Zé Paulo Becker revive a memória do lendário bar Semente em novo EP com participação de Roberta Sá. O projeto reúne seis gravações ao vivo realizadas no tradicional espaço da Lapa, no Rio de Janeiro, e resgata uma fase marcante da história do samba e do choro carioca.
Agora, essa história volta a ganhar vida pelas mãos do violonista e compositor Zé Paulo Becker, que prepara o lançamento do EP “Ao vivo no Semente” para a próxima sexta-feira, 4 de setembro.
O trabalho reúne seis faixas gravadas ao vivo no próprio Semente e recuperadas do DVD “Geração Semente”, lançado em 2016. O projeto representa não apenas o resgate de um conjunto de gravações, mas também uma espécie de reencontro de Becker com um período fundamental de sua trajetória artística.
Durante quase 20 anos, o músico tocou semanalmente no bar, acompanhando de perto a transformação da Lapa em um dos principais polos da música brasileira no Rio de Janeiro.
Um lugar que marcou gerações
Fundado em 1998, o Semente rapidamente se transformou em um dos endereços mais importantes do circuito carioca de samba e choro.
Localizado na Lapa, região conhecida por sua intensa vida boêmia e cultural, o bar recebeu músicos que posteriormente conquistariam reconhecimento nacional.
Entre os artistas associados à cena que se desenvolveu naquele ambiente estão nomes como Moyseis Marques e Teresa Cristina, que ganharam projeção ao longo dos anos 2000.
Mais do que um palco, o Semente funcionava como ponto de encontro entre músicos, compositores e admiradores da música brasileira.
As apresentações ajudaram a criar uma atmosfera particular, marcada pela proximidade entre artistas e público e pela liberdade característica das rodas de samba e das noites de choro.
A importância daquele período foi tamanha que a história do estabelecimento acabou registrada no documentário “Semente da música brasileira”, lançado em 2018.
O filme preservou depoimentos, imagens e momentos relacionados à trajetória do espaço, ajudando a manter viva a memória de um lugar que, mesmo depois de fechar as portas, continuou presente na lembrança de quem viveu aquela época.
Gravações feitas em 2016 ganham nova vida
As seis músicas que formam o novo EP foram registradas em 2016, ainda no período em que o Semente estava em funcionamento.
As gravações foram posteriormente utilizadas na trilha sonora do documentário e também fizeram parte do DVD “Geração Semente”.
Agora, quase uma década depois, Zé Paulo Becker decidiu reunir esse material em um formato mais enxuto e disponibilizá-lo como EP.
A escolha reforça o caráter documental e afetivo do projeto.
São registros captados em um ambiente que fez parte da história profissional do artista e que também ajudou a formar a identidade musical de uma geração de instrumentistas e compositores.
O resultado é um trabalho que combina memória, música instrumental e encontros com importantes nomes da cena brasileira.
Roberta Sá participa de “Xodó de lamparina”
Entre os destaques do EP está uma nova oportunidade de ouvir “Xodó de lamparina”, composição de Zé Paulo Becker e Moyseis Marques.
Na gravação, Becker divide a interpretação com a cantora Roberta Sá, cuja participação acrescenta ao repertório a delicadeza e a personalidade vocal que marcaram sua carreira.
A música representa também a força da parceria entre composição, voz e violão que sempre esteve presente na tradição do samba e do choro carioca.
Ao recuperar a faixa, Becker não apenas apresenta uma música ao público, mas também resgata um momento vivido dentro do próprio Semente.
É justamente essa combinação entre repertório e memória que dá ao EP uma característica especial.
Encontros musicais formam repertório
Apesar de todas as seis faixas terem sido compostas por Zé Paulo Becker, o EP apresenta diferentes formações e encontros musicais.
Em “Pra tudo ficar bem”, o violonista conta com a participação do violinista Nicolas Krassik.
Já em “Incinero”, composição de Becker e Mauro Aguiar, a voz de Beth Marques assume o protagonismo ao lado do compositor.
A faixa mostra outra faceta do trabalho, ampliando o repertório para além da música instrumental.
Em “Clara”, o destaque fica por conta do sopro de Humberto Araújo, que contribui para a construção do arranjo e para a atmosfera da gravação.
O projeto também reserva espaço para o Trio Madeira Brasil, grupo do qual Becker faz parte.
Em “Choro pro tio”, ele toca ao lado dos companheiros Marcello Gonçalves, também violonista, e Ronaldo Souza, bandolinista.
O encontro reforça uma das principais características da trajetória do músico: a valorização da música instrumental brasileira e das formações coletivas.
