A cantora baiana Mariene de Castro abriu uma nova página em sua trajetória artística com o espetáculo “Cantadeira”, apresentado pela primeira vez ao público na noite do último sábado (3), no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Conhecida pela voz potente e pela forte ligação com o samba de roda do Recôncavo Baiano, a artista decidiu mergulhar em outro universo da música nordestina, sem abandonar as raízes que sempre marcaram sua carreira.

Em “Cantadeira”, Mariene troca parte da atmosfera dos sambas de roda e das referências religiosas presentes em trabalhos anteriores por um repertório marcado por xotes, baiões, sanfona, zabumba e canções que falam principalmente de amor, saudade, resistência e pertencimento. O resultado é um espetáculo que apresenta uma cantora já consagrada explorando novas possibilidades dentro de um território musical que, apesar de diferente de seus trabalhos anteriores, continua profundamente ligado à identidade nordestina.

A apresentação no Circo Voador reuniu um público receptivo e também serviu como uma espécie de extensão do projeto audiovisual que Mariene gravou durante o período junino, em Castro Alves, na Bahia. O registro foi realizado em uma casa de taipa especialmente preparada para a produção, durante o Arraiá do Poeta, tradicional evento junino do município.

O material ainda não foi lançado oficialmente nas plataformas de áudio e vídeo, mas algumas imagens da gravação foram utilizadas no telão durante o espetáculo carioca, criando uma ligação entre o palco e a experiência vivida durante a produção audiovisual.

Uma nova Mariene sem perder as raízes

A proposta de “Cantadeira” representa uma mudança significativa no repertório da cantora. Em vez de apostar prioritariamente nos sambas que ajudaram a construir sua identidade artística ou nas canções relacionadas às tradições afro-brasileiras, Mariene se entrega ao universo forrozeiro e às sonoridades do sertão nordestino.

O espetáculo começa com “Hora do adeus”, composição de Luiz Gonzaga e Onildo Almeida, lançada em 1974. A escolha funciona como uma declaração de princípios. Logo no início, Mariene canta sobre a permanência da voz e da sanfona, estabelecendo uma conexão entre tradição e continuidade.

Com figurino de cores vivas e inspiração brejeira, a cantora transforma o palco em um espaço de celebração da nordestinidade. O discurso musical de “Cantadeira” é atravessado pela ideia de resistência e orgulho de uma cultura que ultrapassou fronteiras e conquistou diferentes gerações.

A sanfona ocupa lugar central nessa construção. No espetáculo, o instrumento é conduzido pelo sanfoneiro Gel Barbosa. No show do Circo Voador, o músico baiano Cicinho de Assis também entrou em cena para ampliar a presença do acordeon e reforçar a atmosfera típica das festas e dos encontros musicais do Nordeste.

Xotes dominam a primeira parte do espetáculo

O xote aparece como um dos principais elementos da primeira metade de “Cantadeira”. Mariene passeia por músicas que apresentam diferentes formas de falar sobre sentimentos, relacionamentos e memórias.

Entre as canções escolhidas estão “A natureza das coisas”, de Accioly Neto, compositor que também é lembrado por “Lembrança de um beijo”. A cantora ainda interpreta “Se tu quiser”, de Xico Bizerra, composição que ganhou projeção na voz de Elba Ramalho.

O repertório inclui ainda “Caxixi (Bonitinha)”, de Roque Ferreira, e “Preciso de teu sorriso”, de João Leocádio da Silva e Enok Dantas, esta última conhecida também por integrar o repertório de Dominguinhos.

A sequência cria uma atmosfera mais serena, romântica e contemplativa. Em alguns momentos, a cadência constante dos xotes deixa o espetáculo mais uniforme, mas também ajuda a construir o conceito central apresentado pela cantora: um grande “balaio de amor” formado por diferentes expressões da música nordestina.

Quando a intensidade aumenta

Um dos momentos de maior transformação acontece depois de Mariene interpretar “Cajuína”, de Caetano Veloso, em um arranjo sustentado pela zabumba. Na sequência, a cantora apresenta “Beradéro”, de Chico César, acompanhada por uma percussão mais intensa e de caráter quase experimental.

