Fundador da Evergrande, Hui Ka Yan foi condenado à prisão perpétua na China nesta quinta-feira (20), após ser considerado culpado por crimes financeiros relacionados ao colapso da gigante imobiliária. A Justiça chinesa também determinou o confisco de seus bens pessoais.

Conhecido também pelo nome mandarim Xu Jiayin, o empresário chegou a ser um dos homens mais ricos da Ásia e construiu um dos maiores impérios imobiliários da China. Agora, aos 67 anos, vê sua trajetória empresarial terminar com uma das punições mais severas previstas pela Justiça chinesa.

A sentença foi anunciada pelo Tribunal Intermediário de Shenzhen, no sul da China, cinco anos depois de a Evergrande entrar em colapso financeiro e deixar um passivo superior a US$ 300 bilhões, equivalente a cerca de R$ 1,5 trilhão na conversão mencionada no caso.

O julgamento não envolve apenas a queda de uma empresa. A crise da Evergrande se tornou um dos principais símbolos dos problemas enfrentados pelo mercado imobiliário chinês, setor que durante décadas esteve entre os grandes motores da economia do país.

Empresário se declarou culpado

Antes da sentença, Hui Ka Yan havia se declarado culpado, em abril, de oito acusações relacionadas a crimes financeiros. Entre elas estavam desvio ou uso indevido de recursos, fraude em captação de recursos, captação ilegal de depósitos públicos, concessão irregular de empréstimos, fraude na emissão de valores mobiliários e suborno.

Segundo informações divulgadas sobre o julgamento, as autoridades chinesas entenderam que houve uma série de irregularidades praticadas durante o período de expansão da Evergrande.

A decisão judicial apontou que, entre 2016 e 2021, a companhia e seus responsáveis teriam inflado ativos, ocultado passivos e utilizado mecanismos considerados ilegais para obter recursos.

O tribunal classificou as condutas como graves e afirmou que elas causaram danos significativos à ordem econômica e aos direitos patrimoniais de pessoas e empresas.

A condenação encerra, de maneira definitiva, a imagem construída durante anos por Hui como símbolo de sucesso empresarial.

Da pobreza ao topo da riqueza

A trajetória de Hui Ka Yan ajuda a explicar por que a queda da Evergrande chamou tanta atenção.

Originário de uma família humilde na província de Henan, o empresário começou a carreira como técnico em uma siderúrgica. Em 1996, fundou a Evergrande, que inicialmente atuava no mercado imobiliário de Guangzhou.

A empresa cresceu rapidamente acompanhando o boom da construção civil chinesa.

Durante anos, a Evergrande expandiu seus negócios para diferentes áreas e passou a atuar não apenas na construção de imóveis, mas também em setores como turismo, veículos elétricos, saúde, entretenimento e serviços financeiros.

O crescimento transformou Hui em um dos homens mais ricos do mundo. Em determinado momento, sua fortuna chegou a ser estimada em dezenas de bilhões de dólares.

A expansão, porém, foi construída com elevado nível de endividamento.

E foi justamente essa dependência de crédito que acabou se transformando em um dos maiores problemas da companhia.

O início da crise

A situação da Evergrande começou a se deteriorar quando as autoridades chinesas passaram a adotar medidas para conter o excesso de endividamento do setor imobiliário.

A estratégia do governo buscava reduzir riscos financeiros e limitar o crescimento baseado em empréstimos.

Para uma empresa como a Evergrande, altamente dependente de financiamento para manter seus projetos, a mudança representou um choque.

Com menos acesso ao crédito, a companhia passou a enfrentar dificuldades para pagar fornecedores, concluir empreendimentos e honrar suas obrigações financeiras.

Em 2021, a empresa entrou em inadimplência em grande parte de suas dívidas.

O episódio provocou forte repercussão nos mercados internacionais e aumentou o temor de que a crise imobiliária pudesse atingir outras empresas e setores da economia chinesa.

Uma dívida de mais de US$ 300 bilhões

A dimensão do problema impressiona.

A Evergrande acumulou mais de US$ 300 bilhões em passivos, tornando-se uma das empresas mais endividadas do mundo.

A dívida envolvia bancos, investidores, fornecedores, compradores de imóveis e credores de diferentes países.

Para muitas famílias chinesas, a crise teve um significado ainda mais concreto. Pessoas que haviam comprado apartamentos de empreendimentos da Evergrande passaram a enfrentar incertezas sobre a conclusão das obras.

O colapso da companhia deixou, portanto, consequências muito além dos números registrados nos balanços financeiros.

Havia trabalhadores, famílias, investidores e empresas que dependiam da continuidade dos projetos.

Justiça também puniu a Evergrande

A condenação de Hui não foi a única decisão anunciada pelo tribunal.

