O influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido nacionalmente como Felca, voltou a publicar um vídeo no YouTube nesta terça-feira (20) após passar cerca de um ano afastado da internet. Na gravação, ele revelou ter recebido o diagnóstico de fobia social e compartilhou relatos pessoais sobre o impacto do transtorno em sua rotina, incluindo períodos de isolamento, crises de ansiedade e o uso excessivo de bebidas alcoólicas para conseguir enfrentar situações que envolviam outras pessoas.

O depoimento chamou a atenção por mostrar uma realidade que nem sempre é percebida por quem acompanha a vida de uma personalidade nas redes sociais. Embora seja conhecido pelo público, Felca contou que enfrentava dificuldades intensas para sair de casa, participar de eventos e realizar gravações externas. Em determinadas ocasiões, segundo o próprio influenciador, os sintomas físicos eram tão fortes que seu coração permanecia acelerado durante toda a atividade.

Ele relatou que, em gravações na rua, chegou a registrar uma frequência cardíaca de aproximadamente 138 batimentos por minuto. O medo de ser observado, julgado ou constrangido transformava tarefas aparentemente simples em momentos de grande sofrimento.

O influenciador também contou que, durante um período, acreditava que só conseguiria manter uma vida social se estivesse alcoolizado. O consumo de bebidas era uma tentativa de diminuir a ansiedade e criar coragem para aparecer em público. Em uma das situações relatadas, ele bebeu antes de gravar entrevistas com pessoas em um shopping, acabou caindo e fraturou duas costelas.

Ao compartilhar essas experiências, Felca trouxe visibilidade a um transtorno que pode comprometer diferentes áreas da vida e que, muitas vezes, é confundido com timidez ou interpretado equivocadamente como falta de interesse em conviver com outras pessoas.

O que é a fobia social?

A fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social, é uma condição caracterizada pelo medo intenso de situações em que a pessoa acredita que poderá ser observada, avaliada ou julgada pelos outros.

O receio pode estar relacionado a falar em público, conhecer pessoas novas, participar de reuniões, comer diante de desconhecidos, fazer apresentações ou simplesmente iniciar uma conversa. Em situações mais graves, a preocupação pode se tornar tão intensa que a pessoa passa a evitar compromissos, encontros e atividades essenciais do cotidiano.

O problema vai além do nervosismo que muitas pessoas sentem antes de uma apresentação ou de um evento importante. Na fobia social, existe um medo persistente de passar vergonha, cometer erros, ser ridicularizado ou demonstrar sinais de ansiedade diante de outras pessoas.

Quem enfrenta o transtorno pode imaginar antecipadamente que algo dará errado, sofrer intensamente durante a situação e, depois, passar horas ou dias revendo mentalmente cada palavra, gesto ou reação. Essa preocupação pode alimentar um ciclo de ansiedade e afastamento.

Com o passar do tempo, a pessoa pode deixar de aproveitar oportunidades profissionais, acadêmicas e pessoais por acreditar que não conseguirá lidar com a exposição social.

Bullying e experiências dolorosas na infância

Em seu relato, Felca associou parte de suas dificuldades às experiências de bullying vividas durante a infância e a adolescência. Segundo o influenciador, ele era ridicularizado, humilhado e agredido por colegas na escola.

Essas situações contribuíram para um período marcado pelo isolamento e por sofrimento emocional. Ele também revelou ter enfrentado pensamentos suicidas, demonstrando a dimensão das dificuldades que vivenciou ao longo da vida.

Experiências de humilhação, rejeição e violência podem afetar a maneira como uma pessoa percebe a si mesma e se relaciona com o mundo. Para quem sofre bullying repetidamente, o ambiente social pode deixar de representar um espaço de convivência e passar a ser associado ao risco de novas agressões ou constrangimentos.

É importante destacar, porém, que a fobia social pode ter diferentes fatores associados, incluindo aspectos individuais, familiares, biológicos e experiências de vida. Não existe uma única causa que explique todos os casos.

O relato do influenciador também reforça a importância de levar a sério as consequências emocionais do bullying. A violência entre colegas não deve ser tratada como uma brincadeira inofensiva quando provoca sofrimento, medo, exclusão ou prejuízos à saúde mental.

Fobia social, timidez e ansiedade: quais são as diferenças?

Sentir vergonha ao conhecer alguém, ficar nervoso antes de uma entrevista de emprego ou demonstrar desconforto em uma festa com desconhecidos são reações comuns. A timidez, por si só, não significa que uma pessoa tenha um transtorno psicológico.

A principal diferença está na intensidade, na duração e nos prejuízos provocados pelo medo. Na fobia social, a preocupação costuma ser persistente e desproporcional à situação enfrentada, interferindo na rotina e levando a pessoa a evitar atividades importantes.

A ansiedade também é uma reação natural diante de situações percebidas como desafiadoras ou ameaçadoras. Entretanto, quando o medo relacionado à avaliação dos outros se torna excessivo e limita a vida cotidiana, é importante buscar uma avaliação profissional.

