Duas mulheres perderam a vida em circunstâncias violentas em Goiás durante o último fim de semana, em um intervalo inferior a 24 horas. Os casos, registrados nos municípios de Niquelândia e Aparecida de Goiânia, elevaram para 62 o número de feminicídios contabilizados no estado em 2026, conforme levantamento divulgado pela imprensa goiana. O total já supera os 60 registros atribuídos a todo o ano de 2025 nesse levantamento.

As vítimas foram identificadas como Cícera Abadia de Souza Botelho, de 38 anos, e Larissa Pereira Macêdo, de 32. As duas mortes estão sendo investigadas pela Polícia Civil, mas ocorreram em circunstâncias diferentes e exigem apurações específicas para esclarecer a dinâmica dos fatos e a responsabilidade dos suspeitos.

Além da violência que interrompeu a vida das duas mulheres, os episódios deixaram familiares e comunidades abalados. No caso de Larissa, a presença da filha de oito anos durante os acontecimentos tornou a situação ainda mais delicada e reforçou a preocupação com os impactos da violência doméstica sobre crianças e adolescentes.

Mulher é encontrada baleada em Niquelândia

O primeiro caso aconteceu na noite de sábado (31 de outubro), na zona rural de Niquelândia, no norte de Goiás. Cícera Abadia de Souza Botelho, de 38 anos, foi encontrada ferida por um disparo de arma de fogo dentro da residência onde vivia com o marido.

Segundo informações divulgadas por veículos locais, o companheiro teria afirmado inicialmente que o tiro aconteceu de maneira acidental. A vítima foi socorrida e encaminhada para atendimento médico, mas não resistiu aos ferimentos.

O homem teria acompanhado o deslocamento até o hospital, mas fugiu ao perceber que a Polícia Militar havia sido acionada. Uma espingarda foi apreendida no imóvel, e o material deverá contribuir para o trabalho de investigação.

O caso passou a ser tratado como suspeita de feminicídio, tendo o companheiro como principal suspeito. Até as informações divulgadas pelas fontes consultadas, ele não havia sido localizado.

A Polícia Civil trabalha para esclarecer as circunstâncias do disparo, verificar a dinâmica dos acontecimentos e reunir elementos que permitam esclarecer o que ocorreu dentro da residência. A versão de que o tiro teria sido acidental precisa ser confrontada com as provas periciais e os demais elementos da investigação.

Larissa morreu após ser atingida por caminhão em Aparecida de Goiânia

O segundo episódio ocorreu na noite de domingo (1º de novembro), no bairro Cidade Vera Cruz, em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital.

Larissa Pereira Macêdo, de 32 anos, morreu após ser atingida por um caminhão conduzido pelo companheiro, segundo relatos de testemunhas reproduzidos pela imprensa local. O episódio teria sido precedido por uma discussão entre o casal.

Conforme as informações iniciais, os dois haviam participado de uma confraternização. Depois do desentendimento, o homem teria entrado no caminhão. Testemunhas relataram que Larissa se aproximou da cabine e tentou impedir que ele deixasse o local. Na sequência, o veículo teria arrancado, e a mulher acabou atingida.

A vítima foi encontrada na Rua H-143, e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado. A equipe médica constatou a morte ainda no local.

Testemunhas também relataram que Larissa teria sido agredida antes do atropelamento. A filha da vítima, de oito anos, teria contado que a mãe sofreu agressões e foi encontrada por vizinhos em estado de desespero.

O companheiro deixou o local após o ocorrido e passou a ser procurado. A Polícia Civil, por meio da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), assumiu a investigação.

A corporação informou que solicitou perícias para esclarecer a dinâmica da morte e verificar as circunstâncias do episódio. Embora existam relatos que apontem para uma possível ação intencional, a investigação precisa reunir provas para estabelecer juridicamente o que aconteceu.

