Mendonça apresentou uma manifestação ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, na qual contesta as acusações feitas pelo ministro Alexandre de Moraes contra sua atuação nos casos relacionados ao Banco Master e às investigações sobre descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na resposta, Mendonça afirma que relatórios de inteligência da Polícia Federal foram utilizados de maneira inadequada e pede o arquivamento do pedido de investigação apresentado contra ele.

A manifestação foi protocolada após Moraes encaminhar a Fachin, no início de setembro, uma representação na qual apontou possíveis irregularidades na atuação de Mendonça como relator de processos ligados às operações Sem Desconto e Compliance Zero. Moraes também encaminhou relatórios de inteligência da Polícia Federal que, segundo sua avaliação, apresentariam elementos para justificar a apuração.

O episódio abriu mais um capítulo de uma disputa institucional envolvendo dois integrantes da Suprema Corte e colocou no centro do debate a utilização de relatórios de inteligência, os limites da atuação de ministros em investigações e a relação entre o STF e a Polícia Federal.

Em 3 de setembro, Fachin determinou a abertura de um procedimento para apurar as questões apresentadas e deu prazo para que Moraes, Mendonça, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a direção da Polícia Federal apresentassem esclarecimentos.

Mendonça questiona valor dos relatórios

Na defesa apresentada a Fachin, Mendonça sustenta que os documentos utilizados para embasar as acusações não poderiam ser tratados como provas. Segundo o ministro, os próprios relatórios possuem ressalvas relacionadas ao caráter restrito do material e à impossibilidade de utilização como elemento probatório.

A partir desse argumento, Mendonça afirma que as conclusões apresentadas contra sua atuação foram construídas a partir de documentos que, na avaliação dele, não teriam validade para sustentar uma investigação daquela natureza.

O ministro também questiona a maneira como as informações produzidas pela área de inteligência da PF foram utilizadas. Para Mendonça, houve uma transformação de informações de inteligência em elementos usados para sustentar acusações contra sua conduta como relator.

Em sua manifestação, ele classificou a utilização desses documentos como uma forma de instrumentalização da Polícia Federal e pediu que o pedido de investigação seja arquivado.

Além disso, Mendonça solicitou que sejam apuradas as circunstâncias relacionadas à elaboração dos relatórios e defendeu que novos documentos semelhantes não sejam produzidos com a mesma finalidade.

O que Moraes apontou contra Mendonça

A representação apresentada por Alexandre de Moraes sustenta uma interpretação diferente. Segundo o ministro, haveria indícios de irregularidades na condução, por Mendonça, de investigações relacionadas ao Banco Master e ao caso dos descontos indevidos em benefícios previdenciários.

Moraes apontou suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade, além de alegar que determinadas decisões poderiam ter sido direcionadas por interesses pessoais ou políticos.

Entre os questionamentos apresentados estão a condução de tratativas relacionadas a possíveis acordos de colaboração premiada e a atuação de Mendonça diante de informações que poderiam atingir outras autoridades.

Moraes também afirmou que Mendonça teria ultrapassado atribuições que caberiam às autoridades policiais na condução das investigações.

Essas acusações, contudo, são objeto de contestação por Mendonça e ainda dependem da análise das autoridades competentes. Não se trata, portanto, de conclusões definitivas sobre eventual responsabilidade do ministro.

Relatórios foram produzidos a pedido de Moraes

Um dos pontos centrais da controvérsia está na origem dos relatórios de inteligência utilizados na representação.

Em manifestação encaminhada a Fachin, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que a produção e o encaminhamento do material relacionado a Mendonça ocorreram por determinação de Alexandre de Moraes. Rodrigues defendeu a legalidade da atuação da corporação e afirmou que a PF agiu dentro de suas atribuições e em cumprimento a ordens judiciais.

A informação é relevante porque Mendonça questiona justamente a forma como os documentos foram utilizados posteriormente para sustentar as acusações contra ele.

