O ex-ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, provocou uma nova discussão no cenário político do país ao defender, nesta terça-feira (18), a realização de eleições presidenciais mesmo enquanto a guerra contra a Rússia continua. A declaração representa um movimento de grande repercussão dentro da política ucraniana, já que o país permanece sob lei marcial desde o início da invasão russa, em 2022.

Em um vídeo publicado no YouTube, Fedorov afirmou que a Ucrânia enfrenta uma “crise sistêmica de governança” e pediu a criação de mecanismos que permitam retomar o processo eleitoral de maneira legal e segura. Atualmente, a legislação ucraniana impede a realização de eleições durante períodos de lei marcial.

“A democracia não pode ser mantida como refém da Rússia. Precisamos encontrar um mecanismo legal, seguro e realista que permita à Ucrânia renovar plenamente seu processo democrático mesmo nas condições de uma guerra prolongada”, declarou.

A manifestação chama atenção por partir de uma figura que, até recentemente, era considerada próxima do presidente Volodymyr Zelensky. A proposta também abre um novo capítulo no debate sobre o futuro político da Ucrânia em meio a um conflito que já dura anos e continua provocando perdas humanas, deslocamentos e profundas transformações na sociedade.

Uma declaração que amplia a tensão política

A defesa pública de eleições durante a guerra ocorre em um momento delicado para o governo ucraniano. Desde o início da invasão russa, a prioridade das autoridades tem sido manter a estrutura do Estado funcionando, garantir a defesa territorial e preservar a capacidade de resistência diante das forças de Moscou.

Nesse contexto, a realização de uma eleição nacional envolve desafios que vão além da questão jurídica. Milhões de ucranianos foram deslocados de suas cidades, enquanto outras regiões permanecem próximas das áreas de combate ou sob ameaça de ataques.

Para Fedorov, porém, o conflito não deveria impedir indefinidamente a renovação democrática.

O ex-ministro afirmou que é necessário encontrar uma solução que leve em consideração as condições extraordinárias enfrentadas pelo país, mas que também permita à população participar novamente de um processo eleitoral.

A declaração pode aumentar a pressão sobre Zelensky, que tem sido uma das principais figuras da resistência ucraniana desde o início da invasão.

De aliado a crítico do governo

A trajetória recente de Fedorov ajuda a explicar a dimensão política de suas declarações.

Aos 35 anos, ele era visto como um dos principais aliados de Zelensky. Antes de assumir o Ministério da Defesa, ganhou destaque nacional como ministro da Transformação Digital, posição que ocupou durante seis anos.

Durante esse período, tornou-se conhecido pela implementação de projetos de digitalização dos serviços públicos e pela defesa do uso de tecnologia como ferramenta de modernização do Estado.

Em janeiro, Fedorov assumiu o Ministério da Defesa com a promessa de promover mudanças profundas na estrutura da pasta. Entre suas prioridades estavam a utilização de dados, tecnologia e sistemas modernos para aumentar a eficiência das forças ucranianas.

O ex-ministro também defendia o uso cada vez maior de drones e de tecnologias militares desenvolvidas dentro do próprio país.

Sua permanência no cargo, porém, foi curta. Em julho, apenas seis meses depois de assumir a Defesa, Fedorov foi demitido.

A saída provocou repercussão política e foi seguida por críticas públicas do ex-ministro ao então comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.

Divergências sobre a condução da guerra

Após deixar o governo, Fedorov passou a questionar abertamente determinados aspectos da condução da guerra.

As críticas contribuíram para manifestações em diferentes cidades ucranianas. Parte dos manifestantes chegou a pedir a saída de Syrskyi e o retorno de Fedorov ao Ministério da Defesa.

Zelensky afirmou, na ocasião, que a decisão de retirar Fedorov do cargo estava relacionada à dificuldade de trabalhar em conjunto com o comando militar.

Posteriormente, Syrskyi também deixou a posição em meio à pressão política.

O episódio ajudou a expor divergências dentro da estrutura de poder ucraniana em um momento no qual a unidade política é considerada fundamental para a continuidade do esforço de guerra.

Agora, ao defender eleições, Fedorov volta a ocupar espaço no debate nacional.

Críticas à corrupção e ao funcionamento do Estado

Durante o pronunciamento desta terça-feira, o ex-ministro também criticou o funcionamento do sistema político ucraniano.

