A superdotação ainda é cercada por mitos e estereótipos que podem dificultar o reconhecimento de crianças e adolescentes com altas habilidades. Um dos principais equívocos é imaginar que uma pessoa superdotada necessariamente terá notas excelentes ou desempenho acima da média em todas as disciplinas.
Na prática, especialistas destacam que a realidade é muito mais ampla. A superdotação pode se manifestar em diferentes áreas e, quando não é identificada ou recebe estímulos inadequados, pode até contribuir para dificuldades no desempenho escolar e no bem-estar emocional do estudante.
Nesta segunda-feira (10), o Dia Internacional da Superdotação chama atenção para o tema e para a necessidade de ampliar o conhecimento sobre as características e necessidades desse público.
Professor pode ser fundamental na identificação
No ambiente escolar, o professor costuma estar entre os primeiros profissionais capazes de perceber comportamentos que podem indicar altas habilidades. Isso acontece porque o docente acompanha diariamente a criança em situações de aprendizagem e convivência.
Entre as características que podem aparecer estão aprendizagem acelerada, curiosidade intensa, criatividade, pensamento crítico, facilidade para estabelecer relações entre diferentes assuntos, sensibilidade emocional, perfeccionismo e necessidade constante de novos desafios.
No entanto, a presença de algumas dessas características não significa, isoladamente, que o estudante seja superdotado. A identificação exige uma avaliação adequada e deve considerar diferentes aspectos do desenvolvimento.
Número de alunos identificados cresce no Brasil
Dados do Censo Escolar 2025, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam que aproximadamente 56 mil crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação estavam matriculados na educação básica brasileira.
Em 2024, eram pouco mais de 44 mil estudantes identificados, mostrando um crescimento expressivo no número de registros.
Apesar do avanço, especialistas avaliam que os dados ainda podem representar apenas uma parcela das crianças e adolescentes que apresentam altas habilidades, já que muitos casos permanecem sem identificação.
Superdotação não significa notas altas
Um dos principais mitos relacionados ao tema é associar diretamente a superdotação a uma inteligência excepcional ou a um desempenho acadêmico elevado em todas as áreas.
Um estudante com altas habilidades pode, por diferentes razões, apresentar baixo rendimento escolar. Entre os fatores estão um projeto pedagógico pouco adequado às suas necessidades, falta de estímulos, dificuldades emocionais e a presença de outras condições que possam interferir na aprendizagem.
Por isso, a avaliação precisa ir além das notas.
Uma Avaliação Pedagógica Diagnóstica pode observar aspectos cognitivos, sociais, motores e afetivos, além de identificar o ritmo de aprendizagem, os estilos de aprendizagem, as habilidades já consolidadas e as possíveis barreiras enfrentadas pelo estudante.
A partir dessas informações, a escola pode elaborar um Plano Educacional Individualizado, com estratégias e metodologias adaptadas ao perfil do aluno e um currículo mais flexível e aprofundado.
Especialistas ressaltam, porém, que esse trabalho não deve ficar exclusivamente nas mãos do professor. A participação da equipe pedagógica e de outros profissionais é importante para construir estratégias de acompanhamento.
Sistema educacional ainda enfrenta desafios
No Brasil, a identificação de estudantes com altas habilidades enfrenta obstáculos como falta de formação específica, dificuldades na estrutura das escolas, escassez de informações e diferentes entendimentos sobre o conceito de superdotação.
Em ambientes com poucos estímulos, algumas habilidades podem simplesmente não ter espaço para aparecer.
Além disso, características como timidez, perfeccionismo, baixa autoestima ou dificuldade de adaptação podem esconder sinais de altas habilidades.
Segundo especialistas, o próprio funcionamento tradicional do sistema educacional pode contribuir para que determinados alunos não tenham oportunidades suficientes para demonstrar suas capacidades.
Meninas podem passar despercebidas
Outro desafio está relacionado às diferenças nas expectativas sociais sobre meninos e meninas.
Especialistas afirmam que meninas com altas habilidades podem desenvolver estratégias de adaptação e camuflagem para se encaixar melhor no ambiente escolar. Comportamentos mais quietos, organizados e obedientes podem fazer com que sinais de altas habilidades chamem menos atenção.
Enquanto comportamentos de questionamento e desafio podem ser mais facilmente percebidos em meninos, meninas com características semelhantes podem passar despercebidas.
Essa falta de reconhecimento pode fazer com que algumas mulheres cheguem à vida adulta sem compreender determinadas características do próprio funcionamento.
Falta de identificação também pode afetar a saúde emocional
O reconhecimento tardio das altas habilidades pode ser acompanhado por anos de incompreensão, pressão para se adaptar e dificuldade para encontrar ambientes que ofereçam estímulos adequados.
Especialistas alertam que esse cenário pode contribuir para sofrimento psicológico, especialmente quando a pessoa passa muito tempo tentando esconder características que não compreende.
Em mulheres, fatores como expectativas sociais, discriminação e sobrecarga de papéis também podem aumentar a pressão emocional.
Por isso, a identificação não deve ser vista apenas como uma forma de reconhecer um potencial acadêmico. Ela pode ajudar a escola, a família e o próprio estudante a compreender melhor suas necessidades, desenvolver suas capacidades e construir estratégias mais adequadas para sua trajetória.
Mais informação para uma escola inclusiva
Para especialistas, reconhecer a superdotação significa abandonar a ideia de que todos os estudantes aprendem da mesma maneira e no mesmo ritmo.
Uma educação verdadeiramente inclusiva precisa considerar diferentes perfis de aprendizagem e oferecer desafios compatíveis com as capacidades de cada aluno.
Nesse processo, professores, famílias e equipes pedagógicas têm papéis complementares. O objetivo não é apenas identificar quem possui altas habilidades, mas garantir que esses estudantes tenham acolhimento, estímulo, acompanhamento e oportunidades para desenvolver todo o seu potencial, sem serem reduzidos a notas, rótulos ou expectativas irreais.














