Dez anos se passaram desde uma das histórias criminais mais dolorosas envolvendo uma família paraibana no exterior. Em agosto de 2016, Marcos Campos Nogueira, Janaína Santos Américo e os dois filhos pequenos do casal foram assassinados dentro de casa, na cidade de Pioz, na Espanha.

O autor dos quatro homicídios, o sobrinho de Marcos, Patrick Nogueira Gouveia, confessou o crime e acabou condenado pela Justiça espanhola à prisão permanente revisável. Mas a história não terminou ali.

No Brasil, o nome de Marvin Henriques Correia continua ligado ao caso. Amigo de Patrick, ele é acusado pela Polícia Civil da Paraíba de ter incentivado e auxiliado o assassino por meio de mensagens trocadas durante e depois dos homicídios.

Aos 18 anos, Marvin foi preso em João Pessoa. Desde então, sua trajetória no processo foi marcada por prisões, liberdade, absolvição, recurso e reabertura da ação penal.

Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou um novo recurso da defesa. Com isso, o processo permanece na Justiça paraibana.

O caso, portanto, chega aos dez anos sem uma sentença definitiva sobre a responsabilidade criminal de Marvin.

As mensagens que mudaram o destino de Marvin

A participação de Marvin entrou no centro das investigações principalmente por causa das conversas que ele manteve com Patrick pelo WhatsApp.

Em 17 de agosto de 2016, Patrick matou os tios e os dois filhos do casal. Segundo a investigação, depois de cometer parte dos assassinatos, ele passou a relatar ao amigo o que estava acontecendo.

Patrick teria enviado fotos dos corpos e contado detalhes sobre o esquartejamento e a tentativa de esconder os restos mortais.

Para a Polícia Civil da Paraíba, as mensagens não revelavam apenas que Marvin sabia do crime. Na interpretação dos investigadores, elas indicavam que o jovem teria dado orientações ao amigo sobre como evitar vestígios, esconder os corpos e deixar a residência sem levantar suspeitas.

Foi justamente essa interpretação que colocou Marvin na condição de acusado.

A investigação também chamou atenção para uma publicação feita por ele no Twitter no mesmo dia dos assassinatos: “Hoje aconteceu uma doideira que nunca poderei contar a ninguém”.

A defesa, entretanto, contesta a leitura feita pela polícia e pelo Ministério Público. O advogado Sheyner Asfóra sustenta que a simples troca de mensagens não transforma Marvin em participante dos homicídios.

Um jovem de 18 anos no centro de um crime brutal

Quando foi preso, Marvin tinha apenas 18 anos.

Ele foi detido em João Pessoa, em 28 de outubro de 2016, e levado para a Penitenciária de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes, o PB1.

Por causa da repercussão do caso, ficou separado dos demais detentos.

Pouco mais de um mês depois, deixou a prisão e passou a responder ao processo em liberdade, com medidas cautelares e monitoramento eletrônico.

Em junho de 2019, voltou a ser preso preventivamente. A Justiça apontou uma suposta tentativa de rompimento da tornozeleira eletrônica. A defesa negou e afirmou que o equipamento apresentava desgaste provocado pelo uso.

A sequência de acontecimentos fez com que o caso permanecesse por anos entre decisões judiciais e recursos.

Absolvição e reabertura do processo

Em 2021, Marvin recebeu uma decisão favorável: a Justiça da Paraíba determinou sua absolvição sumária no processo relacionado aos homicídios.

Naquele momento, o entendimento era de que ele não havia participado dos assassinatos nem praticado crime previsto no Código Penal.

O Ministério Público da Paraíba recorreu.

Em fevereiro de 2023, o Tribunal de Justiça da Paraíba revogou a absolvição e determinou que o processo continuasse. O relator, desembargador João Benedito da Silva, apontou a existência de indícios de que Marvin teria instigado Patrick e prestado apoio moral durante os crimes. A decisão foi acompanhada pelos demais integrantes da Câmara Criminal.

A partir daí, a acusação voltou a ser analisada pela Justiça.

Em 3 de março de 2026, o STJ rejeitou mais um recurso apresentado pela defesa. Os advogados buscavam levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal, mas o tribunal entendeu que o pedido exigiria uma nova análise de fatos e provas, o que não caberia naquele tipo de recurso.

Na prática, a decisão manteve o processo na Justiça brasileira.

Defesa diz que Marvin não cometeu crime

A defesa mantém, desde o início, uma posição firme: Marvin não participou dos assassinatos.

Segundo o advogado Sheyner Asfóra, o jovem ficou assustado ao perceber o que Patrick estava fazendo e não tinha maturidade para compreender como deveria agir.

A defesa admite que Marvin errou ao não procurar a polícia ou outras pessoas para contar o que estava acontecendo, mas sustenta que essa omissão não configura participação nos homicídios.

O advogado também afirma que os dois eram amigos de colégio e que Marvin não conhecia o lado violento de Patrick.

