O mercado de medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, incluindo as chamadas canetas emagrecedoras, poderá registrar uma expansão expressiva nos próximos anos. Uma projeção do banco de investimentos J.P. Morgan estima que o setor no Brasil, na China e na Índia cresça dos atuais US$ 6,6 bilhões, equivalentes a aproximadamente R$ 33 bilhões, para US$ 22 bilhões, cerca de R$ 110 bilhões, até 2035.
A estimativa representa mais de três vezes o tamanho atual do mercado e considera uma taxa média de crescimento de 15% ao ano. Segundo os analistas liderados por Yang Huang, a expansão deverá ser impulsionada principalmente pela redução dos preços, pela chegada de novos medicamentos e pela ampliação do acesso aos tratamentos.
O cenário também está relacionado ao grande número de pessoas que vivem com diabetes e obesidade nesses três países. Com populações numerosas e uma demanda crescente por cuidados de saúde, Brasil, China e Índia representam mercados com potencial para ampliar significativamente o uso de medicamentos dessa classe.
Apesar das perspectivas positivas para o setor farmacêutico, o crescimento projetado também levanta questões importantes sobre acesso, custos, acompanhamento médico e utilização responsável desses tratamentos.
Como funcionam as canetas emagrecedoras?
Medicamentos como Ozempic e Wegovy, produzidos pela farmacêutica Novo Nordisk, e Zepbound, da Eli Lilly, pertencem a uma classe de tratamentos que atua sobre mecanismos hormonais relacionados ao controle da glicose e do apetite.
Esses medicamentos utilizam substâncias que imitam a ação de hormônios envolvidos na regulação do organismo. Os chamados agonistas do receptor GLP-1 ajudam a controlar os níveis de açúcar no sangue e podem aumentar a sensação de saciedade, contribuindo para a redução da ingestão de alimentos.
Dependendo do medicamento, da indicação aprovada e das condições clínicas do paciente, esses tratamentos podem ser utilizados no controle do diabetes tipo 2 ou no tratamento da obesidade.
Embora sejam frequentemente conhecidos pelo efeito sobre o peso corporal, os medicamentos não devem ser considerados soluções simples ou universais para o emagrecimento. A indicação depende de avaliação médica, levando em conta o histórico de saúde, os fatores de risco, as contraindicações e os possíveis efeitos adversos.
Além disso, os produtos dessa classe não são necessariamente intercambiáveis. Cada medicamento possui características próprias, indicações específicas e condições de utilização que precisam ser respeitadas.
O acompanhamento profissional é importante para avaliar os resultados, identificar eventuais reações adversas e definir a continuidade do tratamento.
Diabetes e obesidade impulsionam a demanda mundial
Um dos principais fatores por trás das projeções do J.P. Morgan é a dimensão dos problemas de saúde que esses medicamentos procuram tratar.
A China e a Índia estão entre os países com as maiores populações de pessoas com diabetes no mundo. De acordo com os dados citados pelo banco, os dois países concentram, respectivamente, mais de 25% e 15% dos casos diagnosticados globalmente.
No Brasil, cerca de 12% dos adultos têm diabetes, conforme a estimativa apresentada no relatório.
O diabetes exige acompanhamento contínuo e pode provocar complicações quando os níveis de glicose permanecem inadequadamente controlados. Entre os possíveis efeitos estão problemas cardiovasculares, comprometimento dos rins, alterações na visão e danos aos nervos.
A obesidade também representa um desafio para os sistemas de saúde, pois está associada a um risco maior de desenvolver diferentes doenças crônicas. O tratamento pode envolver mudanças alimentares, atividade física, acompanhamento multidisciplinar e, em determinadas situações, medicamentos ou procedimentos específicos.
Na China, a parcela da população com sobrepeso ou obesidade poderá ultrapassar 65% até 2030, segundo a projeção mencionada no material. Na Índia, a estimativa é de que a taxa de obesidade entre adultos alcance 11% até 2035.
Esse contexto ajuda a explicar por que os analistas consideram que os medicamentos da classe GLP-1 poderão conquistar uma participação maior nesses mercados.
Redução de preços pode ampliar o acesso
Apesar do potencial de crescimento, o uso desses tratamentos ainda é limitado em muitos países emergentes. O preço elevado é um dos principais obstáculos, especialmente para pacientes que precisam utilizar medicamentos por períodos prolongados.
Segundo o relatório do J.P. Morgan, menos de 0,1% da população chinesa e menos de 0,2% da população indiana utilizam medicamentos da classe GLP-1. Nos Estados Unidos, a proporção estimada fica entre 4% e 5%.
A diferença indica que existe espaço para a expansão do mercado, embora o crescimento dependa de fatores como renda, cobertura de saúde, disponibilidade dos produtos e acesso a profissionais capacitados.
Os analistas afirmam que os medicamentos estão deixando de representar uma tendência concentrada nos mercados desenvolvidos para se tornarem uma questão de acesso global.
