Uma bactéria responsável por provocar diarreia, vômitos e, em casos mais graves, disenteria está se tornando um desafio crescente para os profissionais de saúde. A Shigella, microrganismo causador da shigelose, apresenta cepas resistentes a diferentes antibióticos e vem sendo identificada com maior frequência em infecções associadas ao contato sexual.

O cenário preocupa pesquisadores e autoridades sanitárias, principalmente porque a resistência aos medicamentos pode reduzir as opções de tratamento disponíveis e aumentar o risco de complicações. Embora a bactéria seja tradicionalmente associada à ingestão de água e alimentos contaminados, estudos apontam que a transmissão durante relações sexuais também desempenha um papel importante na disseminação de determinadas cepas.

Nos Estados Unidos, a bactéria está associada a aproximadamente 450 mil infecções por ano, segundo os dados apresentados no levantamento. O problema não se limita ao território norte-americano. Pesquisas realizadas no Reino Unido também identificaram níveis elevados de resistência antimicrobiana, indicando que a situação exige atenção internacional.

O que é a shigelose e quais são os sintomas?

A shigelose é uma infecção intestinal provocada por bactérias do gênero Shigella. A doença pode atingir pessoas de diferentes idades e costuma ser transmitida pela via fecal-oral, quando partículas microscópicas de fezes contaminadas chegam à boca de outra pessoa.

Isso pode acontecer por meio do consumo de água ou alimentos contaminados, do contato com superfícies infectadas e de práticas que favoreçam a transferência da bactéria durante relações sexuais.

Entre os sintomas mais comuns estão diarreia, febre, cólicas abdominais, náuseas e, em alguns casos, vômitos. A doença também pode provocar tenesmo, uma sensação persistente de necessidade de evacuar, mesmo quando o intestino está praticamente vazio.

Em quadros mais graves, a infecção pode evoluir para disenteria, caracterizada pela presença de sangue nas fezes. A perda intensa de líquidos também pode provocar desidratação, especialmente em crianças, idosos e pessoas com condições de saúde que aumentem a vulnerabilidade.

Os sintomas geralmente aparecem poucos dias após a infecção, mas o período pode variar. A intensidade da doença depende de fatores como a cepa envolvida e as condições de saúde do paciente.

Diante de diarreia persistente, febre elevada, sangue nas fezes ou sinais de desidratação, a recomendação é procurar atendimento médico. A avaliação profissional permite identificar a possível causa do quadro e determinar a conduta mais adequada.

Transmissão sexual amplia o desafio para a saúde pública

Embora a Shigella não seja transmitida exclusivamente por relações sexuais, o contato sexual pode facilitar sua disseminação quando há exposição a partículas fecais contaminadas.

A transmissão tem sido observada principalmente entre homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens. Esse dado epidemiológico ajuda a identificar padrões de circulação da bactéria e orientar medidas de prevenção, mas não significa que a infecção esteja restrita a esse grupo.

Qualquer pessoa pode contrair shigelose quando exposta à bactéria. Por isso, especialistas defendem que as orientações de prevenção sejam oferecidas de maneira acessível, sem estigmatização e com base em informações científicas.

A identificação da transmissão sexual também é importante para o diagnóstico. Quando um paciente apresenta sintomas compatíveis com shigelose, os profissionais de saúde precisam considerar diferentes formas possíveis de exposição, incluindo o contato sexual, sempre respeitando a privacidade e a individualidade de cada pessoa.

Essa investigação pode contribuir para a escolha dos exames necessários, a orientação do paciente e a redução de novas transmissões.

Resistência a antibióticos aumenta nos Estados Unidos

Uma análise dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) avaliou quase 17 mil amostras de Shigella coletadas entre 2011 e 2023.

Os resultados demonstraram uma mudança preocupante no perfil de resistência da bactéria. Em 2011, nenhuma das amostras analisadas apresentava resistência aos cinco antibióticos avaliados. Em 2023, entretanto, 8,5% das amostras pertenciam a cepas classificadas como extensivamente resistentes a medicamentos.

Esse tipo de resistência significa que as opções terapêuticas disponíveis podem se tornar significativamente mais limitadas, dificultando a escolha de um antibiótico eficaz quando o tratamento medicamentoso é necessário.

A maior parte das cepas com resistência extensiva identificadas no levantamento foi encontrada em homens adultos. Muitos dos pacientes não haviam realizado viagens internacionais nos meses anteriores à identificação da infecção.

Esse dado reforça a possibilidade de que a transmissão esteja ocorrendo dentro das próprias comunidades, sem depender necessariamente da chegada de variantes provenientes de outros países.

