A nova composição do Senado Federal, prevista para assumir em fevereiro de 2027, já movimenta os bastidores da política nacional. Com o crescimento expressivo da bancada do Partido Liberal (PL), que deverá chegar a 28 dos 81 senadores, parlamentares de partidos de esquerda começam a organizar estratégias para enfrentar os desafios da próxima legislatura e garantir espaço para suas propostas.
O cenário exigirá capacidade de negociação não apenas do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas também dos senadores que integram a base governista e de outras legendas identificadas com pautas progressistas.
Em entrevistas ao g1, parlamentares eleitos e reeleitos do PT, PSB e PDT apresentaram diferentes caminhos para lidar com a nova correlação de forças. Entre as estratégias defendidas estão a construção de alianças em votações específicas, o diálogo com adversários políticos, a mobilização da sociedade e a atuação nas comissões e no plenário.
As senadoras eleitas Marília Arraes (PDT-PE), Samanda de Lula (PT-RN) e Marília Campos (PT-MG) destacam a necessidade de articulação política para defender direitos sociais e evitar mudanças que consideram prejudiciais à população. Já os senadores reeleitos Humberto Costa (PT-PE) e Cid Gomes (PSB-CE) avaliam que a presença ampliada da direita poderá intensificar disputas sobre temas econômicos, sociais e comportamentais.
PL terá maior bancada partidária desde a Constituição de 1988
O resultado das eleições de 2026 redesenhou a composição do Senado. O PL elegeu 19 parlamentares e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 integrantes, tornando-se a maior bancada partidária no começo de uma legislatura desde a promulgação da Constituição Federal de 1988.
O recorde anterior pertencia ao MDB, então chamado PMDB, que começou a legislatura de 1999 com 27 senadores. A eleição de 2026 também marcou a primeira vez, desde 1988, que uma única legenda elegeu 19 representantes em uma mesma disputa para o Senado.
O levantamento divulgado pela Agência Senado aponta que o PT deverá contar com nove integrantes, enquanto o MDB terá oito. As demais cadeiras estarão distribuídas entre partidos como União Brasil, PP, PSD, Republicanos, PSB, Novo, Podemos, PSDB, PDT e Rede, além de um parlamentar sem partido. <Cite refs={[“turn292326search0″,”turn292326search11”]}/>
Somados, PT, PSB, Rede e PDT deverão reunir 15 senadores. Embora representem uma parcela importante da Casa, esses partidos estarão diante de um grupo maior de parlamentares de outras orientações políticas, o que torna a negociação indispensável para a aprovação de projetos.
A composição, entretanto, ainda poderá sofrer alterações até fevereiro de 2027. Trocas partidárias, licenças e a possibilidade de senadores assumirem cargos no Poder Executivo podem modificar a distribuição das bancadas.
Humberto Costa prevê negociações mais difíceis
Eleito para seu terceiro mandato no Senado, Humberto Costa avalia que a relação entre governo e oposição poderá se tornar mais difícil com a chegada dos novos parlamentares.
Na avaliação do senador pernambucano, parte dos integrantes eleitos para a próxima legislatura apresenta um perfil mais radical e menos aberto ao diálogo. Apesar disso, ele acredita que o governo poderá construir maiorias em torno de determinadas propostas que já contam com articulações políticas.
Entre os assuntos citados por Costa está a proposta de fim da escala de trabalho 6×1, tema que deverá mobilizar diferentes setores do Congresso e da sociedade.
O parlamentar também considera que segurança pública e questões relacionadas aos chamados costumes estarão entre os principais assuntos da próxima legislatura.
Em relação à atuação da oposição, Humberto Costa afirmou que existem dificuldades para estabelecer negociações com parte dos parlamentares.
“Há diálogo com algumas pessoas, mas a grande maioria segue uma orientação única. Fazem questão de apresentar emendas. Uma bancada muito ativa em apresentar propostas que são maléficas para a população brasileira e fazem um tipo de oposição que é uma oposição sem muito diálogo”, declarou.
Samanda defende mobilização da sociedade
A senadora eleita pelo Rio Grande do Norte, Samanda de Lula (PT), considera que a nova composição exigirá organização e firmeza dos parlamentares que defendem as pautas do governo e os direitos sociais.
Para ela, a atuação da esquerda não poderá ficar restrita às negociações dentro do Congresso. Será necessário manter diálogo com a população, apresentar propostas e mobilizar diferentes setores da sociedade em torno de temas considerados prioritários.
Entre os assuntos que a parlamentar pretende acompanhar estão os direitos dos trabalhadores, a proteção das mulheres e das crianças, a democracia e as políticas destinadas às populações mais vulneráveis.
Samanda avalia que a construção de alianças será importante para impedir que propostas contrárias a essas pautas avancem sem debate.
“Para evitar retrocessos, será preciso combinar atuação parlamentar, articulação política e mobilização da sociedade”, afirmou.
A estratégia defendida pela senadora eleita envolve também a aproximação com parlamentares de outras legendas quando houver convergência em projetos específicos.