A própria Evergrande foi multada em 8,82 bilhões de yuans, valor equivalente a cerca de US$ 1,31 bilhão. A principal subsidiária imobiliária do grupo, a Hengda Real Estate, recebeu uma multa de 7 bilhões de yuans.

Somadas, as duas multas chegam a 15,82 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 2,35 bilhões.

Além disso, outros cinco executivos de alto escalão foram condenados a penas de prisão que variam de seis a 18 anos, além de multas.

A decisão faz parte de uma ampla responsabilização de pessoas envolvidas na administração da companhia.

Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, um total de 56 pessoas foi condenado em processos relacionados ao colapso da empresa.

O que acontece com os credores?

Apesar da condenação, a decisão judicial não significa que os problemas financeiros da Evergrande estejam resolvidos.

Credores chineses e estrangeiros ainda enfrentam dificuldades para recuperar os valores que lhes são devidos.

A empresa entrou em processo de liquidação após uma decisão de um tribunal de Hong Kong, e a recuperação dos ativos continua sendo um processo complexo.

Grande parte do patrimônio da companhia perdeu valor durante a crise, enquanto muitos ativos estão vinculados a projetos imobiliários, dívidas e disputas judiciais.

Por isso, mesmo uma sentença histórica contra o fundador não garante que investidores e credores receberão integralmente o dinheiro perdido.

Uma crise que ultrapassou a empresa

A história da Evergrande se tornou um exemplo dos riscos de um modelo econômico excessivamente dependente do mercado imobiliário.

Durante décadas, o setor de construção foi responsável por movimentar grandes volumes de dinheiro na China, gerando empregos e estimulando diferentes segmentos da economia.

O crescimento acelerado também incentivou incorporadoras a assumir dívidas cada vez maiores para financiar novos projetos.

Quando o crédito ficou mais restrito e as vendas começaram a desacelerar, muitas empresas passaram a enfrentar dificuldades.

A crise da Evergrande foi a mais emblemática, mas não foi isolada.

Outras incorporadoras também enfrentaram problemas financeiros, afetando consumidores, bancos e investidores.

Impacto sobre a economia chinesa

O setor imobiliário possui enorme importância para a economia chinesa. Por isso, a queda da Evergrande teve efeitos que ultrapassaram os limites da própria empresa.

A crise afetou a confiança dos consumidores, pressionou o mercado imobiliário e aumentou as preocupações sobre o sistema financeiro.

Para o governo chinês, controlar os efeitos da crise se tornou uma tarefa delicada.

Ao mesmo tempo em que precisava evitar uma reação em cadeia no sistema financeiro, Pequim também buscava impedir que empresas altamente endividadas continuassem acumulando riscos.

O caso Evergrande passou a representar justamente esse dilema.

O fim de uma era

A imagem de Hui Ka Yan mudou completamente em poucos anos.

O homem que chegou ao topo da riqueza asiática e se tornou símbolo da expansão do setor imobiliário chinês agora está condenado à prisão perpétua.

Sua trajetória passou da ascensão meteórica à queda financeira e, finalmente, à condenação criminal.

A história também serve como um retrato de como grandes impérios empresariais podem ser vulneráveis quando dependem excessivamente de dívida e crescimento acelerado.

Para milhões de pessoas que acompanharam a crise da Evergrande, porém, a questão vai muito além da história pessoal de seu fundador.

Existem famílias que aguardam imóveis, investidores que tentam recuperar recursos e empresas que ainda sentem os efeitos da crise.

Uma sentença que não apaga as consequências

A prisão perpétua de Hui Ka Yan representa um marco na resposta das autoridades chinesas ao colapso da Evergrande. O confisco de seus bens e as multas bilionárias impostas às empresas mostram a dimensão atribuída pela Justiça às irregularidades investigadas.

Mas a sentença também deixa uma pergunta difícil: como reparar os danos causados pelo colapso de uma companhia que acumulou mais de US$ 300 bilhões em passivos?

A resposta não virá apenas dos tribunais.

Será necessário administrar ativos, concluir ou resolver projetos imobiliários, negociar com credores e lidar com os efeitos de uma crise que atingiu uma parcela importante da economia chinesa.

A queda de Hui Ka Yan, portanto, não representa necessariamente o fim da história da Evergrande. É, antes, um dos capítulos finais de uma trajetória empresarial que começou com grandes ambições, alcançou o topo da riqueza e terminou no centro de uma das maiores crises corporativas da história recente da China.

Para o mundo dos negócios, fica uma lição que ultrapassa fronteiras: crescimento rápido e acesso abundante ao crédito podem construir impérios, mas também podem ampliar enormemente o tamanho da queda quando a confiança desaparece.