Sem citar nomes específicos, Fedorov afirmou que estruturas antigas resistem às mudanças e que determinados setores do Estado acabam protegendo seus próprios interesses.

“O velho sistema muitas vezes vive por suas próprias regras. Ele protege a si mesmo. Tem medo da mudança”, afirmou.

O ex-ministro também mencionou a corrupção entre autoridades públicas e disse que o problema prejudica os esforços do país durante a guerra.

A questão ganhou importância especial durante sua passagem pelo Ministério da Defesa, principalmente por causa dos contratos bilionários destinados à aquisição de equipamentos e outros recursos necessários para as forças ucranianas.

Fedorov chegou a sugerir que sua tentativa de reformular processos de compras e aumentar a eficiência administrativa teria contribuído para sua saída do governo.

Possível adversário de Zelensky

Embora não tenha anunciado oficialmente uma candidatura presidencial, Fedorov já aparece nas discussões sobre possíveis nomes que poderiam disputar uma futura eleição.

Uma pesquisa recente mencionada pela agência Reuters indicaria que o ex-ministro teria desempenho competitivo diante de Zelensky em um eventual segundo turno.

Os números, contudo, não significam que uma eleição esteja definida ou sequer que Fedorov tenha decidido concorrer.

O cenário político ucraniano pode sofrer mudanças significativas até que uma votação seja juridicamente possível. Além disso, as condições de segurança, a situação militar e as regras eleitorais deverão ter papel central em qualquer eventual processo.

Por isso, a declaração do ex-ministro deve ser entendida, neste momento, principalmente como uma manifestação política em favor da retomada do processo democrático.

Tecnologia como marca de sua trajetória

A ascensão de Fedorov dentro do governo ucraniano esteve diretamente relacionada à tecnologia.

Como ministro da Transformação Digital, ele ajudou a ampliar os serviços públicos digitais e ficou conhecido como um dos principais responsáveis pela modernização tecnológica do Estado.

No setor de defesa, levou essa mesma visão para o campo militar.

Fedorov defendia que a Ucrânia deveria utilizar inovação, inteligência de dados e drones para compensar limitações diante de um adversário militarmente maior.

A estratégia também refletia uma característica marcante da guerra entre Rússia e Ucrânia: a crescente importância da tecnologia no campo de batalha.

Drones de diferentes tipos passaram a ser utilizados tanto para reconhecimento quanto para ataques, enquanto sistemas digitais se tornaram fundamentais para comunicação, inteligência e planejamento militar.

Debate sobre o futuro da Ucrânia

A defesa de eleições durante a guerra coloca novamente no centro da discussão uma pergunta difícil: como preservar as instituições democráticas enquanto o país enfrenta um conflito prolongado?

A Ucrânia precisa conciliar a segurança nacional com o funcionamento de suas instituições políticas. Ao mesmo tempo, qualquer processo eleitoral teria de garantir condições mínimas para a participação de milhões de cidadãos afetados diretamente pela guerra.

O desafio envolve pessoas que permanecem em áreas de conflito, cidadãos que deixaram o país e aqueles que vivem em regiões ocupadas pela Rússia.

A segurança dos locais de votação também seria uma questão central.

Por enquanto, a legislação continua impedindo a realização de eleições durante a vigência da lei marcial. Portanto, qualquer mudança exigiria uma decisão política e jurídica capaz de estabelecer novas regras para o processo.

Novo capítulo na política ucraniana

A declaração de Mykhailo Fedorov acrescenta mais um elemento ao complexo cenário político da Ucrânia.

De antigo aliado de Zelensky a crítico do governo, o ex-ministro passou a defender mudanças na estrutura do Estado e agora pede que o país encontre uma forma de retomar as eleições mesmo diante da guerra.

Enquanto isso, Zelensky continua à frente do país em um dos períodos mais difíceis de sua história recente.

O debate sobre eleições, porém, deverá ganhar força à medida que a guerra se prolonga. Para a sociedade ucraniana, a discussão não envolve apenas nomes ou possíveis candidaturas, mas também o futuro das instituições, a representação política e a capacidade de o país preservar sua democracia em meio a um conflito que ainda não terminou.

A posição de Fedorov, portanto, abre uma nova frente de debate interno. Resta saber se a proposta encontrará apoio suficiente para avançar e, principalmente, em que condições uma eventual eleição poderia ser realizada com segurança, participação ampla e legitimidade.