Marília Arraes aposta no diálogo além da esquerda
Eleita por Pernambuco pelo PDT, Marília Arraes também considera que o diálogo será uma ferramenta importante para a atuação no Senado a partir de 2027.
A parlamentar defende a construção de pontes com setores da sociedade que não se identificam necessariamente com a esquerda, mas que podem apoiar propostas relacionadas a problemas concretos da população.
Entre as prioridades mencionadas por ela estão segurança pública, geração de empregos, renda, saúde e ampliação de oportunidades.
“Precisamos conversar com quem pensa diferente, ouvir as insatisfações e mostrar como nossas propostas respondem aos problemas reais de segurança, emprego, renda, saúde e oportunidades”, declarou.
Marília também pretende colocar a defesa dos direitos das mulheres entre os principais temas de sua atuação parlamentar. Para ela, a presença feminina na política não significa, automaticamente, compromisso com políticas de igualdade e proteção.
“Ser mulher, por si só, não garante compromisso com os direitos das mulheres. Precisamos olhar para o que cada parlamentar defende, para os seus votos e para as consequências de suas propostas”, afirmou.
A senadora eleita pretende buscar apoio para iniciativas de enfrentamento à violência, fortalecimento da autonomia feminina e ampliação da independência econômica das mulheres.
Cid Gomes não vê motivo para pânico
Reeleito para um segundo mandato, Cid Gomes (PSB-CE) apresenta uma avaliação diferente sobre o crescimento da bancada do PL. Embora reconheça que o grupo terá mais força numérica, o senador afirma que os 28 integrantes previstos não serão suficientes para formar maioria no Senado.
Na avaliação dele, a Casa deverá reunir três grandes grupos: parlamentares alinhados à direita, representantes de posições progressistas e senadores que poderão apoiar o governo dependendo do tema em votação.
Cid considera que o crescimento da direita poderá ampliar a apresentação de propostas relacionadas às chamadas pautas de costumes, mas acredita que as divisões internas desse campo político também influenciarão as negociações.
O senador citou a disputa pela presidência do Senado como exemplo. A eleição está prevista para fevereiro de 2027, quando os parlamentares escolherão quem comandará a Casa pelos dois anos seguintes.
Na avaliação de Cid, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) poderá reunir apoio de diferentes partidos por meio de acordos políticos. Ele também mencionou os nomes de Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) como possíveis interessados na disputa.
Marília Campos aposta na experiência municipal
A senadora eleita por Minas Gerais, Marília Campos (PT), pretende utilizar sua experiência como prefeita de Contagem para construir alianças em torno de demandas municipais.
A parlamentar considera que a negociação com representantes de diferentes partidos será importante para viabilizar projetos e atender às necessidades dos municípios, independentemente das diferenças ideológicas.
Marília afirma que pretende manter firmeza na defesa dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, da proteção social e da democracia, mas ressalta que a construção de maiorias depende de relações políticas permanentes.
“Retrocesso se evita de dois jeitos. Um é firmeza em direito do trabalhador, das mulheres, na proteção social e na democracia. Não tem negociação. O outro é ter voto, e voto se constrói com relação. Quem conversa com os colegas o ano inteiro tem mais condição de virar uma votação na hora decisiva”, declarou.
Comissões e projetos também estarão no centro da atuação
Além dos discursos no plenário, as senadoras eleitas pretendem atuar nas comissões permanentes, apresentar projetos e participar de negociações que possam transformar propostas em medidas aprovadas.
Samanda de Lula afirma que pretende utilizar a tribuna para dialogar com a sociedade, mas também quer construir alianças em torno de iniciativas concretas.
Marília Campos destaca que a tramitação nas comissões, as relatorias e as conversas entre gabinetes são etapas fundamentais para influenciar o resultado das votações.
A estratégia também envolve acompanhar propostas relacionadas ao aborto. Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gestação em três situações: gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a gestante e casos de anencefalia fetal, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal.
Humberto Costa e Cid Gomes avaliam que a próxima legislatura poderá ter mais disputas sobre esse e outros temas relacionados aos costumes.
Nova legislatura terá negociações decisivas
A chegada de uma bancada de 28 senadores do PL representa uma mudança importante na distribuição de forças dentro do Senado. Entretanto, o número de integrantes de cada partido não determina, sozinho, o resultado das votações.
A aprovação de projetos depende da formação de maiorias, das negociações entre lideranças e da capacidade de cada grupo de construir acordos em torno de assuntos específicos.
Para os parlamentares de esquerda, o desafio será conciliar a defesa de suas pautas com a necessidade de dialogar com senadores de diferentes posições políticas.
A partir de fevereiro de 2027, as decisões tomadas no Senado poderão influenciar diretamente a agenda do governo federal, a legislação sobre direitos sociais e trabalhistas e os debates sobre segurança pública e costumes.
Enquanto a nova composição se aproxima, os partidos começam a preparar suas estratégias para uma legislatura que promete negociações intensas. O resultado dependerá não apenas do tamanho das bancadas, mas também da capacidade de articulação de cada senador e dos acordos que serão construídos ao longo dos próximos anos.















