O modelo econômico adotado pelo presidente argentino Javier Milei passou a ocupar espaço importante no debate político brasileiro durante a campanha presidencial de 2026. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta o governo do país vizinho como exemplo de redução de gastos públicos, combate à inflação e reorganização das contas do Estado. Do outro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chama a atenção para os custos sociais das medidas, especialmente os impactos sobre a renda das famílias, o emprego e os serviços públicos.

A discussão coloca em evidência um dos principais desafios enfrentados por governos de diferentes países: como equilibrar as contas públicas e estimular o crescimento econômico sem ampliar as dificuldades de quem depende do salário para sobreviver.

Conhecido pela promessa de reduzir drasticamente o tamanho do Estado, Milei assumiu a Presidência da Argentina em dezembro de 2023. Seu programa, popularmente chamado de “Plano Motosserra”, tornou-se uma das marcas de sua gestão e passou a simbolizar uma política econômica baseada em cortes de despesas, redução de subsídios, desregulamentação e mudanças na estrutura administrativa.

Quase três anos depois, os resultados econômicos e sociais do programa continuam alimentando discussões dentro e fora da Argentina. Enquanto alguns indicadores melhoraram, dificuldades enfrentadas por trabalhadores, pequenos empresários e famílias de baixa renda passaram a pressionar a popularidade do presidente.

A estratégia de Milei e a promessa de reorganizar a economia

Quando chegou ao poder, Milei encontrou uma Argentina marcada por inflação elevada, desequilíbrios fiscais e perda de poder de compra. Em 2023, a inflação anual chegou a 211,4%, cenário que agravava a incerteza econômica e dificultava o planejamento de empresas e famílias.

Diante desse quadro, o governo adotou medidas severas para diminuir os gastos públicos e recuperar a confiança dos investidores. Entre as principais iniciativas estavam a redução de despesas administrativas, o corte de subsídios a serviços públicos, a contenção de transferências governamentais e mudanças nas regras econômicas.

A estratégia tinha como objetivo fazer o governo gastar menos do que arrecada, reduzindo a necessidade de financiamento e contribuindo para a estabilização da economia.

Os resultados apareceram em indicadores importantes. A inflação anual caiu para 31,5% em 2025, segundo os dados apresentados no material de referência, atingindo o menor patamar em oito anos. A Argentina também registrou superávit fiscal, quando as receitas públicas superam as despesas, e ampliou suas exportações.

Outro sinal positivo veio do mercado financeiro. Em 2024, o principal índice de ações argentino, o S&P Merval, acumulou valorização expressiva, despertando o interesse de investidores que apostavam na recuperação do país.

Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) argentino cresceu 4,4%, reforçando a percepção de que a economia começava a reagir depois de um período de forte instabilidade.

Esses resultados passaram a ser utilizados por apoiadores de Milei como evidências de que o ajuste fiscal e as mudanças estruturais poderiam produzir efeitos positivos no médio e longo prazo.

O custo social das medidas começa a pesar

Apesar dos avanços em determinados indicadores, a recuperação econômica não ocorreu de maneira uniforme. Para parte da população, o esforço de reorganização das contas públicas veio acompanhado de dificuldades para manter o padrão de vida.

A redução de subsídios e a contenção dos gastos governamentais afetaram a renda disponível de muitas famílias. Ao mesmo tempo, empresas enfrentaram dificuldades diante do enfraquecimento do consumo, enquanto trabalhadores passaram a conviver com a insegurança no mercado de trabalho.

Segundo os números citados no levantamento, mais de 32 mil empresas fecharam ou deixaram de ter funcionários registrados desde o início do governo Milei. O desemprego chegou a 7,9%, o maior nível desde 2021, conforme os dados divulgados em setembro de 2026.

A pobreza também voltou a preocupar. Depois de apresentar recuo em um período anterior, o indicador voltou a atingir aproximadamente um terço da população, de acordo com os dados mencionados no material de referência.

