Um dos homens envolvidos na morte de Douglas Pagliuca, em Santos, no litoral de São Paulo, prestou depoimento à Polícia Civil nesta quarta-feira (26). Ele afirmou que tentou apenas conter a vítima durante um episódio de surto psicótico e negou ter praticado agressões. Segundo o depoimento, ele teria descoberto que Douglas havia morrido somente depois, ao assistir a vídeos publicados nas redes sociais.

O caso aconteceu no dia 30 de julho, no bairro Embaré, e passou a ser investigado como homicídio depois que imagens de câmeras de segurança e exames periciais ajudaram a esclarecer a dinâmica da ocorrência. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) apontou asfixia mecânica como causa da morte.

A investigação ainda está em andamento e busca determinar a responsabilidade de cada uma das pessoas que participaram da imobilização. O depoimento prestado nesta quarta-feira é considerado mais uma peça para reconstruir os últimos momentos de Douglas e entender exatamente como ocorreu a contenção.

Vítima teve surto após descobrir morte do pai

De acordo com as informações reunidas pela investigação, Douglas Pagliuca sofreu uma crise após receber a notícia da morte do pai. Em meio ao episódio, ele apresentou comportamento descontrolado e chegou a atingir e danificar dois veículos que estavam estacionados na rua Pedro Ivo.

As circunstâncias chamaram a atenção de pessoas que estavam próximas. Entre elas estava o homem que prestou depoimento à Polícia Civil. Segundo sua versão, ele decidiu intervir diante da situação e contou com a ajuda de outras pessoas para tentar impedir que Douglas continuasse se machucando ou causando danos.

O homem reconheceu que segurou os braços da vítima durante a imobilização. No entanto, negou ter desferido golpes ou praticado qualquer agressão contra Douglas.

Ele também declarou que não sabe dizer se algum dos outros envolvidos aplicou um golpe de estrangulamento ou exerceu pressão sobre o pescoço da vítima.

A versão apresentada agora será confrontada com as imagens de câmeras de segurança, os demais depoimentos e os laudos produzidos pela perícia.

Homem afirma que descobriu morte pelas redes sociais

Durante o depoimento, o suspeito contou que somente tomou conhecimento da morte de Douglas depois de ver vídeos do episódio divulgados nas redes sociais.

Ao assistir às gravações, ele teria se reconhecido entre as pessoas que aparecem tentando conter a vítima. A partir daí, decidiu procurar orientação jurídica e compareceu espontaneamente à delegacia para prestar esclarecimentos.

A iniciativa ocorre em um momento em que a investigação ganhou novos contornos justamente por causa das imagens registradas por câmeras instaladas na região.

Inicialmente, o caso era tratado pelas autoridades como uma morte suspeita. Com o avanço das diligências, entretanto, as imagens e o resultado do exame cadavérico indicaram uma dinâmica diferente daquela inicialmente considerada.

Câmeras foram fundamentais para investigação

As imagens de segurança tiveram papel decisivo na mudança do rumo da investigação.

Os registros mostram Douglas caminhando pela rua e, em determinado momento, atingindo o para-brisa de um carro de entregas que estava estacionado. O motorista que estava dentro do veículo saiu e houve um princípio de discussão.

Pouco depois, um segundo veículo também foi atingido.

As gravações mostram que Douglas apresentava sinais de intenso descontrole. Em determinado momento, ele coloca as mãos sobre a cabeça e cai de joelhos no chão. Na sequência, derruba um vaso de plantas e também bate contra o portão de um imóvel.

É nesse momento que três homens aparecem tentando contê-lo.

Um dos envolvidos seria justamente o motorista do veículo atingido por Douglas. As imagens mostram os homens utilizando força física para imobilizar a vítima.

Segundo a Polícia Civil, um dos envolvidos teria aplicado um golpe conhecido popularmente como “mata-leão”, com pressão na região do pescoço.

A análise das imagens passou a ser considerada essencial para compreender o que aconteceu durante os minutos que antecederam a morte.

Laudo apontou asfixia mecânica

O resultado do exame realizado pelo Instituto Médico-Legal de Santos foi determinante para a mudança na classificação do caso.

O laudo apontou que Douglas morreu em decorrência de asfixia mecânica, e não por traumatismos provocados pelas quedas ou pelos impactos registrados nas imagens.

Com o resultado, a Polícia Civil passou a trabalhar com a hipótese de homicídio.

O delegado Wagner Camargo, responsável pelo caso, afirmou que os três homens que aparecem nas gravações poderão ser indiciados. A conclusão, entretanto, depende do encerramento das diligências e da análise conjunta de todas as provas.

A autoridade policial destacou que a investigação busca estabelecer a participação individual de cada envolvido.

Investigação tenta reconstruir os últimos momentos

Um dos principais desafios da Polícia Civil é determinar exatamente quanto tempo Douglas permaneceu imobilizado, qual foi a intensidade da pressão exercida sobre seu corpo e, principalmente, quem praticou cada uma das ações registradas pelas câmeras.

A diferença entre tentar conter uma pessoa em surto e utilizar força excessiva durante a contenção é um dos pontos que deverão ser avaliados pelos investigadores.

Além das imagens, a polícia analisa depoimentos, laudos médicos e outros elementos capazes de esclarecer a sequência dos acontecimentos.

O objetivo é estabelecer uma linha do tempo precisa, desde o momento em que Douglas começou a apresentar sinais de alteração até a chegada do socorro.

Socorro não conseguiu reverter quadro

Após ser imobilizado, Douglas foi atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Ele foi levado para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da zona leste de Santos. Apesar dos esforços da equipe médica, o homem não resistiu.

A morte transformou uma situação que inicialmente envolvia um episódio de crise em um caso criminal de grande repercussão.

Para familiares e pessoas próximas, a investigação busca não apenas apontar responsabilidades, mas também esclarecer o que aconteceu durante aqueles minutos e por que uma situação de surto terminou de maneira tão trágica.

Caso exige cautela

A Polícia Civil ainda não concluiu o inquérito, e os envolvidos devem ser tratados como investigados até que haja uma decisão definitiva da Justiça.

O depoimento prestado nesta quarta-feira acrescenta uma nova versão aos fatos. O homem afirma que sua intenção era ajudar a conter Douglas e nega ter contribuído para a morte. Ao mesmo tempo, as imagens e o laudo médico levantam questionamentos sobre a maneira como a vítima foi imobilizada.

A investigação deverá confrontar cada relato com as provas técnicas disponíveis.

Mais do que estabelecer responsabilidades criminais, o caso também chama atenção para a necessidade de compreender como episódios de crise psicológica podem evoluir rapidamente para situações de risco quando não há uma abordagem adequada.

No caso de Douglas, a sequência terminou com uma morte que agora é investigada pela Polícia Civil como homicídio. A expectativa é que a análise das imagens, dos laudos e dos novos depoimentos permita esclarecer, com precisão, o que ocorreu e qual foi a participação de cada um dos envolvidos.

Enquanto as investigações continuam, familiares aguardam respostas sobre os últimos momentos da vida de Douglas Pagliuca e sobre as circunstâncias que transformaram uma situação de sofrimento em uma tragédia.