Precoce, o controle dos níveis de colesterol e o acompanhamento adequado do diabetes tipo 2 podem ter um papel importante na prevenção de problemas de saúde ao longo do envelhecimento. Um novo estudo realizado por pesquisadores do University Hospital Copenhagen sugere que o início precoce do tratamento com estatinas após o diagnóstico de diabetes tipo 2 pode estar associado a um risco menor de desenvolver demência.

A pesquisa foi apresentada durante o Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia e publicada em 27 de agosto na revista científica The Lancet Regional Health – Europe. Embora os resultados sejam considerados relevantes, os pesquisadores destacam que o estudo identificou uma associação e não permite afirmar que as estatinas sejam capazes de prevenir diretamente a demência.

A descoberta ganha importância diante do envelhecimento da população mundial e da busca crescente por estratégias que possam reduzir fatores de risco relacionados ao declínio cognitivo.

A demência reúne diferentes condições que podem comprometer progressivamente a memória, o raciocínio, a linguagem e a capacidade de realizar atividades cotidianas. Embora nem todos os casos possam ser evitados, pesquisas indicam que determinados fatores de risco podem ser modificados ao longo da vida.

Entre eles estão problemas cardiovasculares, colesterol elevado e diabetes.

Diabetes e colesterol entram no centro da pesquisa

A relação entre diabetes tipo 2 e colesterol elevado ajudou a motivar o estudo realizado na Dinamarca.

Pessoas com diabetes tipo 2 apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares e, em muitos casos, também apresentam alterações nos níveis de colesterol, especialmente do LDL-C, conhecido popularmente como “colesterol ruim”.

O LDL-C em níveis elevados pode contribuir para o acúmulo de placas de gordura nas artérias, aumentando o risco de problemas cardiovasculares. Como o sistema circulatório está diretamente relacionado ao funcionamento do cérebro, pesquisadores vêm estudando cada vez mais a relação entre saúde cardiovascular e doenças neurodegenerativas.

Foi nesse contexto que os cientistas avaliaram se o início precoce do tratamento com estatinas após o diagnóstico de diabetes tipo 2 poderia estar relacionado a uma redução no risco de demência.

“Levantamos a hipótese de que o início precoce do uso de estatinas redutoras de LDL-C após o diagnóstico de diabetes tipo 2 poderia estar associado a um menor risco de demência”, explicou o pesquisador Tummas Ternhamar durante a apresentação dos resultados.

Estudo acompanhou mais de 132 mil pessoas

Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram dados de 132.585 pessoas que desenvolveram diabetes tipo 2 entre 2006 e 2019 e que não utilizavam estatinas no momento considerado para o início da análise.

Os participantes foram divididos em três grupos de acordo com o momento em que começaram a utilizar os medicamentos.

O primeiro grupo era formado por pessoas que não iniciaram o tratamento com estatinas durante os cinco anos seguintes ao diagnóstico de diabetes tipo 2.

O segundo grupo reuniu aqueles que começaram a utilizar o medicamento menos de um ano após receberem o diagnóstico.

Já o terceiro grupo era composto por pessoas que iniciaram o tratamento entre um e cinco anos depois da descoberta do diabetes.

Os participantes foram acompanhados durante aproximadamente sete anos.

Ao final do período analisado, 2,7% dos participantes haviam desenvolvido demência.

Quando os grupos foram comparados, os pesquisadores observaram que aqueles que iniciaram o tratamento com estatinas mais cedo apresentaram um risco relativo 10% menor de desenvolver a condição.

Resultado não significa prevenção garantida

Apesar do resultado considerado positivo pelos pesquisadores, é importante interpretar os dados com cautela.

O estudo não demonstrou que as estatinas, por si só, impedem o surgimento da demência. O que foi observado foi uma associação entre o uso precoce desses medicamentos e uma menor ocorrência da doença durante o período analisado.

Esse tipo de distinção é importante porque estudos observacionais, mesmo quando utilizam grandes bancos de dados e métodos estatísticos avançados, podem estar sujeitos a diferentes fatores que influenciam os resultados.

Por isso, os pesquisadores utilizaram métodos de análise destinados a aproximar o estudo das características de um ensaio clínico randomizado e reduzir alguns dos possíveis vieses existentes em pesquisas observacionais.

Ainda assim, os resultados precisam ser interpretados dentro do contexto científico e não devem ser utilizados como justificativa para que uma pessoa comece ou interrompa o uso de estatinas por conta própria.

