O general Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, chegou à Colômbia na quarta-feira (26) para uma série de reuniões com a nova cúpula militar do país. A visita acontece em meio a uma aproximação acelerada entre Washington e Bogotá na área de segurança e tem como principal objetivo ampliar a cooperação contra organizações ligadas ao narcotráfico, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional.
Donovan desembarcou no país poucos dias depois de a Colômbia formalizar sua entrada na Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), iniciativa liderada pelos Estados Unidos para fortalecer a atuação conjunta dos países do continente contra redes criminosas que atravessam fronteiras.
A movimentação ocorre também no início do governo do presidente Abelardo de la Espriella, que assumiu o comando da Colômbia em 7 de agosto e adotou uma postura mais dura no enfrentamento ao narcotráfico e aos grupos armados. A nova administração pretende ampliar as operações militares e policiais contra essas organizações e estreitar os vínculos de segurança com os Estados Unidos.
Encontro com a nova cúpula militar
A visita de Donovan acontece em um momento de renovação da liderança das Forças Armadas colombianas.
O presidente De la Espriella participou na quarta-feira da transmissão de comando da nova cúpula militar. O maior-general Erick Rodríguez Aparicio assumiu como comandante-geral das Forças Militares, enquanto o maior-general Carlos Carrasquilla Gómez passou a ocupar a chefia do Estado-Maior Conjunto.
É com essa nova estrutura que o comandante do Comando Sul pretende discutir estratégias para ampliar a cooperação operacional entre os dois países.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, o Comando Sul afirmou que Donovan foi à Colômbia para se reunir com os novos líderes militares e discutir esforços conjuntos contra os chamados “narcoterroristas”, além de fortalecer a parceria de segurança entre Estados Unidos e Colômbia.
A declaração também classificou a Colômbia como um parceiro histórico dos Estados Unidos na luta contra os cartéis e destacou o ingresso recente do país na A3C.
Colômbia entra na coalizão liderada por Washington
A entrada da Colômbia na Coalizão das Américas contra os Cartéis representa uma mudança importante na política de segurança regional.
O governo colombiano formalizou sua participação na iniciativa em agosto. Segundo o Ministério da Defesa do país, a decisão busca estabelecer uma resposta coordenada contra o terrorismo, o narcotráfico, o crime organizado transnacional e outras ameaças à segurança regional.
A cooperação faz parte do chamado Escudo das Américas, estratégia de segurança impulsionada pelo governo do presidente Donald Trump.
Para Washington, a Colômbia ocupa uma posição estratégica no combate ao tráfico internacional de drogas devido à sua localização geográfica e à presença histórica de organizações criminosas e grupos armados em diferentes regiões do território.
A aproximação com o novo governo colombiano também marca uma mudança em relação ao período anterior, quando as relações entre Bogotá e Washington passaram por momentos de tensão durante a administração de Gustavo Petro.
Com De la Espriella, os dois países passaram a adotar uma agenda de segurança mais alinhada.
Três drones MQ-9A Reaper serão emprestados
Como parte dessa nova fase de cooperação, Estados Unidos e Colômbia também acertaram a transferência temporária de três drones MQ-9A Reaper.
As aeronaves, fabricadas pela General Atomics Aeronautical Systems, deverão ser utilizadas inicialmente sob regime de empréstimo e terão como principais funções missões de inteligência, vigilância e reconhecimento.
Os equipamentos poderão ampliar a capacidade das Forças Militares colombianas de monitorar áreas utilizadas por organizações criminosas e corredores associados ao narcotráfico.
O acordo também prevê a possibilidade de aquisição posterior de uma quarta aeronave pela Colômbia.
Os Reaper possuem capacidade de permanecer durante longos períodos em voo, característica que permite acompanhar movimentações em regiões extensas e de difícil acesso.
A incorporação dos equipamentos é considerada um dos principais símbolos da nova aproximação militar entre Bogotá e Washington.
Estratégia colombiana fica mais dura
A chegada de Donovan ocorre paralelamente a uma mudança significativa na política de segurança da Colômbia.
Durante a campanha e nos primeiros dias de governo, De la Espriella prometeu abandonar a estratégia de negociações adotada pelo governo anterior e intensificar o combate direto às organizações criminosas e aos grupos armados.
O novo governo pretende tratar determinadas organizações criminosas como estruturas terroristas e criar instrumentos jurídicos específicos para ampliar as possibilidades de atuação do Estado.
A administração também sinalizou uma postura mais agressiva contra grupos ligados ao narcotráfico e organizações guerrilheiras.
Essa mudança ocorre em meio a uma situação de violência considerada grave pelo novo governo, que afirma enfrentar um dos períodos mais difíceis de segurança dos últimos anos.