“Os medicamentos GLP-1 estão deixando de ser uma tendência de crescimento restrita aos mercados desenvolvidos para se tornarem uma questão de acesso global mais amplo”, afirmaram os analistas.
Um dos fatores que poderá contribuir para essa mudança é a expiração de patentes de determinados produtos. Quando a proteção patentária termina, outras empresas podem, conforme as regras de cada país, desenvolver medicamentos equivalentes ou versões genéricas, ampliando a concorrência.
É importante, porém, diferenciar medicamentos genéricos de biossimilares. A classificação depende do tipo de produto e de suas características regulatórias. Nem todos os medicamentos injetáveis dessa classe podem ser reproduzidos como genéricos convencionais.
O relatório também destaca o papel de políticas públicas e de iniciativas comerciais que podem reduzir os preços e facilitar o acesso aos tratamentos.
China poderá ultrapassar o Brasil até 2027
Atualmente, o Brasil é o maior mercado entre os três países analisados pelo banco. Entretanto, a projeção indica que a China poderá assumir a liderança até 2027.
Até 2035, o mercado chinês poderá movimentar US$ 13,7 bilhões, aproximadamente R$ 68,5 bilhões, enquanto o brasileiro deverá alcançar US$ 8 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 40 bilhões.
A expectativa para a China está relacionada ao tamanho de sua população, à elevada quantidade de pessoas com diabetes e à possibilidade de ampliação da cobertura dos tratamentos com GLP-1.
Caso os medicamentos se tornem mais acessíveis, uma parcela maior dos pacientes poderá ter condições de iniciar e manter o tratamento, aumentando a demanda.
No Brasil, o crescimento também dependerá da capacidade de ampliar o acesso, reduzir barreiras financeiras e garantir a disponibilidade dos medicamentos indicados para cada condição clínica.
O fato de o mercado brasileiro ser atualmente o maior entre os três não significa que a maioria das pessoas com obesidade utilize esses tratamentos. Pelo contrário: o próprio relatório aponta que a adoção ainda poderá ser relativamente limitada nos próximos anos.
Uso no Brasil deverá continuar abaixo do observado nos Estados Unidos
Segundo a estimativa do J.P. Morgan, entre 7% e 8% da população brasileira com obesidade deverá utilizar medicamentos para tratar a condição até 2035. Nos Estados Unidos, a projeção é de aproximadamente 30%.
A diferença evidencia que o potencial comercial não depende apenas da necessidade médica, mas também da capacidade de pagamento, da cobertura dos tratamentos e das condições de acesso aos serviços de saúde.
No Brasil, o custo pode representar um obstáculo importante para quem precisa manter o tratamento por um período prolongado. A ampliação da oferta e a concorrência entre fabricantes poderão influenciar os preços, mas não garantem, isoladamente, que os medicamentos estarão acessíveis a todos.
Também será necessário considerar a orientação médica e o acompanhamento adequado, evitando que a procura por emagrecimento leve ao uso indiscriminado dos produtos.
O crescimento do mercado deve ser acompanhado de informação de qualidade para que os pacientes compreendam as indicações, os limites e os riscos dos tratamentos.
Empresas podem se beneficiar da expansão
O J.P. Morgan também apontou companhias que, na avaliação de seus analistas, poderão se beneficiar do crescimento desse segmento.
Entre elas estão a chinesa Innovent, as indianas Divi’s Laboratories e Torrent Pharmaceuticals e a brasileira RD Saúde, responsável pelas redes de farmácias Raia e Drogasil.
A expansão pode abrir oportunidades para fabricantes, distribuidores e empresas que participam da cadeia de produção e comercialização dos medicamentos.
No entanto, o crescimento projetado para o setor não garante resultados financeiros positivos para todas as companhias. O desempenho de cada empresa dependerá de fatores como concorrência, custos de produção, regulamentação, capacidade de distribuição e estratégias comerciais.
As projeções representam expectativas de mercado, e não uma garantia de que os valores estimados serão alcançados.
Crescimento exige responsabilidade e acesso à saúde
A perspectiva de que o mercado de medicamentos para obesidade e diabetes ultrapasse US$ 22 bilhões até 2035 demonstra a importância crescente dessa área para a indústria farmacêutica mundial.
Ao mesmo tempo, o avanço do setor precisa ser acompanhado de políticas que favoreçam o acesso responsável e a segurança dos pacientes.
A obesidade e o diabetes são condições complexas, que exigem cuidados individualizados. Os medicamentos podem representar uma ferramenta importante quando existe indicação clínica, mas não substituem automaticamente outras medidas de tratamento e acompanhamento.
Com a possível redução dos preços e a ampliação da oferta, Brasil, China e Índia poderão registrar mudanças importantes no acesso a essas terapias. O desafio será transformar o crescimento econômico projetado em benefícios concretos para a população, garantindo que os tratamentos sejam utilizados com orientação profissional, segurança e critérios médicos adequados.
















