A dramaturgia brasileira perdeu, nesta terça-feira (18), uma de suas figuras mais importantes e respeitadas. A atriz Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em São Paulo, por causas naturais. A informação foi confirmada pela família nas redes sociais da artista durante a madrugada.

A notícia encerra uma trajetória artística que atravessou mais de oito décadas e acompanhou diferentes fases da cultura brasileira. Laura Cardoso não foi apenas uma atriz de televisão. Ela foi uma das pioneiras da dramaturgia nacional, construiu uma carreira sólida no rádio, no teatro, no cinema e na televisão e tornou-se uma referência para diferentes gerações de artistas.

Em uma publicação feita pelos familiares, a despedida foi marcada por carinho e reconhecimento. “Nossa grande estrela se despediu de nós”, diz a mensagem, que também afirma que Laura estará para sempre no coração daqueles que tiveram a oportunidade de acompanhar sua trajetória.

O velório da atriz acontece nesta terça-feira, das 8h às 14h, no Funeral Home, na região da Bela Vista, em São Paulo. A cerimônia foi organizada de maneira restrita à família.

Uma vida dedicada à arte

Nascida em São Paulo, Laura Cardoso começou muito cedo no universo artístico. Ainda adolescente, aos 15 anos, iniciou sua trajetória no rádio, participando de radionovelas. Era um período em que o rádio ocupava um espaço central no cotidiano das famílias brasileiras e os atores precisavam construir personagens apenas com a voz, a interpretação e a capacidade de envolver o público.

Foi nesse ambiente que Laura começou a desenvolver o talento que mais tarde a transformaria em uma das grandes damas da dramaturgia brasileira.

Na década de 1950, ela chegou à televisão, em um momento em que o meio ainda dava seus primeiros passos no país. Laura estreou na TV Tupi e participou de uma fase pioneira da televisão brasileira, quando muitas produções eram feitas ao vivo e os recursos técnicos eram bastante diferentes dos existentes atualmente.

Ao longo dos anos, a atriz acompanhou a transformação da televisão, passando por diferentes emissoras e formatos até chegar à TV Globo, onde construiu parte significativa de sua trajetória.

Mais do que simplesmente permanecer em atividade durante décadas, Laura conseguiu atravessar gerações. Interpretou personagens em novelas que se tornaram clássicos e trabalhou ao lado de alguns dos maiores nomes da televisão, do teatro e do cinema brasileiros.

Personagens que ficaram na memória

Entre as dezenas de personagens interpretados por Laura Cardoso, alguns permanecem especialmente presentes na memória do público.

Em “Mulheres de Areia”, novela exibida em 1993, ela interpretou Isaura, personagem que ganhou destaque na trama. No ano seguinte, viveu Guiomar em “A Viagem”, outro trabalho lembrado até hoje pelos fãs da teledramaturgia.

Laura também participou de “Irmãos Coragem”, “Chocolate com Pimenta” e “Caminho das Índias”, produções que alcançaram grande repercussão e ajudaram a consolidar sua imagem como uma das atrizes mais versáteis do país.

Em “Chocolate com Pimenta”, exibida em 2003, interpretou Carmem. Já em “Caminho das Índias”, de 2009, deu vida a Laksmi Nanda, personagem que também marcou sua trajetória.

Esses trabalhos representam apenas uma pequena parte de uma carreira que reúne mais de 100 produções entre televisão, teatro, cinema e rádio.

Uma carreira que não parou com o tempo

Uma das características mais admiradas em Laura Cardoso era sua relação com o trabalho. Mesmo depois de décadas de carreira, ela continuou demonstrando paixão pela profissão e disposição para interpretar novos personagens.

Sua última participação em uma produção televisiva ocorreu em 2019, na novela “A Dona do Pedaço”. A atriz, no entanto, ainda retornaria ao cinema anos depois.

Em 2025, Laura participou de “Dona Rosinha”, curta-metragem no qual interpretou a protagonista. O filme aborda o abandono de uma idosa pela própria família e traz uma reflexão sobre solidão, envelhecimento e a importância do cuidado com as pessoas mais velhas.

A participação no filme mostrou que, mesmo aos 97 anos, Laura continuava ligada à arte e ao desejo de contar histórias.

Uma referência para novas gerações

A importância de Laura Cardoso para a cultura brasileira vai muito além dos números de sua filmografia.

Sua carreira ajudou a construir a própria história da televisão no país. Ela começou quando a televisão ainda era uma novidade, atravessou mudanças profundas na indústria do entretenimento e permaneceu como uma presença respeitada mesmo quando novas gerações de atores passaram a ocupar os espaços de destaque.

Colegas de profissão frequentemente destacavam sua dedicação, seu talento e sua postura diante do trabalho. Após a confirmação da morte, diversos artistas prestaram homenagens à atriz e ressaltaram a dimensão de sua contribuição para a dramaturgia brasileira.

O ator Tony Ramos, que conviveu com Laura por mais de seis décadas, falou emocionado sobre a perda e destacou a importância da atriz para a televisão brasileira.

Um legado que permanece

A morte de Laura Cardoso representa uma despedida simbólica de uma geração que ajudou a formar a identidade da televisão brasileira.

Durante mais de 80 anos de carreira, ela deu voz e rosto a personagens de diferentes épocas, histórias e realidades. Foi mãe, avó, mulher simples, personagem dramática, figura cômica e tantas outras representações que fizeram parte do imaginário do público.

Sua trajetória também mostra como a arte pode ultrapassar o tempo. Muitos dos personagens interpretados por Laura continuam sendo lembrados mesmo anos depois de suas novelas terem chegado ao fim.

A atriz recebeu diversos prêmios e homenagens ao longo da carreira, reconhecimento que refletiu não apenas sua popularidade, mas também a importância de seu trabalho para a cultura brasileira. Entre as distinções estão prêmios de teatro, cinema e televisão, além da Ordem do Mérito Cultural.

Nos últimos anos, Laura passou a viver de maneira mais reservada, próxima da família. Ainda assim, continuou sendo lembrada pelo público e pela classe artística.

Sua última aparição em uma produção cinematográfica tornou-se, agora, uma espécie de despedida artística. Em “Dona Rosinha”, Laura interpretou uma mulher idosa que enfrenta o abandono, levando para a tela uma história delicada e profundamente humana.

A realidade, porém, é que Laura Cardoso nunca precisou de um último personagem para deixar sua marca.

Ela já havia construído uma história que pertence à memória do Brasil.

Aos 98 anos, Laura parte deixando uma obra extensa, personagens inesquecíveis e uma trajetória que atravessou gerações. Sua voz, seu olhar e sua interpretação permanecerão registrados em novelas, filmes, peças, programas de rádio e, principalmente, na lembrança de milhões de brasileiros.

Para a televisão brasileira, fica a sensação de que uma página importante de sua história foi encerrada. Para o público, permanece o privilégio de ter acompanhado uma artista que transformou o próprio tempo em matéria-prima para a arte.

Laura Cardoso morreu, mas sua obra continua viva.

E, como disseram seus familiares na despedida, a grande estrela seguirá para sempre nos corações de quem aprendeu a admirar sua arte.