Tríplice viral é segura? A discussão sobre a segurança das vacinas voltou a ganhar espaço no cenário internacional após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar uma ordem executiva relacionada ao calendário de imunização de crianças. Entre as mudanças defendidas pelo governo norte-americano está a recomendação de não utilizar a vacina tríplice viral combinada contra sarampo, caxumba e rubéola, sob o argumento de que o imunizante poderia representar riscos à saúde.

A afirmação, no entanto, é contestada por especialistas e entidades médicas. No Brasil, representantes da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) afirmam que não há evidências científicas confiáveis de que a vacina tríplice viral aumente o risco de morte.

O infectologista Juarez Cunha, diretor da SBIm, destaca que a vacina combinada é utilizada há décadas em diferentes países e faz parte de estratégias de imunização responsáveis por reduzir drasticamente a circulação de doenças que, antes da vacinação em massa, provocavam milhares de casos graves e mortes.

“Todos os países desenvolvidos aplicam a vacina combinada. Que eu saiba, não existe estudo que aponte um aumento no risco de morte entre os pacientes. O óbito não é um efeito adverso esperado”, afirma o médico.

A tríplice viral foi desenvolvida na década de 1970 e passou a ser utilizada no Brasil a partir da década de 1990. Desde então, tornou-se uma das principais ferramentas para a prevenção do sarampo, da caxumba e da rubéola.

Suposto estudo sobre mortes é contestado

A circulação de informações falsas ou distorcidas nas redes sociais também contribuiu para aumentar as dúvidas de parte da população sobre a segurança do imunizante.

Segundo o infectologista Klinger Faíco, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), circula desde o início do ano um suposto estudo que afirma que a vacina tríplice viral provocaria “milhares de vezes mais mortes” do que o próprio sarampo.

Para o especialista, a conclusão apresentada nesse material parte de um erro metodológico importante.

“Esse número é falso e nasce de um erro de método bem conhecido”, explica Faíco.

O médico afirma que a análise utiliza informações do VAERS, sistema norte-americano criado para receber notificações de eventos de saúde ocorridos depois da aplicação de vacinas.

O ponto central, segundo ele, é que uma notificação registrada no sistema não significa que a vacina tenha provocado o problema relatado. Os registros precisam ser investigados e analisados juntamente com outros dados científicos antes que seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito.

“Esses registros não são verificados, não comprovam que a vacina causou o problema e não têm base populacional para cálculo”, afirma.

Faíco resume a diferença de forma direta: comparar notificações não verificadas com mortes confirmadas provocadas por uma doença seria como colocar relatos sem comprovação ao lado de diagnósticos estabelecidos.

A explicação é importante porque, em estudos de segurança de vacinas, pesquisadores precisam considerar o número de pessoas vacinadas, a frequência esperada de determinados eventos na população, condições prévias de saúde e outros fatores que podem interferir nos resultados.

Evidências científicas apontam segurança

Entre as análises consideradas mais robustas sobre a segurança da tríplice viral está uma revisão sistemática da Cochrane publicada em 2020. O trabalho reuniu dados de 138 estudos e informações envolvendo mais de 23 mil crianças.

De acordo com os resultados apresentados, não foi encontrada associação entre a vacina e problemas como autismo, asma, diabetes ou outros danos graves à saúde avaliados na revisão.

A vacina tríplice viral utiliza vírus vivos atenuados para estimular o sistema imunológico a produzir proteção contra três doenças: sarampo, caxumba e rubéola.

Como ocorre com outros imunizantes, algumas pessoas podem apresentar reações após a aplicação. Entre as manifestações mais conhecidas estão febre, mal-estar e pequenas manchas na pele.

Segundo informações do Ministério da Saúde, essas reações costumam ser leves e desaparecem espontaneamente. Reações graves são consideradas extremamente raras.

A existência de possíveis efeitos adversos, portanto, não significa que uma vacina seja considerada insegura. Medicamentos e imunizantes são avaliados justamente considerando seus benefícios, riscos e a frequência de eventos adversos.

Vacinação mudou a história do sarampo

Para especialistas, a importância da tríplice viral pode ser compreendida também pelos resultados alcançados ao longo das últimas décadas.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa e pode provocar complicações graves, principalmente em crianças pequenas. Entre elas estão pneumonia, inflamação do cérebro e, em casos extremos, morte.

