazes de esclarecer possíveis diferenças relacionadas ao sexo biológico, aos hormônios e a outros fatores individuais.

Também será necessário investigar a segurança do uso repetido, os possíveis efeitos adversos e a duração de eventuais alterações cognitivas.

O principal resultado da pesquisa é a identificação de um possível efeito específico sobre a atenção sustentada em mulheres, e não a comprovação de que a microdosagem de LSD melhora a inteligência, a memória ou a capacidade de concentração de forma geral.

Até que novas evidências sejam produzidas, a microdosagem permanece um tema de investigação científica, sem comprovação suficiente para ser recomendada como estratégia de aprimoramento cognitivo ou tratamento de problemas de atenção.