Inteligência artificial é a tecnologia que o desenvolvedor Halison do Nascimento Casimiro, de 44 anos, utiliza para tentar compreender melhor os sinais e as necessidades do filho Noah Alencar Casimiro, de apenas 1 ano e 3 meses. Por meio do projeto Monitor Noah, ele desenvolve uma ferramenta experimental capaz de analisar expressões faciais, movimentos dos braços e posições do corpo da criança, ajudando a organizar informações importantes sobre sua rotina e seus cuidados.

Foi diante dessa realidade que Halison do Nascimento Casimiro, de 44 anos, empresário e desenvolvedor de software, decidiu utilizar seus conhecimentos em tecnologia para buscar uma maneira de compreender melhor o próprio filho, Noah Alencar Casimiro, de 1 ano e três meses.

Morador de Brasília, Halison desenvolveu o Monitor Noah, um sistema experimental que utiliza inteligência artificial (IA) para acompanhar movimentos, expressões faciais e padrões de comportamento do menino. A iniciativa nasceu de uma necessidade familiar: organizar informações sobre as manifestações da criança e ajudar os responsáveis a identificar mudanças que mereçam atenção.

Noah apresenta condições neurológicas e genéticas complexas, não se comunica verbalmente e possui limitações importantes de movimento. Por isso, identificar se determinado gesto está relacionado a um desconforto, a uma reação habitual ou a um possível episódio de saúde exige observação constante.

A tecnologia foi pensada para auxiliar nesse acompanhamento, registrando acontecimentos e organizando dados que podem ser compartilhados com os profissionais responsáveis pelo tratamento. O próprio desenvolvedor, entretanto, reconhece que a ferramenta ainda apresenta limitações e precisa de aprimoramento.

“É muito difícil perceber que seu filho tenta demonstrar algo e não conseguir compreender o que ele precisa”, relata Halison.

Uma história marcada por desafios desde o nascimento

Noah nasceu em julho de 2025. Segundo o pai, a gestação transcorreu sem sinais claros da complexidade do quadro clínico, embora uma restrição de crescimento fetal tenha sido identificada no final da gravidez.

Após o nascimento, o menino apresentou diversas malformações e precisou ser encaminhado à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, onde permaneceu por quatro meses.

Durante as primeiras semanas de vida, Halison percebeu movimentos repetitivos e involuntários no filho. Inicialmente, havia a possibilidade de que fossem reflexos de Moro, movimentos comuns em bebês, mas a investigação médica identificou atividade epiléptica por meio de um eletroencefalograma.

Por volta dos três meses de idade, Noah recebeu o diagnóstico de síndrome de West, uma forma grave de epilepsia infantil que pode estar associada a alterações no desenvolvimento neurológico.

Aos seis meses, a família recebeu também o diagnóstico da síndrome genética rara de Sandestig-Stefanova, associada, segundo as informações relatadas pela família, a uma alteração no gene NUP188.

O quadro clínico inclui hipotonia acentuada, caracterizada pela redução do tônus muscular, fenda palatina, catarata congênita bilateral, alterações craniofaciais e duplicação de um dos polegares.

Noah ainda não consegue sustentar a cabeça sozinho e necessita de auxílio para mudar de posição. Também utiliza traqueostomia e suporte ventilatório, além de receber alimentação assistida.

Sua rotina envolve fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia em casa. A assistência domiciliar conta com técnicos de enfermagem durante 24 horas, enquanto Halison e a esposa, Eliane, acompanham os cuidados e conciliam as responsabilidades familiares com o trabalho e a criação da filha Bianca, de cinco anos.

Como funciona o Monitor Noah

O desenvolvimento do sistema começou em dezembro de 2025, depois de meses de internação e de dificuldades para registrar a frequência e os horários dos episódios suspeitos de convulsão.

Segundo Halison, a falta de informações organizadas e a preocupação constante afetavam a rotina da família.

“Não dormíamos direito, não conseguíamos trabalhar nem viver com tranquilidade”, conta.

A partir dessa experiência, o desenvolvedor começou a criar uma ferramenta capaz de acompanhar determinados sinais e organizar registros para facilitar a observação diária.

No quarto da criança, uma câmera instalada acima do berço transmite imagens para um computador. O sistema analisa sequências de vídeo em busca de alterações faciais, movimentos dos braços, mudanças na posição corporal e outros padrões que possam merecer uma avaliação posterior.

Quando identifica um evento potencialmente relevante, a ferramenta pode registrar o horário, sugerir uma classificação e armazenar um trecho da gravação para revisão.

O painel de acompanhamento também reúne informações sobre medicações, procedimentos e outros dados da rotina, incluindo gráficos de temperatura.

O projeto conta ainda com módulos experimentais relacionados ao sono, ao despertar e a manifestações que podem ser compatíveis com choro ou desconforto.

Outra função utiliza um narrador digital que transforma determinados sinais identificados pelo sistema em frases como “Papai, eu acordei” e “Papai, acho que estou incomodado”.

Essas frases, porém, são representações produzidas pela ferramenta, e não uma confirmação de que a criança esteja sentindo exatamente aquilo que foi descrito. A inteligência artificial não consegue determinar com certeza o estado emocional ou físico de Noah apenas com base nas imagens.

