Um simples exame de sangue pode, no futuro, ajudar médicos e pesquisadores a compreender como diferentes órgãos do corpo estão envelhecendo. A possibilidade foi apresentada em um novo estudo publicado nesta sexta-feira (14) na revista científica Nature Medicine, que utilizou inteligência artificial para analisar sinais de envelhecimento presentes em tecidos humanos.

A pesquisa analisou mais de 25 mil amostras de tecido de aproximadamente mil pessoas. A partir das imagens microscópicas dessas amostras, os cientistas desenvolveram modelos de inteligência artificial capazes de estimar a chamada idade biológica de diferentes órgãos e tecidos.

O resultado reforça uma ideia que vem ganhando espaço na ciência: o corpo humano não envelhece de maneira uniforme.

Enquanto determinados órgãos podem apresentar sinais de envelhecimento mais cedo, outros podem permanecer relativamente preservados por mais tempo. Essas diferenças podem estar relacionadas à genética, ao estilo de vida, a doenças crônicas e a outros fatores que acompanham cada pessoa ao longo da vida.

A descoberta pode abrir caminho para novas formas de acompanhar a saúde do organismo e identificar alterações antes que determinados problemas se tornem mais evidentes.

O que é idade biológica?

A idade que aparece na certidão de nascimento é chamada de idade cronológica. Ela simplesmente contabiliza o tempo desde o nascimento.

A idade biológica, por outro lado, tenta indicar o estado de envelhecimento do organismo.

Duas pessoas com a mesma idade cronológica podem apresentar condições biológicas diferentes. Uma pode ter tecidos com características semelhantes às observadas em pessoas mais jovens, enquanto outra pode apresentar sinais associados a um envelhecimento mais acelerado.

É justamente essa diferença que os pesquisadores tentaram medir.

Em vez de considerar o organismo como uma estrutura que envelhece de maneira uniforme, o estudo procurou identificar como cada tecido apresenta sua própria trajetória ao longo do tempo.

Inteligência artificial analisou imagens microscópicas

Para desenvolver os chamados “relógios teciduais”, os pesquisadores utilizaram imagens microscópicas de diferentes partes do corpo.

Entre os tecidos analisados estavam estruturas relacionadas ao cérebro, coração, pulmões, pele e outros órgãos.

Os sistemas de inteligência artificial foram treinados para reconhecer padrões nas imagens e relacioná-los à idade das pessoas das quais as amostras foram obtidas.

A ideia é semelhante a um relógio biológico: o modelo procura características presentes no tecido que indiquem em que estágio de envelhecimento aquele órgão se encontra.

Segundo os resultados apresentados na pesquisa, os modelos conseguiram estimar a idade dos tecidos com uma margem média de erro de aproximadamente cinco anos.

Embora esse nível de precisão ainda não seja suficiente para transformar a ferramenta em um exame médico de rotina, o resultado é considerado relevante para pesquisas sobre envelhecimento.

Cada órgão pode envelhecer em um ritmo diferente

Um dos principais achados do estudo foi justamente a diferença entre os órgãos.

Os pesquisadores observaram que alguns tecidos apresentaram sinais de envelhecimento relativamente cedo, enquanto outros seguiram trajetórias diferentes ao longo da vida.

Pulmões, rins, pâncreas e glândulas adrenais, por exemplo, apresentaram mudanças importantes entre os 20 e 40 anos.

Isso não significa necessariamente que uma pessoa esteja doente nessa faixa etária. O que os pesquisadores observaram foram alterações relacionadas ao processo biológico de envelhecimento dos tecidos.

Outro exemplo apareceu no útero. Nesse caso, uma mudança mais significativa na trajetória de envelhecimento foi observada em torno do período da menopausa.

Esses resultados ajudam a reforçar a compreensão de que o envelhecimento é um processo complexo e diferente para cada parte do organismo.

Doenças podem acelerar o envelhecimento de determinados órgãos

A pesquisa também encontrou associações entre determinadas doenças e sinais de envelhecimento acelerado em tecidos específicos.

O estudo observou, por exemplo, uma relação entre diabetes e alterações no tecido pancreático.

Problemas relacionados aos rins também apareceram associados a mudanças em diferentes tecidos do organismo.

Essas descobertas são importantes porque podem ajudar os cientistas a entender melhor a relação entre envelhecimento e doenças crônicas.

Ainda não significa, porém, que o exame seja capaz de diagnosticar sozinho uma doença ou determinar que determinado órgão esteja “mais velho” do que deveria.

São necessários estudos adicionais para estabelecer exatamente como essas informações poderiam ser utilizadas na prática médica.