Investigações precisam esclarecer as circunstâncias

Os dois casos chamam a atenção pela proximidade temporal e pela suspeita de violência praticada por companheiros das vítimas. No entanto, é fundamental que as circunstâncias sejam apuradas individualmente, com respeito ao trabalho das autoridades e à presunção de inocência dos investigados.

Em Niquelândia, os investigadores apuram o disparo que atingiu Cícera e procuram esclarecer se houve intenção de matar. Em Aparecida de Goiânia, a DEAM reúne depoimentos, solicita exames periciais e busca reconstruir os momentos que antecederam o atropelamento de Larissa.

As investigações também deverão considerar os relatos de possíveis agressões anteriores. Informações desse tipo podem ajudar a identificar um contexto de violência doméstica, desde que sejam confirmadas por testemunhos, documentos e outros elementos de prova.

A classificação de um caso como feminicídio depende da apuração das circunstâncias e da identificação de elementos que indiquem que a morte ocorreu por razões da condição do sexo feminino, conforme a legislação brasileira.

Número de casos supera registros do ano anterior

Com os dois episódios, Goiás chegou a 62 feminicídios em 2026, segundo o levantamento divulgado em 2 de novembro. A quantidade ultrapassa os 60 casos atribuídos a todo o ano de 2025 na mesma contabilização.

O crescimento representa um alerta para a rede de proteção às mulheres e para os órgãos responsáveis pela prevenção e investigação da violência de gênero.

É importante observar que levantamentos podem apresentar diferenças conforme a fonte, o período de atualização e os critérios utilizados para classificar os crimes. Por isso, o número de 62 deve ser entendido como o total divulgado pelo levantamento que repercutiu os casos recentes, e não como uma estatística definitiva de encerramento do ano.

Mesmo com essa ressalva, a sequência de mortes evidencia a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção. A atuação integrada entre segurança pública, assistência social, saúde, Justiça e organizações da sociedade civil pode ajudar a identificar situações de risco antes que a violência chegue a consequências irreversíveis.

Violência doméstica também afeta crianças e familiares

A morte de Larissa chama atenção para uma dimensão frequentemente presente em casos de violência contra a mulher: o impacto sobre os filhos e demais familiares.

A filha de oito anos, segundo os relatos divulgados, estava nas proximidades e teria presenciado parte dos acontecimentos. Crianças expostas à violência doméstica podem desenvolver sofrimento emocional, medo e insegurança, mesmo quando não são o alvo direto das agressões.

Nessas situações, o acolhimento psicológico e a proteção da criança são medidas importantes. A prioridade deve ser garantir um ambiente seguro, preservar sua identidade e evitar a exposição desnecessária de detalhes que possam ampliar o sofrimento.

A violência contra mulheres não atinge apenas a vítima direta. Ela afeta famílias inteiras, interrompe vínculos, modifica rotinas e deixa consequências que podem acompanhar os sobreviventes por muitos anos.

Onde buscar ajuda em situações de violência

Mulheres que estejam sofrendo ameaças, agressões ou outras formas de violência podem procurar apoio por meio dos canais oficiais de atendimento.

O Ligue 180 é um serviço gratuito, disponível 24 horas por dia, que oferece orientação, acolhimento e encaminhamento de denúncias de violência contra a mulher. O atendimento também pode ser procurado por pessoas que conheçam alguém em situação de risco.

Em situações de emergência, quando a agressão está acontecendo ou existe perigo imediato, a orientação é ligar para a Polícia Militar pelo 190.

Também é possível procurar uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, quando disponível, ou uma unidade policial. Pedir ajuda não deve ser motivo de vergonha: a violência é responsabilidade de quem a pratica, e nenhuma mulher deve enfrentar sozinha uma situação de ameaça.

As mortes de Cícera Abadia de Souza Botelho e Larissa Pereira Macêdo deixam famílias em luto e reforçam a urgência de transformar números em ações concretas de prevenção. Enquanto as autoridades trabalham para esclarecer os dois casos, o desafio permanece: ampliar a proteção, reconhecer os sinais de violência e garantir que mulheres tenham acesso a ajuda antes que seja tarde.