Duo com Cainã Cavalcante encerra o projeto
A sexta faixa do EP é “Passeando no Bosco”, apresentada em duo por Zé Paulo Becker e pelo violonista Cainã Cavalcante.
A escolha de dois violões evidencia a força do instrumento na obra do compositor e cria um diálogo musical baseado em técnica, sensibilidade e interação.
O formato também remete à tradição do violão brasileiro, instrumento que ocupa posição central na história do samba, do choro e de diversas outras manifestações da música nacional.
Ao longo do EP, essa presença aparece de diferentes maneiras, ora acompanhando vozes, ora dialogando com outros instrumentos e, em alguns momentos, assumindo sozinho a condução das composições.
Um registro feito dentro do próprio Semente
Outro elemento importante do projeto está na forma como as gravações foram realizadas.
O áudio foi captado dentro do bar Semente pelo engenheiro de som Carlos Fuchs.
Isso confere às músicas uma dimensão ainda mais especial, já que o ambiente que serviu de palco para tantos artistas também faz parte do registro sonoro.
A gravação ao vivo preserva a essência de uma apresentação realizada diante do público, mantendo o caráter espontâneo e a energia própria de uma noite musical.
Em vez de reconstruir posteriormente aquela experiência em estúdio, Becker optou por apresentar ao público registros feitos no espaço que inspirou boa parte de sua trajetória.
A capa também dialoga com a memória
A identidade visual do EP ficou a cargo de Duda Simões, responsável pelo design da capa.
O projeto gráfico acompanha a proposta de resgate da memória do Semente e ajuda a estabelecer uma conexão entre o passado registrado nas gravações e o presente do lançamento.
Nesse sentido, música e imagem caminham juntas para preservar a lembrança de um espaço que marcou profundamente a cena musical carioca.
Zé Paulo Becker e uma trajetória ligada ao choro
A relação de Zé Paulo Becker com o Semente é especialmente significativa porque o músico não foi apenas um artista que passou pelo local.
Ele esteve presente semanalmente durante quase duas décadas.
Foi nesse ambiente que acompanhou diferentes gerações de músicos, participou de encontros, apresentou composições e ajudou a construir a identidade musical do espaço.
Integrante do Trio Madeira Brasil, Becker possui uma trajetória diretamente ligada à música instrumental brasileira e ao violão.
Seu trabalho transita pelo choro, pelo samba e por outras vertentes da música popular, sempre valorizando a tradição sem abrir mão de novas possibilidades de criação.
O EP surge, portanto, como uma extensão natural dessa história.
Um reencontro com uma época especial da música carioca
“Ao vivo no Semente” chega ao público em um momento em que o antigo bar já não existe fisicamente, mas permanece vivo na memória de músicos e admiradores.
O lançamento transforma antigas gravações em uma oportunidade de apresentar aquela atmosfera a uma nova geração.
Para quem frequentou o Semente, o EP pode funcionar como uma viagem no tempo.
Para quem não teve a oportunidade de conhecer o espaço, as seis faixas oferecem uma pequena amostra da riqueza musical que passou pelo endereço da Lapa.
A participação de artistas como Roberta Sá, Nicolas Krassik, Beth Marques, Humberto Araújo, Marcello Gonçalves, Ronaldo Souza e Cainã Cavalcante amplia ainda mais o significado do projeto.
Cada encontro ajuda a contar uma parte dessa história.
Música como forma de preservar a memória
O lançamento de “Ao vivo no Semente” mostra como a música pode funcionar também como instrumento de preservação da memória.
Um bar pode fechar, uma casa de shows pode desaparecer e uma geração pode seguir novos caminhos. As gravações, porém, permanecem.
No caso do Semente, elas ajudam a registrar um período de intensa criatividade na música carioca.
Ao reunir seis dessas performances, Zé Paulo Becker transforma o material de arquivo em um novo trabalho artístico.
Mais do que recuperar músicas antigas, o projeto recupera sentimentos, encontros e experiências que fizeram parte da vida de muitos artistas.
Com lançamento marcado para 4 de setembro, “Ao vivo no Semente” chega como uma homenagem a um espaço que ajudou a formar a identidade musical da Lapa e como um retrato de uma época em que samba e choro encontravam no palco, na roda e na proximidade com o público um território fértil para novas criações.
Para Zé Paulo Becker, é também uma maneira de voltar, por meio da música, a um lugar que esteve presente em quase 20 anos de sua história.
E, para o público, o EP oferece a possibilidade de ouvir novamente os sons de uma casa que fechou as portas, mas que continua ecoando na música brasileira.















