A Psicologia educacional já faz parte da rotina de muitos estudantes, mas seu potencial dentro das escolas ainda está longe de ser totalmente aproveitado. Em muitos casos, a tecnologia é utilizada principalmente como um atalho para realizar tarefas, produzir textos, responder exercícios ou resumir conteúdos, sem necessariamente contribuir para o desenvolvimento da autonomia e do raciocínio.
Esse cenário tem provocado uma discussão importante entre educadores e pesquisadores: como fazer com que a inteligência artificial ajude o aluno a aprender, em vez de simplesmente fazer as atividades por ele?
A resposta pode estar em uma área que existe muito antes da popularização dos chatbots: a psicologia educacional.
Especialistas defendem que o uso da IA precisa estar associado a objetivos pedagógicos claros. Não basta permitir ou proibir a ferramenta. É necessário ensinar o estudante a utilizá-la de maneira que estimule a curiosidade, a reflexão, a organização, a persistência e a capacidade de resolver problemas.
IA ainda é usada como um “atalho”
Na prática, muitos estudantes recorrem a ferramentas de inteligência artificial de maneira bastante simples. Fazem uma pergunta ao chatbot, recebem uma resposta e, quando o resultado não atende exatamente ao que desejam, modificam o comando até conseguir algo mais próximo daquilo que precisam.
O problema é que esse processo nem sempre envolve aprendizagem.
Sem orientação, o estudante pode acabar terceirizando justamente as etapas que seriam mais importantes para seu desenvolvimento intelectual. Em vez de pesquisar, comparar informações, construir argumentos e elaborar uma resposta, ele pode simplesmente pedir que a tecnologia faça tudo.
A ausência de diretrizes também gera diferentes comportamentos dentro das escolas. Enquanto alguns professores preferem proibir o uso da IA, outros incentivam a ferramenta e há ainda aqueles que permitem sua utilização sem estabelecer critérios muito claros.
Com isso, permanecem perguntas importantes: quando a IA deve ser utilizada? Para qual finalidade? Como impedir que ela substitua o esforço intelectual? E como avaliar uma atividade produzida com auxílio de inteligência artificial?
O papel da psicologia educacional
Segundo Andrew J. Martin, professor de psicologia educacional da Universidade de New South Wales, na Austrália, parte do problema está justamente na maneira como os estudantes estão incorporando a tecnologia.
Para o pesquisador, muitos jovens utilizam a IA como uma forma de economizar esforço, entregando à ferramenta etapas do raciocínio que seriam fundamentais para a construção do conhecimento.
O paradoxo é que uma das tecnologias educacionais mais avançadas disponíveis atualmente pode acabar sendo utilizada de maneira superficial quando não existe uma estratégia pedagógica por trás dela.
A proposta defendida por Martin é mudar o papel da IA dentro dos estudos. Em vez de pedir que a ferramenta faça a tarefa, o estudante pode utilizá-la como uma espécie de assistente de aprendizagem.
A diferença parece pequena, mas pode transformar completamente o resultado.
Em vez de fazer a tarefa, IA pode ajudar o aluno a pensar
Um estudante que precisa escrever uma redação, por exemplo, poderia simplesmente pedir:
“Faça uma redação sobre determinado assunto.”
Nesse caso, a inteligência artificial realiza grande parte do trabalho intelectual.
Outra possibilidade seria perguntar:
“Ajude-me a organizar minhas ideias e identificar os principais argumentos que posso desenvolver.”
Aqui, a tecnologia passa a funcionar de outra maneira. Ela não entrega necessariamente a resposta final, mas ajuda o estudante a construir seu próprio caminho.
O mesmo princípio pode ser aplicado a diferentes situações.
Em vez de solicitar “resuma este capítulo”, o aluno poderia pedir que a IA explique um conceito de diferentes formas, faça perguntas para verificar se ele realmente entendeu determinado assunto ou aponte possíveis falhas em seu raciocínio.
Também pode utilizar a ferramenta para montar um plano de estudos, dividir conteúdos mais extensos em etapas menores e criar perguntas para testar seus conhecimentos antes de uma prova.
Dessa forma, o aluno continua sendo o protagonista do processo.
Motivação também faz parte da aprendizagem
A proposta de utilizar a IA como ferramenta de apoio também está relacionada a um aspecto muitas vezes esquecido no ambiente escolar: a motivação.
Aprender não depende apenas de receber informações. O estudante precisa acreditar que é capaz de aprender, perceber sentido naquilo que está estudando, organizar seu tempo e persistir quando encontra dificuldades.
É nesse contexto que aparece a Roda da Motivação e do Engajamento, modelo desenvolvido por Andrew J. Martin e publicado na revista Educational Psychology Review.
O framework reúne 11 fatores relacionados à motivação e ao engajamento escolar, divididos entre aspectos positivos e negativos.
Entre os fatores positivos estão a autoconfiança, a valorização da aprendizagem, o foco no aprendizado, o planejamento dos estudos, a administração do tempo e das distrações e a persistência diante das dificuldades.
São justamente áreas nas quais a inteligência artificial pode atuar como uma ferramenta de apoio.