A grande novidade: chegar ao sangue

A análise de tecidos oferece informações importantes, mas existe um problema evidente: não é simples retirar amostras de órgãos internos de uma pessoa apenas para avaliar seu envelhecimento.

Por esse motivo, os pesquisadores procuraram uma maneira menos invasiva de obter informações semelhantes.

A equipe relacionou os dados encontrados nas amostras de tecido com informações genéticas disponíveis a partir do sangue.

A partir dessa combinação, foi desenvolvido um modelo capaz de estimar a idade biológica de determinados órgãos utilizando informações obtidas por meio de exames sanguíneos.

Essa etapa representa uma das partes mais promissoras da pesquisa.

Um exame de sangue é muito mais simples de realizar do que uma coleta de tecido de órgãos internos. Caso a tecnologia seja validada em estudos futuros, ela poderá permitir que pesquisadores acompanhem mudanças no organismo de maneira mais prática.

Alzheimer e outras doenças aparecem na análise

Os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores também identificaram padrões associados a diferentes doenças.

Entre as condições relacionadas às alterações observadas estavam Alzheimer, doença de Crohn, fibrose cística e acidente vascular cerebral (AVC).

Essas associações não significam que o exame de sangue seja atualmente capaz de diagnosticar essas doenças.

O resultado mostra, principalmente, que determinadas doenças podem deixar marcas biológicas nos tecidos e que essas marcas podem ser identificadas por modelos computacionais.

Essa possibilidade pode ser importante para futuras pesquisas sobre prevenção, diagnóstico e acompanhamento de doenças.

Um novo olhar sobre o envelhecimento

O estudo também contribui para mudar a maneira como a ciência observa o envelhecimento humano.

Durante muito tempo, a idade foi considerada principalmente como uma medida geral do organismo. Entretanto, pesquisas recentes mostram que o processo pode ser muito mais individualizado.

Uma pessoa pode apresentar um envelhecimento mais acelerado em determinado órgão enquanto outros permanecem relativamente preservados.

Essa diferença pode ser influenciada por fatores genéticos, alimentação, atividade física, exposição ambiental, consumo de álcool e tabaco, qualidade do sono, doenças e outros aspectos da vida cotidiana.

Compreender essas diferenças pode ajudar a explicar por que algumas pessoas desenvolvem determinadas doenças enquanto outras, com idade semelhante, permanecem saudáveis por mais tempo.

Tecnologia ainda não está pronta para consultas médicas

Apesar dos resultados promissores, é importante destacar que a ferramenta ainda não é um exame clínico disponível para a população.

A pesquisa está em uma etapa científica e precisa ser complementada por novos estudos antes de qualquer aplicação ampla.

É necessário verificar, por exemplo, se os modelos mantêm a mesma precisão em diferentes grupos populacionais e se as estimativas podem ser utilizadas de maneira confiável para orientar decisões médicas.

Também será necessário determinar como os resultados seriam interpretados por médicos e quais seriam os limites para evitar diagnósticos ou tratamentos baseados exclusivamente em uma estimativa de idade biológica.

Possível avanço para a medicina preventiva

Se os resultados forem confirmados em pesquisas futuras, a tecnologia poderá contribuir para uma medicina cada vez mais preventiva e personalizada.

Em vez de esperar que uma doença provoque sintomas importantes, os médicos poderiam, no futuro, acompanhar determinadas alterações biológicas e identificar sinais de risco mais cedo.

Um exame de sangue capaz de fornecer informações sobre o estado de diferentes órgãos poderia ser utilizado como uma ferramenta complementar para monitorar pacientes e acompanhar a evolução de determinadas doenças.

Ainda assim, esse cenário depende de avanços científicos e de validação clínica.

O que o estudo representa

A pesquisa publicada na Nature Medicine apresenta uma possibilidade que pode transformar a maneira como o envelhecimento é estudado.

Ao combinar imagens microscópicas, inteligência artificial, informações genéticas e exames de sangue, os pesquisadores conseguiram criar modelos capazes de estimar a idade biológica de diferentes tecidos.

O estudo mostra que o envelhecimento não acontece da mesma maneira em todo o corpo e que doenças podem estar associadas a alterações específicas em determinados órgãos.

Para o pesquisador Yimin Zheng, um dos autores do trabalho, os resultados reforçam justamente essa diversidade.

“Diferentes órgãos envelhecem de maneiras distintas, e esses processos parecem ser moldados por vários fatores”, afirmou.

Por enquanto, a descoberta permanece no campo da pesquisa científica. Mas, caso os próximos estudos confirmem sua eficácia e segurança, um exame de sangue poderá, no futuro, oferecer aos médicos uma nova janela para observar como o corpo humano envelhece — órgão por órgão, de maneira mais precisa e menos invasiva.