Moraes, por sua vez, defendeu a regularidade dos documentos e de sua utilização no procedimento. O caso passou, assim, a envolver não apenas uma divergência entre os ministros, mas também uma discussão sobre os procedimentos utilizados na produção e interpretação de informações de inteligência.

Banco Master e caso do INSS estão no centro da disputa

A controvérsia está diretamente relacionada a duas investigações de grande repercussão.

Uma delas envolve o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Informações extraídas de dispositivos eletrônicos apreendidos durante as investigações deram origem a documentos analisados pela Polícia Federal e posteriormente encaminhados ao STF.

Mendonça, que atua em processos relacionados ao caso, encaminhou à Presidência do Supremo informações sobre mensagens que envolviam Moraes e Vorcaro. O conteúdo passou a integrar a disputa entre os ministros.

A outra frente está relacionada à Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos indevidos aplicados a benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.

O caso ganhou grande dimensão nacional por envolver suspeitas de fraude e movimentações financeiras que atingiram beneficiários do sistema previdenciário.

A atuação de Mendonça nesses processos passou a ser questionada por Moraes, que argumentou haver elementos suficientes para justificar uma apuração sobre a conduta do colega.

STF já analisa conflito entre petições

A disputa também chegou ao plenário do Supremo. Em 15 de setembro, os ministros analisaram uma questão de ordem relacionada à possibilidade de julgamento conjunto de duas petições envolvendo o caso Master e as acusações trocadas entre Moraes e Mendonça.

O ministro Flávio Dino pediu vista, interrompendo a discussão. Naquela sessão, o mérito das acusações não foi analisado pelo colegiado.

O episódio mostra que a controvérsia ainda está em andamento e que diferentes questões processuais precisam ser resolvidas antes de uma eventual análise definitiva das acusações.

A discussão também ocorre em um momento de forte atenção sobre a atuação do Supremo em investigações envolvendo autoridades públicas, grandes instituições financeiras e integrantes dos próprios Poderes da República.

Mendonça pede investigação sobre a produção dos documentos

Além de pedir o arquivamento da representação apresentada contra ele, Mendonça defendeu uma apuração específica sobre a origem e as circunstâncias da produção dos relatórios utilizados por Moraes.

Na avaliação do ministro, é necessário esclarecer por que determinados dados foram reunidos, quais foram as solicitações feitas à Polícia Federal e de que maneira as informações passaram a fundamentar acusações contra sua atuação.

Mendonça também questiona o uso de informações de inteligência fora da finalidade para a qual teriam sido originalmente produzidas.

O debate é relevante porque relatórios de inteligência e provas judiciais possuem funções diferentes. Informações de inteligência podem auxiliar autoridades na compreensão de determinados cenários e na orientação de investigações, mas sua utilização como prova depende de regras e procedimentos específicos.

Próximos passos

A decisão sobre o futuro da representação caberá às instâncias competentes do Supremo, dentro dos procedimentos estabelecidos para a análise do caso.

Fachin já havia determinado que os envolvidos apresentassem esclarecimentos, respeitando princípios como contraditório e ampla defesa.

Até o momento, não há uma decisão definitiva que estabeleça responsabilidade de Mendonça pelas acusações apresentadas por Moraes. Da mesma forma, as críticas feitas por Mendonça à utilização dos relatórios e à atuação de Moraes ainda integram uma disputa institucional que deverá ser analisada pelas autoridades competentes.

O episódio evidencia a complexidade dos conflitos envolvendo investigações que alcançam integrantes da própria Suprema Corte. Mais do que uma divergência pessoal entre ministros, o caso envolve discussões sobre limites institucionais, procedimentos investigativos, uso de informações de inteligência e garantias jurídicas.

Enquanto o STF avalia os próximos passos, a expectativa é de que os documentos e argumentos apresentados pelos dois lados sejam analisados dentro dos mecanismos previstos para esse tipo de procedimento. O desfecho deverá definir não apenas o futuro da representação contra Mendonça, mas também poderá estabelecer novos parâmetros para o uso de relatórios de inteligência em investigações envolvendo autoridades com foro no Supremo.