Entre os sinais que podem estar associados à fobia social estão:

  • Medo intenso de ser observado ou julgado por outras pessoas;
  • Preocupação excessiva com a possibilidade de passar vergonha;
  • Receio de ser criticado, rejeitado ou ridicularizado;
  • Dificuldade para conversar, conhecer pessoas ou participar de encontros;
  • Tremores, suor excessivo, rubor facial e tensão muscular;
  • Náuseas, desconforto gastrointestinal e sensação de falta de ar;
  • Taquicardia e sensação de alerta intenso;
  • Evitação de situações sociais e isolamento progressivo.

Nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas, e a presença isolada de um desses sinais não confirma o diagnóstico. Somente uma avaliação adequada pode identificar o que está acontecendo e indicar o tratamento mais apropriado.

No caso de Felca, a aceleração dos batimentos cardíacos durante as gravações ilustra como o sofrimento emocional pode vir acompanhado de reações físicas. O organismo pode interpretar determinadas situações sociais como ameaçadoras, desencadeando respostas de alerta mesmo quando não existe um perigo físico imediato.

Quando o álcool se transforma em uma tentativa de enfrentar o medo

Um dos pontos mais delicados do depoimento foi a revelação de que Felca recorria ao álcool para conseguir participar de compromissos públicos.

Segundo o influenciador, ele chegou a utilizar um cantil com vodca antes de eventos e palestras. A bebida funcionava como uma tentativa de reduzir temporariamente a ansiedade e permitir que ele cumprisse suas atividades profissionais.

O problema é que esse alívio não resolve a causa do sofrimento. Quando uma pessoa passa a depender do álcool para enfrentar situações sociais, pode desenvolver um padrão de consumo prejudicial, além de aumentar o risco de acidentes, conflitos e problemas físicos e emocionais.

O próprio relato de Felca evidencia os perigos dessa estratégia. Em uma ocasião, depois de beber para conseguir gravar um vídeo, ele caiu e sofreu fraturas em duas costelas.

O influenciador afirmou que reconheceu o problema, procurou ajuda e atualmente não faz mais uso de álcool, conforme relatou na gravação.

É importante evitar julgamentos sobre pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes. O uso de bebidas alcoólicas pode estar relacionado a diferentes fatores, e reconhecer a necessidade de ajuda é um passo importante. Ao mesmo tempo, o consumo não deve ser considerado uma forma segura de tratar a ansiedade.

Quando existe dificuldade para controlar a bebida ou a sensação de que ela é necessária para enfrentar compromissos, procurar atendimento de saúde pode ajudar a interromper esse ciclo.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento?

O diagnóstico da fobia social deve ser realizado por um profissional de saúde mental, considerando os sintomas, a duração do quadro, as situações que provocam medo e os prejuízos causados na vida da pessoa.

A avaliação também ajuda a diferenciar o transtorno de outras condições que podem apresentar sinais semelhantes. Não é possível confirmar a fobia social apenas com base em um relato isolado ou na presença de sintomas físicos.

O tratamento pode envolver psicoterapia, especialmente abordagens que ajudam a identificar pensamentos negativos, desenvolver estratégias para lidar com a ansiedade e enfrentar gradualmente situações sociais de maneira segura e orientada.

Em alguns casos, o psiquiatra pode recomendar medicamentos, conforme a necessidade individual. A prescrição e o acompanhamento médico são importantes para avaliar benefícios, possíveis efeitos adversos e a evolução dos sintomas.

O apoio de familiares e amigos também pode fazer diferença. Escutar sem minimizar o sofrimento, evitar cobranças excessivas e incentivar a busca por atendimento são atitudes que ajudam a construir um ambiente de acolhimento.

Frases como “isso é apenas timidez” ou “basta ter coragem” podem aumentar a sensação de incompreensão. O medo vivido por quem enfrenta o transtorno não desaparece necessariamente por vontade própria.

A importância de falar sobre saúde mental

Ao tornar pública sua experiência, Felca contribui para ampliar a conversa sobre saúde mental e mostrar que a exposição nas redes sociais não significa ausência de sofrimento. Uma pessoa pode ser conhecida, trabalhar diante das câmeras e, ainda assim, enfrentar dificuldades profundas em situações de convivência.

O relato também chama a atenção para a necessidade de reconhecer os sinais de sofrimento psicológico antes que eles provoquem consequências mais graves. O isolamento prolongado, o medo que impede atividades cotidianas e a dependência do álcool para enfrentar compromissos são situações que merecem atenção.

Quem enfrenta sofrimento intenso, desesperança ou pensamentos suicidas deve procurar ajuda profissional. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de risco imediato, é necessário buscar um serviço de emergência.

A história compartilhada por Felca não representa a experiência de todas as pessoas com fobia social, mas ajuda a demonstrar que o transtorno pode afetar profundamente a rotina, as relações e a saúde. Com acolhimento, diagnóstico adequado e tratamento, é possível desenvolver ferramentas para lidar com a ansiedade e recuperar gradualmente a autonomia.

Mais do que uma revelação pessoal, o depoimento reforça uma mensagem importante: sofrimento psicológico não deve ser motivo de vergonha, e pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um passo para cuidar de si e construir uma vida com mais segurança, apoio e qualidade.