A mudança rompe temporariamente a atmosfera mais delicada construída até aquele momento e devolve ao palco parte da força cênica que tradicionalmente acompanha as apresentações da artista.

Cicinho de Assis também ganha espaço para dois momentos solo, valorizando a sanfona e reforçando o protagonismo do instrumento na concepção musical do espetáculo.

Depois, Mariene retorna a uma atmosfera mais introspectiva com “Retrato da vida”, composição de Djavan e Dominguinhos. A apresentação segue com “De volta pro aconchego”, de Dominguinhos e Nando Cordel, uma das músicas mais associadas à trajetória de Elba Ramalho.

Na sequência, “Estrada de Canindé”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, retoma o imaginário sertanejo e a valorização da vida simples do interior nordestino.

Um repertório que atravessa gerações

O roteiro de “Cantadeira” também evidencia como a música nordestina permanece viva justamente porque consegue atravessar gerações. Mariene revisita compositores fundamentais e músicas que já fazem parte do imaginário popular, mas apresenta essas obras a partir de sua própria interpretação.

“Anjo querubim”, de Petrúcio Amorim, reforça o romantismo que atravessa boa parte do espetáculo. Já “Filho do dono” e “Mensageiro beija-flor”, associadas ao repertório de Flávio José, aproximam ainda mais o show da tradição musical nordestina.

Também aparecem “Pau-de-arara”, de Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, e “Mundança”, de Flávio Leandro e Elmo Oliveira.

A diversidade de compositores mostra que Mariene não está apenas reproduzindo um modelo tradicional de forró. A artista constrói uma ponte entre diferentes momentos da música nordestina, reunindo nomes históricos e compositores de gerações mais recentes.

A força cênica reaparece

Embora grande parte do espetáculo seja marcada por interpretações românticas e pela suavidade dos xotes, alguns momentos permitem que a conhecida potência de Mariene volte a ocupar o centro do palco.

“Cantiga de cangaceiro”, de Roque Ferreira, é uma dessas passagens. A música, única lembrança do álbum “Abre caminho”, de 2004, funciona como uma ponte com a trajetória anterior da cantora.

Logo depois, “Quebradeira de coco”, também de Roque Ferreira, surge como um dos grandes momentos da apresentação. A música devolve intensidade ao espetáculo e permite que Mariene explore novamente toda a força de sua voz e de sua presença cênica.

Outro momento aguardado acontece no encerramento, quando a cantora apresenta “Foguete”, de Roque Ferreira e J. Velloso. A música ganhou novo significado em sua carreira depois de ser registrada no álbum “Tabaroinha”, de 2012.

Para fechar a noite, Mariene recorre a um dos clássicos mais populares das festas juninas: “Olha pro céu”, de Luiz Gonzaga e José Fernandes. A escolha transforma o encerramento em uma verdadeira celebração, aproximando o público do clima dos festejos nordestinos.

Uma nova página na trajetória de Mariene

“Cantadeira” pode ser entendido como um movimento de renovação dentro da carreira de Mariene de Castro. A cantora continua sendo reconhecida pela identidade construída ao longo de décadas, mas agora decide explorar outro território dentro da própria cultura nordestina.

Ao trocar temporariamente o samba de roda e outras marcas tradicionais de seu repertório por xotes, baiões e canções românticas, Mariene demonstra que a música nordestina possui diferentes caminhos e possibilidades.

O espetáculo também reafirma a capacidade da artista de transformar tradição em experiência contemporânea. Ao levar para o Rio de Janeiro um repertório profundamente conectado ao sertão, às festas juninas e à memória afetiva nordestina, Mariene cria uma espécie de encontro entre diferentes regiões do país.

Mais do que uma simples mudança de repertório, “Cantadeira” representa uma declaração de pertencimento. É a celebração de uma música que nasceu em diferentes territórios do Nordeste, atravessou gerações e continua encontrando novas vozes para contar suas histórias.

Com sanfona, zabumba, xotes e baiões, Mariene de Castro apresenta ao público um novo capítulo de sua caminhada artística. Um capítulo marcado pelo amor, pela memória e, acima de tudo, pelo orgulho de ser nordestina.