Show do cantor no Coachella teve ‘momento karaokê’ que dividiu opiniões. Entenda como apresentação rendeu debates sobre machismo na indústria e o nível de exigência nos palcos.
O show de Justin Bieber no festival Coachella neste sábado (11), nos Estados Unidos, virou tema de uma ampla discussão em vários países. Tudo porque, mais para o final do show, o cantor teve uma atitude inusitada: pegou um notebook e começou a “brincar de karaokê” no palco.
Com a tela do computador projetada no telão, Justin passeou pelo YouTube, abriu clipes dele mesmo e começou a cantar por cima. A “sessão nostalgia” incluiu antigos hits, como “Baby” (2010) e “Beauty and the Beat” (2012), em que o músico cantou apenas alguns trechinhos e logo partiu para outras faixas.
Ele também se divertiu assistindo a um vídeo meio “trapalhada” de quando ele era mais novo e, no fim, abriu alguns virais que nada tinham a ver com a sua trajetória.
Esse momento “diferentão” foi bastante controverso. Por um lado, a brincadeira fez fãs se sentirem mais próximos dele, relembrando momentos que ídolo e público viveram “juntos”. Por outro lado, houve quem interpretasse o comportamento do artista como descaso, questionando o comprometimento dele com o posto ocupado no line-up.
Entenda como o show de Justin dividiu opiniões e as principais discussões em torno do assunto:
Ideia teve seus prós…
- Justin começou a carreira fazendo covers no YouTube e, graças a isso, conseguiu a carreira que tem hoje: ele foi o principal fenômeno global da plataforma. Então, naquele momento, revisitar a própria origem e trajetória, usando o mesmo ambiente digital que o consolidou, fazia sentido.
- A “sessão nostalgia” rendeu momentos emocionantes para quem o acompanha desde o início;
- O momento tem a ver com a estética “crua” do disco mais recente dele, que é intimista e pessoal.
- Além disso, ele levou uma linguagem de “react” para o palco, fazendo piadas e interagindo com o chat da transmissão em tempo real, transformando o show em uma espécie de “live”.
Mas também teve contras:
- O momento “improvisado” passou uma sensação de desleixo para uma parte do público, com momentos em que ele mesmo interrompia a música ou reclamava do wifi.
- Se em alguns momentos ele parou para cantar, em outros, “gastou tempo” de show vendo virais que não têm nada a ver com a trajetória dele;
- Para uma apresentação de um headliner, esperava-se um show mais redondinho e ambicioso, enquanto esse momento pode ter soado como descaso com o posto que ele ocupa.
- A indústria musical costuma ser mais permissiva com homens que não capricham tanto em suas apresentações — enquanto isso, é raro ver artistas femininas fazendo um show despreparado.
Show precisa ser um megaespetáculo?
Um dos principais pontos de discussão foi que o show pareceu “simples”, “preguiçoso”, enquanto outros defendem que não precisa ser um megaespetáculo — o que importa é a música.
Os dois argumentos têm seu fundamento. Um show (mesmo sendo de um artista pop) não precisa ser megalomaníaco e repleto de pirotecnias para ser bom.
E ao contrário do que muita gente acredita, o público não está sempre esperando fogos de artifício. De Adele a Billie Eilish, muitos artistas pop reúnem uma multidão de fãs mesmo sem apostar naqueles shows com muita troca de roupa e jeitão Broadway.
Grandes cenários e estruturas não são obrigatórios, nem garantem automaticamente a qualidade de um show. Até porque a pirotecnia (ou falta dela) tem que condizer com a proposta do artista e do repertório.

A essa altura, nenhum fã de Justin Bieber espera grandes coreografias ou estruturas, naquele molde de popstar (meio jovenzinho à la Michael Jackson) que ele já foi um dia. “Swag”, disco atual de Bieber, é um álbum minimalista que aposta no lo-fi, estética “imperfeita” que soa propositalmente artesanal.
A própria apresentação dele no Grammy reproduziu isso: de samba-canção e meias, o cantor cantou “Yukon” como se estivesse na sala de casa.
Por outro lado, não é à toa que shows de headliners, hoje, costumam ser repletos de “enfeites”. Porque ocupar o maior posto de um festival é como virar CEO: você vai ganhar muito bem, mas espera-se que você honre o papel.
É claro que Justin Bieber, com uma carreira de mais de uma década e alcance mundial, seria um dos principais nomes do line-up. Mas isso não significa que ele não tenha uma “responsa” a mais justamente por ser headliner.
Principalmente porque, segundo a “Rolling Stone” americana, Bieber teria recebido o cachê mais caro da história do festival (cerca de US$ 10 milhões pelos dois shows, já que a programação do festival se repete no próximo fim de semana).
Vale dizer que os trechos em que Justin brincou no YouTube foram uma fração menor da apresentação. Em outros momentos, ele passeou pelo palco grandioso e bem iluminado, levou convidados e por aí vai. Inclusive, dá pra ver que Justin andou vendo vídeos de shows antigos do Kanye West.
Ou seja, investimento teve: basta ver o belo palco por onde ele se movimentava. Mas na maior parte do tempo, ele cantou sozinho, sem banda, sem tocar instrumentos… e ainda teve o momento YouTube mais para o final.
Então, será que foi o suficiente para um headliner? Para muitos, não — mexer no computador, ver memes e engatar um “karaokê” teria mostrado uma falta de esforço por parte de Bieber.
Privilégio masculino?
A outra discussão passa por uma questão de gênero. No próprio Coachella, Justin foi o único headliner masculino (Karol G e Sabrina Carpenter foram as outras atrações) e, notoriamente, o único cujo show pareceu “preguiçoso”.
Por um lado, as propostas dessas artistas são bem diferentes… mas por outro, novamente, Bieber teria feito a apresentação mais cara do evento. O show refletiu o investimento?
Essa disparidade não é nova para quem acompanha a indústria musical. Artistas masculinos heterossexuais têm um histórico de se dedicar muito menos do que as mulheres, porque o público e a mídia não cobram tanto deles quanto delas. Os shows de artistas femininas raramente são desleixados: como é comum entre grupos menos privilegiados, mulheres tendem a fazer de tudo para provar que merecem estar onde estão — mesmo já sendo consolidadas.
Artistas de diversos estilos fazem coro a esse sentimento: na internet, muitos lembraram de uma fala de Anitta nos bastidores de um show. “Se eu fosse homem, poderia entrar com uma calça jeans, uma cara de c*, blusa branca, e ninguém ia falar nada. Agora, [sendo] mulher, a gente tem que entregar tudo e mais um pouco, e ainda reclamam”.
Ao g1, a rapper Ebony já criticou a falta de investimento visual e performático dos artistas masculinos em shows. “O problema é que rappers homens não fazem espetáculos. Vou sair de casa pra ver um cara com um microfone e um sonho apenas?”, disse.
Será que uma mulher seria criticada se fizesse algo parecido com Justin Bieber… ou se apostasse em, assim como ele, fazer um show de moletom e bermuda, sem pirotecnias, muitos instrumentos ou momentos coreografados? Não dá para dizer ao certo.
Mas o fato é que, mesmo ganhando menos que Bieber, nenhuma delas neste festival o fez.
G1
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