Um estudante que tem dificuldade para organizar sua rotina, por exemplo, pode utilizar a IA para montar um cronograma realista. Outro que não consegue compreender determinado conceito pode solicitar explicações diferentes até encontrar uma abordagem que faça sentido.
A tecnologia também pode ser usada para criar exercícios e perguntas de revisão, permitindo que o estudante perceba quais conteúdos domina e quais ainda precisam ser estudados.
Existem também fatores que dificultam o aprendizado
A Roda da Motivação e do Engajamento também considera fatores que podem prejudicar o desempenho escolar.
Entre eles estão ansiedade, medo do fracasso, sensação de falta de controle sobre o próprio sucesso, autossabotagem e desengajamento.
Esses elementos podem aparecer de diferentes maneiras na rotina de um estudante.
A procrastinação, por exemplo, pode fazer com que uma pessoa adie uma atividade até o último momento. O medo de errar pode fazer com que outro aluno evite participar de uma discussão em sala de aula.
Nesse cenário, a inteligência artificial pode ser utilizada não para eliminar o esforço, mas para ajudar o estudante a encontrar estratégias para lidar com esses obstáculos.
A diferença está na forma como a tecnologia é utilizada.
Surge um novo modelo de assistente de aprendizagem
A partir da proposta de Martin, pesquisadores desenvolveram o GenAI Motivation and Learning Buddy, uma ferramenta de acesso aberto baseada nos 11 fatores apresentados no modelo de motivação e engajamento.
O sistema reúne 11 roteiros de prompts, cada um relacionado a um dos fatores identificados pela psicologia educacional.
A ideia é diferente de um chatbot convencional.
Em vez de simplesmente responder às perguntas do estudante, o assistente funciona como uma espécie de treinador de aprendizagem, ajudando a organizar estudos, enfrentar dificuldades e desenvolver estratégias.
Por exemplo, diante de uma dificuldade para iniciar determinada atividade, o aluno pode ser orientado a dividir o trabalho em pequenas etapas. Em uma situação de falta de confiança, a ferramenta pode ajudar a identificar aquilo que o estudante já domina e estabelecer objetivos possíveis.
O princípio fundamental é preservar a autonomia.
A inteligência artificial não deve substituir o estudante, mas ajudá-lo a desenvolver as habilidades necessárias para realizar a atividade por conta própria.
Professor continua tendo papel fundamental
Apesar das possibilidades oferecidas pela IA, especialistas ressaltam que a tecnologia não substitui o professor.
O educador continua sendo fundamental para definir objetivos, acompanhar o desenvolvimento dos estudantes, identificar dificuldades e avaliar o processo de aprendizagem.
Isso significa que a escola precisa ir além da discussão sobre permitir ou proibir o uso da inteligência artificial.
É necessário ensinar como usar a tecnologia de maneira responsável.
Um aluno precisa entender, por exemplo, que uma resposta produzida por um chatbot pode conter erros. Também precisa aprender a verificar informações, comparar fontes e desenvolver seus próprios argumentos.
A alfabetização digital, portanto, passa a incluir não apenas a capacidade de utilizar ferramentas tecnológicas, mas também de questionar aquilo que elas produzem.
IA pode fortalecer — ou enfraquecer — a autonomia
O impacto da inteligência artificial sobre a educação dependerá, em grande medida, da forma como ela será incorporada ao processo de ensino-aprendizagem.
Se for utilizada exclusivamente para produzir trabalhos, resolver exercícios e entregar respostas prontas, existe o risco de reduzir o esforço cognitivo dos estudantes.
Por outro lado, quando usada para estimular perguntas, organizar estudos, testar conhecimentos, oferecer diferentes explicações e ajudar o estudante a refletir sobre seus próprios erros, a tecnologia pode se transformar em uma poderosa aliada.
Essa diferença pode ser resumida em uma ideia simples: a IA deve ajudar o aluno a pensar melhor, e não pensar no lugar dele.
Um novo desafio para as escolas
A presença da inteligência artificial nas salas de aula parece ser um caminho difícil de evitar. A tecnologia já está disponível e faz parte da rotina de milhões de pessoas.
O grande desafio agora é descobrir como utilizá-la sem comprometer aquilo que a educação busca desenvolver: autonomia, pensamento crítico, criatividade, capacidade de resolver problemas e disposição para aprender.
A psicologia educacional pode oferecer ferramentas importantes para essa transição.
Ao compreender as dificuldades e as motivações de cada estudante, professores e instituições podem encontrar maneiras mais conscientes de integrar a inteligência artificial ao ensino.
Mais do que ensinar os jovens a escrever bons comandos para uma máquina, talvez o verdadeiro objetivo seja ensiná-los a fazer perguntas melhores, compreender as respostas, questioná-las e construir conhecimento a partir delas.
Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta para concluir tarefas e passa a ocupar um lugar mais interessante na educação: o de parceira no processo de aprendizagem, sem retirar do estudante a responsabilidade e o protagonismo sobre aquilo que está aprendendo.