Pai revisa os registros e corrige os resultados

Um dos aspectos centrais do Monitor Noah é a participação direta de Halison na revisão dos dados.

O desenvolvedor assiste aos vídeos, verifica as classificações sugeridas pela inteligência artificial e corrige eventuais erros. Esse processo permite comparar as interpretações do sistema com o conhecimento que a família possui sobre os comportamentos habituais da criança.

Halison também faz uma distinção importante sobre o termo “microexpressões”. Embora o projeto tenha sido associado à interpretação dessas manifestações, nem todos os sinais analisados se enquadram tecnicamente nessa definição.

O sistema observa movimentos sutis do rosto e do corpo, além de padrões que se desenvolvem ao longo do tempo. A proposta é reunir informações que, quando analisadas em conjunto com a observação familiar e a avaliação profissional, possam ajudar a compreender melhor a rotina de Noah.

Segundo o pai, um dos benefícios percebidos até agora foi a possibilidade de organizar os horários e a frequência dos episódios suspeitos, levando informações mais detalhadas às consultas médicas.

Ele relata que os registros apresentados pela família foram utilizados durante a avaliação do tratamento e que houve ajustes na medicação.

Essas decisões, contudo, são de responsabilidade dos profissionais de saúde. O relato sobre a utilização dos registros não comprova, por si só, a eficácia clínica do sistema.

Tecnologia não substitui acompanhamento médico

Apesar das possibilidades oferecidas pela inteligência artificial, o próprio criador reconhece que o Monitor Noah ainda comete erros.

Movimentos habituais já provocaram alertas indevidos, enquanto acontecimentos importantes podem não ser identificados. Por isso, a ferramenta não deve ser utilizada como único meio de detectar convulsões, avaliar sintomas ou decidir quando uma criança precisa de atendimento.

“Por conhecer essas limitações, não apresento o Monitor Noah como capaz de detectar todas as convulsões nem como substituto da observação humana”, afirma Halison.

Essa ressalva é fundamental porque sistemas de análise de vídeo podem confundir movimentos comuns com sinais de alerta e também deixar passar manifestações relevantes.

No caso de crianças com condições neurológicas complexas, a avaliação clínica depende de diferentes informações, como histórico médico, observação dos sintomas, exames e resposta ao tratamento.

A tecnologia pode contribuir para organizar dados e facilitar a comunicação entre familiares e profissionais, mas precisa ser avaliada com rigor antes de qualquer utilização mais ampla na área da saúde.

O que é a síndrome de West?

A síndrome de West é uma condição epiléptica que costuma surgir na infância e pode provocar espasmos súbitos e repetitivos. Em muitos casos, está associada a atrasos ou regressões no desenvolvimento e a alterações características identificadas no eletroencefalograma.

Entre os sinais que merecem atenção estão movimentos repetidos de flexão do corpo, da cabeça ou dos braços, especialmente quando aparecem em sequência. A avaliação médica é indispensável para diferenciar esses episódios de outros movimentos comuns durante a infância.

O diagnóstico pode envolver avaliação clínica, eletroencefalograma e, conforme o caso, exames de imagem e investigação genética. O tratamento depende das características individuais da criança e pode incluir medicamentos e acompanhamento especializado.

A identificação precoce e o início rápido do tratamento são importantes, mas a evolução varia conforme as causas da síndrome e as condições clínicas de cada paciente. Algumas crianças continuam apresentando dificuldades de desenvolvimento ou crises epilépticas mesmo com acompanhamento adequado.

Por isso, qualquer suspeita de espasmos ou episódios neurológicos deve ser avaliada por profissionais de saúde, sem depender exclusivamente de ferramentas digitais.

Projeto busca ajudar outras famílias

Halison pretende disponibilizar uma versão básica gratuita do Monitor Noah, com a intenção de permitir que outras famílias possam utilizar recursos semelhantes com um computador simples e uma câmera doméstica.

Antes de ampliar o acesso, entretanto, o projeto ainda precisa avançar na avaliação técnica, na validação clínica, na proteção dos dados pessoais e na adaptação a diferentes pacientes.

Cada criança apresenta características próprias, e um sistema desenvolvido a partir da rotina de Noah não necessariamente terá o mesmo desempenho em outras situações. A utilização de imagens e informações de saúde também exige cuidados rigorosos com privacidade e segurança.

Enquanto trabalha no aprimoramento da ferramenta, Halison mantém o objetivo que deu origem à iniciativa: compreender melhor as manifestações do filho e organizar os cuidados diários.

Para ele, a tecnologia representa uma maneira de transformar a experiência profissional em uma ferramenta voltada a uma necessidade profundamente pessoal.

Os sorrisos de Noah continuam sendo alguns dos momentos mais especiais para o pai, que busca reconhecer cada pequena manifestação do filho sem perder de vista as limitações do sistema.

“Não comecei o Monitor Noah pensando em criar um produto. Comecei porque sou pai e queria encontrar uma maneira de compreender e proteger melhor o meu filho”, afirma.

A história de Halison mostra como a experiência de cuidar de uma criança com necessidades complexas pode inspirar soluções tecnológicas. O projeto ainda precisa ser validado, mas representa uma iniciativa voltada a organizar informações, apoiar a rotina familiar e ampliar as possibilidades de acompanhamento de crianças que enfrentam dificuldades de comunicação.