Estados Unidos ampliam pressão contra cartéis
Do lado norte-americano, a estratégia também passou por uma mudança importante.
O Comando Sul vem realizando operações contra embarcações que, segundo os Estados Unidos, estariam envolvidas em rotas de narcotráfico.
Nos últimos dias, a estrutura militar norte-americana anunciou diferentes operações classificadas como ataques letais contra embarcações suspeitas de envolvimento com organizações de narcotráfico.
Em 23 de agosto, por exemplo, uma força-tarefa subordinada ao Comando Sul realizou uma operação contra uma embarcação no Pacífico Oriental. Segundo os militares norte-americanos, a embarcação estava envolvida em atividades de narcotráfico e dois integrantes de uma organização classificada pelos EUA como narcoterrorista morreram na ação.
Dois dias depois, em 25 de agosto, outra operação foi realizada no Caribe. O Comando Sul informou que quatro pessoas classificadas como narcoterroristas morreram na ação.
A intensificação dessas operações demonstra que Washington pretende adotar uma postura mais ofensiva contra as organizações criminosas que considera ameaças à segurança regional.
Uma parceria que vai além do combate às drogas
Embora o narcotráfico seja o principal tema da aproximação, a cooperação entre Estados Unidos e Colômbia envolve uma agenda mais ampla.
O intercâmbio de informações, o treinamento militar, o uso de tecnologias de vigilância e o compartilhamento de capacidades operacionais fazem parte dessa nova etapa.
Para Bogotá, o apoio norte-americano pode representar acesso a equipamentos e conhecimentos capazes de ampliar a capacidade de combate a organizações que atuam em regiões de difícil acesso.
Para Washington, a Colômbia é um parceiro estratégico em uma área considerada fundamental para a segurança do continente.
A posição geográfica do país, com acesso aos oceanos Pacífico e Atlântico e proximidade de importantes rotas internacionais de tráfico, aumenta seu peso dentro da estratégia norte-americana.
Visita de Donovan ocorre em momento simbólico
A presença do comandante do Comando Sul em território colombiano poucos dias após a posse do novo governo não é vista apenas como uma visita protocolar.
Ela sinaliza que a relação militar entre os dois países entrou em uma nova fase.
A ida de Donovan também inclui atividades em regiões diretamente afetadas pelo narcotráfico. Nesta quinta-feira (27), o general esteve em Tumaco, no departamento de Nariño, acompanhado pelo ministro da Defesa colombiano, Jorge Mora. A região é considerada estratégica no combate aos cultivos ilícitos e às estruturas criminosas que atuam no Pacífico colombiano.
A escolha do local reforça a dimensão prática da nova parceria.
Mais do que reuniões em gabinetes, Estados Unidos e Colômbia buscam aproximar suas estruturas militares das áreas onde o narcotráfico mantém presença.
Desafio será transformar cooperação em resultados
Apesar da aproximação entre os governos, o combate ao narcotráfico continua sendo um desafio complexo.
As organizações criminosas possuem estruturas descentralizadas, capacidade financeira e acesso a diferentes rotas internacionais. Além disso, muitas delas estão ligadas a atividades que ultrapassam o tráfico de drogas, como mineração ilegal, extorsão, contrabando e controle territorial.
Por isso, equipamentos militares e operações de segurança representam apenas uma parte da resposta.
O enfrentamento também depende de inteligência, fortalecimento das instituições, combate à lavagem de dinheiro, controle das fronteiras e criação de alternativas econômicas para comunidades vulneráveis.
A experiência colombiana mostra que combater o narcotráfico exige uma estratégia de longo prazo.
Nova fase na relação entre Bogotá e Washington
A chegada do general Francis L. Donovan simboliza uma nova etapa na relação entre Colômbia e Estados Unidos.
Com a entrada de Bogotá na A3C, a chegada dos drones MQ-9A Reaper e o alinhamento político entre os governos de Donald Trump e Abelardo de la Espriella, os dois países caminham para uma cooperação militar mais próxima.
O objetivo declarado é enfrentar organizações criminosas que atuam além das fronteiras e fortalecer a segurança regional.
Para os colombianos que vivem em áreas afetadas pela violência, porém, o resultado mais importante dessa aproximação será medido no cotidiano: na redução do poder dos grupos armados, na recuperação de territórios e na possibilidade de viver com mais segurança.
A nova parceria entre Bogotá e Washington começa cercada de expectativas. O grande desafio agora será transformar acordos, equipamentos e operações conjuntas em resultados concretos para uma população que há décadas convive com as consequências do narcotráfico e da violência armada.












