A inteligência artificial deixou de ser uma novidade distante e passou a ocupar espaço cada vez maior na produção musical brasileira. De letras e arranjos a instrumentos, vocais e etapas de finalização, ferramentas de IA já são utilizadas por profissionais da indústria e podem estar presentes em músicas lançadas por artistas conhecidos, muitas vezes sem que o público perceba.

Nos últimos anos, músicas assumidamente produzidas com inteligência artificial chegaram ao público e até se transformaram em sucessos. Mas o fenômeno vai muito além de artistas virtuais ou músicas inteiramente geradas por máquinas.

Profissionais do mercado musical ouvidos pelo g1 afirmam que a tecnologia já aparece em projetos de artistas de diferentes tamanhos, inclusive nomes com grande alcance e números expressivos nas plataformas digitais.

IA pode participar de diferentes etapas da criação

Segundo profissionais da indústria, ferramentas especializadas em música, como o Suno AI, estão entre as mais utilizadas. Mas plataformas de inteligência artificial de uso geral, como ChatGPT e Gemini, também podem ser empregadas durante o processo criativo.

Na composição, por exemplo, a tecnologia pode ajudar a desenvolver uma ideia inicial, sugerir caminhos para uma letra ou auxiliar na adaptação de versos.

Na produção musical, a presença da IA é ainda mais ampla.

Produtores relatam situações em que instrumentais são criados artificialmente e posteriormente recebem instrumentos reais para complementar ou modificar o resultado. Também é possível gerar instrumentos que não foram efetivamente tocados por um músico ou criar corais virtuais a partir de uma melodia.

Até mesmo harmonias completas podem ser desenvolvidas por inteligência artificial.

Voz de artistas também pode ser reproduzida

Um dos usos mais delicados da tecnologia envolve a reprodução de vozes.

A cantora e compositora Tállia, que já trabalhou com artistas como Anitta, Ludmilla e Iza, relatou uma situação envolvendo a música “Venenosa”, lançada em 2024 por Pocah, MC GW e Triz.

Segundo ela, durante a produção da música, houve a necessidade de modificar o refrão depois que Pocah deixou o estúdio. Tállia gravou a nova versão e utilizou uma ferramenta de inteligência artificial para reproduzir características da voz da cantora.

A versão acabou sendo aprovada pela própria Pocah e utilizada na música lançada.

O episódio mostra como a tecnologia pode ser utilizada não apenas para criar novas vozes, mas também para reproduzir a voz de um artista dentro de uma produção real — algo que levanta discussões sobre autorização, transparência e direitos de imagem.

Por que a indústria está usando IA?

A velocidade e o custo estão entre os principais fatores que ajudam a explicar a expansão da tecnologia.

A indústria da música pop trabalha em um ritmo acelerado, com lançamentos constantes e forte pressão por resultados nas plataformas digitais. Nesse cenário, ferramentas capazes de criar uma música, um instrumental ou determinado elemento de produção em poucos minutos podem representar economia de tempo e dinheiro.

Segundo profissionais do setor, a IA também pode reduzir a necessidade de contratar músicos para determinadas etapas de uma produção.

Ferramentas especializadas conseguem gerar músicas a partir de comandos simples, permitindo que o usuário escolha características como estilo, andamento, tonalidade e instrumentos desejados.

O uso da IA pode gerar problemas?

O uso da inteligência artificial não significa, necessariamente, que uma música deixou de ter participação humana. Muitos artistas e produtores utilizam essas ferramentas como apoio criativo, assim como outros recursos tecnológicos já incorporados ao processo musical.

A principal preocupação está relacionada aos direitos autorais e à utilização de obras existentes para treinamento dos sistemas.

Profissionais do setor criticam plataformas que utilizam grandes bases de músicas para desenvolver modelos de inteligência artificial sem autorização dos respectivos titulares.

Esse debate já chegou aos tribunais. A sociedade alemã de gestão de direitos autorais musicais GEMA venceu uma disputa judicial contra a plataforma Suno relacionada ao uso de músicas protegidas no treinamento da tecnologia.

Público pode nem perceber

Mesmo com o avanço da IA, profissionais da indústria afirmam que ainda existem diferenças entre uma produção totalmente humana e determinados resultados gerados por máquinas.

Pequenos detalhes podem denunciar o uso da tecnologia, como versos pouco naturais, expressões fora de contexto, instrumentos que apresentam comportamentos incomuns ou harmonias consideradas estranhas.

Com o avanço dos modelos, entretanto, essa diferença tende a ficar cada vez mais difícil de identificar.

O cenário também pode provocar uma mudança de comportamento no mercado. Enquanto alguns artistas devem assumir o uso da inteligência artificial como parte de sua identidade, outros podem apostar justamente na valorização de gravações mais orgânicas, com erros, imperfeições e características humanas.

O futuro da música será humano ou artificial?

A inteligência artificial já está transformando a maneira como músicas são criadas, produzidas e finalizadas. A tecnologia consegue acelerar processos, reduzir custos e ajudar artistas a transformar ideias em produções completas.

Mas a discussão vai além da capacidade de uma máquina produzir uma música que tenha potencial de viralizar.

Para profissionais do setor, ainda existe uma diferença entre reproduzir padrões que funcionam comercialmente e criar uma obra capaz de atravessar gerações e provocar emoções genuínas.

A tendência é que humanos e inteligência artificial continuem dividindo espaço na indústria musical. A grande questão será definir até onde a tecnologia pode participar da criação, quais direitos precisam ser preservados e, principalmente, como deixar claro ao público quando uma obra contou com a participação de uma máquina.

No fim, mesmo diante de ferramentas cada vez mais sofisticadas, a música continua dependendo de algo que a tecnologia ainda tenta reproduzir: a capacidade humana de transformar experiências, sentimentos e histórias em arte.