A nova composição do Senado Federal, que assumirá em 2027, já começa a produzir efeitos nos bastidores de Brasília antes mesmo do fim das eleições de 2026. O avanço de parlamentares alinhados à direita e, em especial, ao bolsonarismo, colocou a relação entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro das negociações políticas para o próximo ano.
A pauta ganhou força durante o segundo turno das eleições presidenciais, enquanto as campanhas seguem nas ruas. Nos bastidores, senadores eleitos e lideranças partidárias já discutem quais serão as prioridades da próxima legislatura. Entre os temas mais sensíveis estão o funcionamento do STF, os limites de atuação da Corte e a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros.
O Partido Liberal deverá chegar a 2027 como a maior bancada do Senado, com 28 cadeiras, ampliando significativamente sua capacidade de articulação dentro da Casa. O novo cenário, no entanto, ainda dependerá da formação de blocos, das negociações partidárias e da escolha do próximo presidente do Senado.
Rogério Marinho busca diálogo com o Supremo
Um dos personagens centrais dessa movimentação é o senador Rogério Marinho (PL-RN), que atua como coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).
Na terça-feira (6), Marinho esteve no Supremo Tribunal Federal e se reuniu com o presidente da Corte, ministro Edson Fachin. O encontro ocorreu justamente em um momento de aumento da tensão entre setores do Congresso e ministros do Supremo.
Após a reunião, Marinho afirmou que não haverá “vingança nem omissão” em relação ao STF. Segundo ele, a futura maioria do Senado não pretende promover uma retaliação contra a Corte, mas também não deverá deixar de analisar eventuais acusações de crimes de responsabilidade envolvendo ministros.
A declaração sinaliza uma tentativa de estabelecer uma diferença entre confronto político e atuação institucional. Ao mesmo tempo em que busca abrir canais de diálogo com integrantes do Supremo, a ala mais conservadora do Senado mantém o impeachment de ministros entre as pautas defendidas durante a campanha.
Marinho, porém, ainda não teve conversas com os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Segundo informações divulgadas após a reunião, o senador pretende manter esse diálogo com os dois ministros em outro momento.
Alexandre de Moraes permanece no centro da disputa
Entre os integrantes do Supremo, Alexandre de Moraes aparece como um dos principais focos de críticas de setores conservadores. Sua atuação durante os últimos anos, especialmente em processos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a investigações envolvendo aliados do bolsonarismo, tornou o ministro uma figura central no embate político entre parte da direita e o Judiciário.
Com a nova composição do Senado, as decisões e os movimentos de Moraes deverão continuar sendo acompanhados de perto por parlamentares que defendem mudanças na relação entre os Poderes.
Isso não significa, porém, que todos os senadores eleitos pela direita defendam necessariamente o impeachment de ministros. Integrantes do Judiciário e parlamentares ouvidos em Brasília avaliam que a futura bancada será heterogênea e que as posições podem variar de acordo com cada tema.
Ainda assim, o assunto ganhou força porque vários candidatos incorporaram críticas ao STF e a defesa de maior atuação do Senado durante suas campanhas.
A discussão, portanto, deverá ultrapassar a polarização entre grupos políticos e entrar diretamente na agenda institucional do Congresso.
Impeachment exige maioria no Senado
O Senado possui papel constitucional específico nos processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Para que um processo avance até o julgamento, é necessário cumprir etapas previstas na legislação e no regimento da Casa.
O novo cenário tornou essa possibilidade mais presente no debate político. Levantamentos recentes apontam que dezenas de senadores da futura composição demonstram apoio a algum tipo de medida contra ministros, embora o número necessário para um eventual afastamento seja maior e dependa da posição efetiva de cada parlamentar no momento da votação.
Por isso, apesar do crescimento da bancada conservadora, não há garantia de que um pedido de impeachment será aprovado. A composição de blocos, as negociações partidárias e a atuação do futuro presidente do Senado serão determinantes.
Disputa pela presidência do Senado ganha importância
Nesse contexto, uma eleição que ocorrerá em fevereiro de 2027 ganha relevância especial: a escolha do novo presidente do Senado.
O atual presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), ocupa o cargo até fevereiro de 2027. Ele foi eleito em 2025 para um mandato de dois anos, com 73 votos.
A sucessão já movimenta diferentes grupos políticos.
Rogério Marinho aparece entre os principais nomes envolvidos na disputa. A nova força do PL e o crescimento de partidos de direita podem ampliar suas possibilidades de articulação.
Outro nome que circula nas negociações é o de Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara dos Deputados e eleito senador em 2026. Lira possui experiência na condução do Congresso e pode buscar uma posição capaz de reunir diferentes setores da Casa.
Também existe a possibilidade de outros nomes entrarem na disputa à medida que as negociações avancem.
O cenário, portanto, ainda está aberto. A eleição para a presidência do Senado não depende apenas do tamanho de uma bancada, mas da capacidade de cada candidato de construir uma maioria entre diferentes partidos.
Supremo acompanha as movimentações
Dentro do STF, a nova configuração do Senado é tratada com atenção. Reportagens recentes apontam que ministros avaliam a possibilidade de diálogo com setores considerados mais moderados do PL e de outras bancadas, numa tentativa de evitar que a relação entre os Poderes se transforme em um confronto permanente.
A estratégia ganha importância porque algumas propostas defendidas por parlamentares podem alterar a relação entre Legislativo e Judiciário, incluindo discussões sobre decisões individuais de ministros, competências da Corte e regras para processos de impeachment.
Ao mesmo tempo, integrantes do Supremo reconhecem que a nova composição do Congresso não é completamente uniforme. Há parlamentares conservadores com diferentes trajetórias políticas e posições distintas sobre a Corte.
Essa diversidade pode abrir espaço para negociações e acordos antes que medidas mais duras sejam levadas ao plenário.
Segundo turno pode influenciar as negociações
O resultado do segundo turno da eleição presidencial também terá peso sobre esse cenário.
A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) poderá influenciar alianças no Congresso, especialmente porque diferentes partidos ainda avaliam qual posição adotar na reta final da eleição.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia fortalecer politicamente o grupo que defende mudanças na relação com o STF. Já uma vitória de Lula não eliminaria a pressão sobre a Corte, uma vez que a nova composição do Senado continuará existindo independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto.
Isso significa que, em qualquer cenário, a relação entre Senado e Supremo deverá permanecer como uma das questões mais importantes da política brasileira em 2027.
Um novo equilíbrio entre os Poderes
O que está em formação em Brasília não é apenas uma mudança na composição partidária do Senado. É também uma possível alteração no equilíbrio político entre Legislativo e Judiciário.
O STF ganhou protagonismo nos últimos anos em decisões relacionadas à democracia, eleições, investigações e direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, setores do Congresso passaram a defender limites mais claros para a atuação da Corte.
O desafio para os próximos meses será encontrar mecanismos institucionais que permitam a convivência entre Poderes independentes, mesmo diante de divergências políticas profundas.
A escolha do novo presidente do Senado, as negociações entre bancadas e a postura dos ministros do STF serão peças importantes desse processo.
Enquanto o segundo turno ainda mobiliza candidatos e eleitores, Brasília já começa a olhar para 2027. A nova composição do Senado deverá colocar o Supremo no centro das discussões legislativas, e a capacidade de diálogo entre os Poderes poderá determinar se o próximo ano será marcado por negociações institucionais ou por novos episódios de confronto.
Uma coisa, porém, já está clara: a relação entre Senado e STF será uma das principais agendas políticas do Brasil a partir de fevereiro de 2027.