Para a defesa, Patrick agiu sozinho e seria incorreto transformar uma conversa em prova de coautoria ou instigação.

Após a decisão do STJ, os advogados afirmaram que aguardam o retorno do processo à primeira instância e continuam confiantes no reconhecimento da ausência de responsabilidade criminal de Marvin.

Polícia Civil mantém acusação

O delegado Marcos Paulo, que participou das investigações na Paraíba, mantém entendimento oposto.

Para ele, Marvin poderia ter tentado impedir Patrick, especialmente por causa da proximidade entre os dois. Na avaliação do investigador, entretanto, as mensagens mostram que o amigo não tentou interromper o crime.

Segundo o delegado, Marvin teria incentivado Patrick a continuar, pesquisado formas de ocultar cadáveres e dado orientações para evitar que o assassino deixasse rastros.

É justamente essa diferença de interpretação que permanece no centro do processo: para a acusação, as conversas demonstram auxílio e incentivo; para a defesa, elas não são suficientes para estabelecer responsabilidade penal.

Polícia Federal teve outra interpretação

Outro elemento importante na história é que a Polícia Federal chegou a uma conclusão diferente.

Durante a investigação federal, o delegado Gustavo Barros afirmou que não havia elementos suficientes para considerar criminosa a conduta de Marvin.

Segundo a avaliação apresentada à época, quando Marvin começou a conversar com Patrick, três dos quatro homicídios já haviam ocorrido. Para a PF, as informações reunidas não demonstravam que a participação de Marvin teria sido determinante para a realização do crime.

A conduta poderia ser considerada moralmente reprovável, mas, na avaliação federal, não havia elementos para caracterizá-la como participação em homicídio.

Essa divergência entre órgãos de investigação ajuda a explicar por que o caso de Marvin se tornou tão complexo juridicamente.

A dor de quem ficou

Enquanto o processo avança lentamente, para a família das vítimas o tempo não apaga o que aconteceu.

Walfran Campos, irmão de Marcos e tio de Patrick, acompanha a história desde os primeiros dias. Ele considera que Marvin deveria ter procurado ajuda quando tomou conhecimento do que estava acontecendo.

Para ele, a demora na definição judicial gera sensação de impunidade.

Apesar da revolta, Walfran afirma que não deseja vingança. O que busca, segundo ele, é justiça e uma resposta definitiva das instituições.

A declaração revela uma dimensão que muitas vezes desaparece em meio às discussões jurídicas: por trás dos processos, recursos e decisões existem quatro vidas interrompidas e uma família que precisou reconstruir a própria existência depois de uma tragédia.

O exame de sanidade

Durante o processo, Marvin também foi submetido a exame psiquiátrico, solicitado pelo Ministério Público da Paraíba.

O laudo realizado em 2018 concluiu que ele não apresentava doença mental. O documento descreveu o jovem como lúcido e orientado, com memória preservada, pensamento coerente e capacidade crítica mantida.

A defesa contestou a forma como o exame foi realizado e apresentou recurso, alegando que o procedimento deveria ser revisto.

Dez anos depois

Atualmente, Marvin responde ao processo em liberdade.

Segundo a defesa, ele leva uma vida discreta, trabalha com o pai e se dedica aos estudos. Também possui uma empresa registrada no ramo de edição de livros.

Em 2023, sete anos depois da chacina, falou publicamente sobre o caso em uma produção documental espanhola. Na ocasião, afirmou que gostaria de ser reconhecido por outros aspectos de sua vida, além da ligação com o episódio que marcou sua juventude.

Mas a história ainda não chegou ao fim.

Relembre a chacina de Pioz

Os assassinatos aconteceram em 17 de agosto de 2016, na cidade de Pioz, na província de Guadalajara, na Espanha.

Marcos Campos Nogueira, Janaína Santos Américo e os filhos Maria Carolina, de 4 anos, e David, de apenas 1 ano, foram mortos dentro da residência.

Os corpos foram encontrados aproximadamente um mês depois, em 18 de setembro. O imóvel chamou a atenção das autoridades depois que um vizinho percebeu um forte odor.

Patrick Nogueira se entregou à polícia espanhola em outubro de 2016 e confessou os quatro assassinatos. Em 2018, foi condenado à prisão permanente revisável.

As cinzas das vítimas foram posteriormente levadas para a Paraíba, onde a família foi sepultada.

Dez anos depois, a história permanece dividida entre duas certezas e uma pergunta.

A primeira certeza é a condenação de Patrick pelos quatro assassinatos. A segunda é que a família de Marcos e Janaína jamais poderá recuperar as vidas que perdeu.

A pergunta que ainda aguarda resposta da Justiça brasileira é outra: qual foi, de fato, a responsabilidade de Marvin Henriques Correia naquela noite em Pioz?

Enquanto acusação e defesa apresentam interpretações opostas sobre as mesmas mensagens, o processo continua aberto. E, para todos os envolvidos, dez anos depois, o caso ainda está longe de ter um ponto final.