A vacinação em larga escala alterou significativamente esse cenário.

Juarez Cunha destaca que a vacinação contribuiu para que o Brasil alcançasse períodos de eliminação da circulação sustentada do sarampo. Também houve uma forte redução da rubéola e das consequências relacionadas à doença durante a gestação.

“É um imunizante seguro e eficaz”, afirma o diretor da SBIm.

A proteção coletiva, porém, depende da manutenção de altas coberturas vacinais. Quando muitas pessoas deixam de se vacinar, doenças que estavam sob controle podem voltar a circular.

Quem deve receber a vacina?

No calendário de vacinação brasileiro, a primeira dose da tríplice viral é indicada normalmente aos 12 meses de idade. A segunda dose é administrada posteriormente, de acordo com as orientações do calendário vigente, podendo estar associada à proteção contra a varicela.

Crianças maiores, adolescentes e adultos que não tenham sido vacinados adequadamente também podem precisar completar o esquema, conforme a idade e o histórico de vacinação.

Para adultos de 30 a 59 anos que não possuem registro de vacinação, a recomendação geral é de uma dose. Pessoas de outras faixas etárias podem ter indicação de duas doses, dependendo do histórico vacinal.

Existem, entretanto, situações em que a vacina não deve ser administrada. Gestantes, pessoas com determinadas condições de imunossupressão, indivíduos que apresentaram reação alérgica grave a componentes do imunizante e crianças menores de seis meses estão entre os grupos que precisam de avaliação específica ou não devem receber a vacina.

Por isso, a orientação é que a população mantenha a carteira de vacinação atualizada e procure profissionais de saúde quando houver dúvida sobre doses ou contraindicações.

Por que a vacina combinada é importante?

A proposta de dividir a tríplice viral em três vacinas diferentes também é questionada por especialistas.

Além de não haver evidências apresentadas de que separar os componentes aumentaria a segurança, a mudança poderia criar uma dificuldade prática: em vez de uma aplicação, os responsáveis teriam de levar as crianças para receber diferentes imunizantes separadamente.

Isso pode representar mais consultas, mais deslocamentos e maior possibilidade de uma das doses não ser aplicada.

A experiência internacional é frequentemente citada nesse debate. No Japão, durante a década de 1990, houve uma mudança no modelo de vacinação que acabou contribuindo para uma redução da adesão à vacina contra rubéola. O país posteriormente enfrentou problemas relacionados à circulação da doença.

O episódio é usado por especialistas como exemplo de que alterações no calendário de vacinação podem produzir consequências inesperadas quando reduzem a facilidade de acesso e a adesão da população.

Informação correta é parte da proteção

A discussão sobre vacinas não envolve apenas números e estudos científicos. Para muitas famílias, decisões relacionadas à imunização são acompanhadas de medo, dúvidas e preocupação com possíveis efeitos adversos.

Por isso, especialistas defendem que informações sobre segurança devem ser baseadas em pesquisas de qualidade e em avaliações feitas por autoridades sanitárias e instituições científicas.

A presença de um evento de saúde depois da vacinação, por exemplo, não significa automaticamente que o imunizante tenha causado aquele problema. É necessário investigar a relação temporal, a frequência do evento, os fatores de risco e os resultados encontrados em estudos com grandes grupos de pessoas.

No caso da tríplice viral, décadas de utilização e uma ampla quantidade de pesquisas formam a base das recomendações atuais.

A principal mensagem dos especialistas é que a vacinação continua sendo uma das ferramentas mais importantes para prevenir doenças infecciosas e suas complicações.

Ao mesmo tempo, dúvidas e preocupações da população devem ser tratadas com seriedade, transparência e informação científica, sem transformar relatos isolados ou interpretações equivocadas em conclusões definitivas.

Em um cenário de circulação rápida de informações nas redes sociais, distinguir uma evidência científica de uma afirmação sem comprovação tornou-se ainda mais importante.

No caso da tríplice viral, entidades médicas brasileiras afirmam que não existe evidência científica de que o imunizante, quando utilizado conforme as recomendações, provoque aumento do risco de morte. Para os especialistas, manter a vacinação em dia significa não apenas proteger cada indivíduo, mas também ajudar a impedir que doenças graves voltem a encontrar espaço para circular na população.