Os resultados também evidenciam a importância da vigilância epidemiológica. O acompanhamento das amostras permite identificar mudanças no comportamento da bactéria e reconhecer precocemente o surgimento de variantes resistentes.

Reino Unido também registra níveis elevados de resistência

A preocupação também aparece em pesquisas realizadas no Reino Unido. Um estudo liderado pela geneticista Kate Baker, da Universidade de Cambridge, publicado em 8 de julho na revista científica The Lancet Infectious Diseases, identificou o crescimento de cepas resistentes de Shigella associadas à transmissão sexual.

De acordo com a pesquisadora, ao longo da última década, a infecção passou de uma condição geralmente tratável com os medicamentos disponíveis para uma situação em que as alternativas terapêuticas podem ser bastante limitadas em determinados casos.

Dados de 2025 da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA), citados no material que apresenta a pesquisa, indicaram resistência a antibióticos em 86% das amostras de Shigella sonnei e em 94% das amostras de Shigella flexneri analisadas.

As duas espécies estão entre as mais frequentemente identificadas em casos associados ao contato sexual entre homens. Os percentuais, contudo, dizem respeito às amostras analisadas e não devem ser interpretados como uma estimativa da proporção de todas as infecções da população que apresentam resistência.

Pesquisas anteriores conduzidas por Baker e outros cientistas também indicaram que até um terço dos pacientes com infecção por Shigella associada à transmissão sexual precisou ser hospitalizado. Nesses casos, as internações duraram, em média, entre quatro e cinco dias.

A pesquisadora alertou para a complexidade do cenário ao destacar que não se trata apenas de uma infecção intestinal transmitida durante relações sexuais, mas do surgimento de diferentes variantes que estão se tornando resistentes aos medicamentos utilizados no tratamento.

Tratamento pode variar conforme a origem da infecção

A resistência antimicrobiana acontece quando microrganismos desenvolvem mecanismos que reduzem a eficácia dos medicamentos utilizados para combatê-los. No caso da Shigella, esse fenômeno pode dificultar o tratamento de pacientes que apresentam quadros graves ou que precisam de antibióticos.

Segundo Kate Baker, a origem provável da infecção pode fornecer informações relevantes para a avaliação clínica. Pessoas que contraíram a bactéria durante relações sexuais podem ter sido expostas a variantes diferentes daquelas encontradas em outros contextos, como determinadas viagens.

Isso não significa, porém, que a forma de transmissão seja suficiente para determinar qual medicamento deve ser utilizado. A escolha do tratamento precisa considerar a avaliação médica, a gravidade dos sintomas e, quando indicado, os resultados de exames laboratoriais que identificam a bactéria e seu perfil de sensibilidade aos antibióticos.

Nem todos os pacientes com shigelose precisam receber antibióticos. Em determinados casos, a hidratação e os cuidados de suporte podem ser suficientes, enquanto situações mais graves exigem acompanhamento específico.

A automedicação deve ser evitada. O uso inadequado de antibióticos pode favorecer a resistência bacteriana e dificultar tratamentos futuros. Medicamentos para interromper a diarreia também não devem ser utilizados indiscriminadamente, sobretudo quando há sangue nas fezes ou febre.

Como reduzir o risco de transmissão

A prevenção depende de cuidados de higiene, atenção aos sintomas e medidas que reduzam o contato com partículas fecais contaminadas.

Entre as principais recomendações estão lavar as mãos cuidadosamente com água e sabão, manter a higiene durante e depois das relações sexuais e utilizar preservativos e barreiras de proteção em práticas sexuais, inclusive no sexo oral e anal.

Também é importante evitar relações sexuais durante episódios de diarreia e seguir a orientação de profissionais de saúde sobre quando retomar a atividade sexual após a recuperação. Como a eliminação da bactéria pode continuar mesmo depois da melhora dos sintomas, medidas adicionais de higiene são fundamentais.

Pessoas que apresentarem sintomas compatíveis com shigelose devem procurar atendimento médico, especialmente se houver sangue nas fezes, febre alta ou sinais de desidratação. Profissionais de saúde, por sua vez, precisam considerar a possibilidade de transmissão sexual durante a investigação de casos suspeitos, sem preconceitos ou julgamentos.

O avanço da resistência da Shigella reforça a necessidade de ampliar a vigilância epidemiológica, incentivar o uso responsável de antibióticos e informar a população sobre as formas de transmissão.

Embora a doença possa ser tratada em muitos casos, a disseminação de cepas resistentes representa um desafio crescente. A combinação entre diagnóstico adequado, prevenção e acompanhamento científico será essencial para preservar as opções terapêuticas e reduzir o impacto da infecção na saúde pública.