O que são as estatinas?

As estatinas são medicamentos utilizados há décadas principalmente para reduzir os níveis de colesterol no sangue.

Elas atuam bloqueando uma enzima envolvida na produção de colesterol pelo fígado. Como consequência, ajudam a reduzir a concentração de LDL-C na circulação.

Além da redução do colesterol, as estatinas também estão associadas à estabilização de placas de gordura presentes nas artérias e à redução de determinados processos inflamatórios relacionados à saúde vascular.

Por esses motivos, são amplamente utilizadas na prevenção e no tratamento de doenças cardiovasculares.

A possibilidade de que esses medicamentos também estejam relacionados a um menor risco de demência acrescenta uma nova perspectiva à discussão científica sobre os benefícios do controle dos fatores de risco cardiovasculares.

Controle do colesterol pode ter importância para o cérebro

A saúde do cérebro depende de uma circulação sanguínea adequada. Alterações nos vasos sanguíneos podem prejudicar o fornecimento de oxigênio e nutrientes necessários para o funcionamento cerebral.

Diabetes e colesterol elevado podem contribuir para danos vasculares ao longo dos anos. Quando essas condições permanecem sem controle, podem aumentar o risco de diferentes complicações.

Por isso, o acompanhamento médico e o controle adequado dos fatores de risco são considerados importantes não apenas para proteger o coração, mas também para preservar a saúde de outros órgãos, incluindo o cérebro.

O novo estudo reforça justamente essa possibilidade de conexão entre a saúde cardiovascular e o risco de demência.

Pesquisador defende tratamento adequado

Para Tummas Ternhamar, os resultados também chamam atenção para a utilização das estatinas entre pessoas com diabetes tipo 2.

“As estatinas parecem ser subutilizadas em pacientes com diabetes tipo 2, apesar de seus efeitos protetores contra doenças cardiovasculares”, afirmou o pesquisador.

Segundo ele, os resultados podem representar uma razão adicional para garantir que pacientes com diabetes tipo 2 e níveis elevados de LDL-C recebam o tratamento adequado e no momento apropriado.

A afirmação, entretanto, não significa que todas as pessoas com diabetes devam obrigatoriamente utilizar estatinas. A indicação depende de uma avaliação individual feita por profissionais de saúde, considerando idade, níveis de colesterol, histórico familiar, presença de doenças cardiovasculares e outros fatores de risco.

Demência continua sendo um desafio para a saúde pública

O crescimento da população idosa tem aumentado a preocupação mundial com doenças que afetam a capacidade cognitiva.

A demência pode provocar impactos profundos não apenas na vida do paciente, mas também na rotina de familiares e cuidadores. À medida que a doença avança, tarefas que antes eram simples podem se tornar difíceis, exigindo acompanhamento e, em muitos casos, apoio permanente.

Por isso, a ciência tem buscado maneiras de reduzir os fatores de risco modificáveis.

Controle da pressão arterial, prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle do diabetes, tratamento adequado do colesterol, abandono do tabagismo e acompanhamento médico estão entre as medidas frequentemente relacionadas à manutenção da saúde cardiovascular e cerebral.

O novo estudo acrescenta as estatinas a uma discussão que ainda está em desenvolvimento: até que ponto o controle precoce de fatores cardiovasculares pode contribuir para preservar a função cerebral ao longo do envelhecimento.

Próximos estudos serão importantes

Os resultados publicados na The Lancet Regional Health – Europe representam mais uma peça no esforço científico para compreender a relação entre doenças metabólicas, saúde vascular e demência.

Como se trata de uma associação observada em uma grande população, novos estudos poderão ajudar a esclarecer se existe uma relação causal direta entre o uso precoce das estatinas e a redução do risco de demência.

Enquanto isso, especialistas reforçam a importância de não alterar tratamentos sem orientação médica.

Para pessoas com diabetes tipo 2, manter consultas regulares, acompanhar os níveis de glicose e colesterol e seguir corretamente as orientações da equipe de saúde continua sendo fundamental.

A pesquisa dinamarquesa traz uma perspectiva promissora, mas ainda não representa uma resposta definitiva para a prevenção da demência.

O principal recado, por enquanto, é que cuidar da saúde cardiovascular desde a meia-idade pode ter benefícios que vão além do coração. O controle adequado do colesterol e do diabetes pode representar uma estratégia importante para a saúde geral e, possivelmente, também para a preservação da saúde cerebral ao longo do envelhecimento.