Nas comunidades mais vulneráveis, os efeitos da crise aparecem no cotidiano. Cozinhas comunitárias enfrentam aumento da procura, famílias recorrem a empréstimos de curto prazo para comprar alimentos e há relatos de pessoas que voltaram a trocar produtos e serviços sem utilizar dinheiro.

O comércio também sente a redução do poder de compra. Gustavo Raúl Pérez, proprietário de uma loja de ferragens em Buenos Aires, relatou a queda nas vendas de um dos produtos comercializados por seu estabelecimento.

“Eu costumava vender 10 carrinhos de mão. Agora, vendo um”, afirmou o empresário, em declaração à agência Reuters.

Pérez também disse ter se decepcionado com o governo que apoiou nas eleições. O relato ilustra a dificuldade enfrentada por pequenos empreendedores quando os consumidores reduzem compras e priorizam despesas essenciais.

Universidades e trabalhadores também entram no debate

A política de contenção de gastos provocou insatisfação em diferentes setores da sociedade argentina. Em outubro de 2026, estudantes e professores participaram de manifestações contra os cortes de recursos destinados às universidades públicas.

Em Buenos Aires, uma das mobilizações terminou em confronto com a polícia, segundo as informações divulgadas sobre os protestos.

As manifestações demonstram que o ajuste fiscal não é discutido apenas em termos de números, inflação ou resultados do mercado financeiro. Para estudantes, professores e famílias, a questão envolve a capacidade de manter serviços públicos, garantir oportunidades educacionais e preservar condições de vida.

A reforma trabalhista promovida pelo governo também se tornou motivo de controvérsia. Aprovada em fevereiro, a medida alterou regras relacionadas à jornada de trabalho e às indenizações por demissão, recebendo críticas de sindicatos e organizações de trabalhadores.

Os defensores das mudanças argumentam que a flexibilização pode reduzir custos, estimular contratações e diminuir a informalidade. Já os críticos alertam para o risco de enfraquecimento de direitos e de maior desequilíbrio nas relações entre empregadores e empregados.

O desafio argentino, portanto, vai além de reduzir despesas. A discussão envolve a capacidade de transformar a estabilização econômica em melhorias concretas para a população.

Popularidade de Milei enfrenta pressão

Os impactos sociais passaram a repercutir também no cenário político. Uma pesquisa da AtlasIntel citada no levantamento, realizada em setembro de 2026, apontou desaprovação de aproximadamente 58% da população entrevistada ao governo Milei, enquanto a aprovação ficou em 38,1%.

Entre os entrevistados de menor renda, com ganhos mensais de até cerca de US$ 650, a desaprovação chegou perto de 70%, enquanto a aprovação ficou abaixo de 30%.

Os números indicam um desgaste especialmente significativo entre pessoas mais vulneráveis aos efeitos da inflação, da redução dos subsídios e das dificuldades do mercado de trabalho.

O presidente argentino ainda tem eleições presidenciais previstas para outubro de 2027. Até lá, a capacidade de preservar a estabilidade econômica e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida da população será determinante para avaliar a sustentabilidade política de seu projeto.

Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, reconhece avanços econômicos da gestão, mas aponta limitações relacionadas ao ambiente social e político.

Segundo ele, o equilíbrio fiscal alcançado por meio da contenção de despesas, da redução de transferências e dos cortes nos subsídios às tarifas públicas exerceu pressão direta sobre a renda disponível das famílias.

A avaliação sintetiza o dilema enfrentado pelo governo: medidas que ajudam a reduzir desequilíbrios fiscais podem, durante sua implementação, impor custos relevantes a determinados grupos da sociedade.

Como Flávio Bolsonaro e Lula usam o exemplo argentino

No Brasil, o governo Milei tornou-se um dos símbolos da disputa entre projetos econômicos distintos. Flávio Bolsonaro, aliado político do presidente argentino, elogia as medidas adotadas pelo país vizinho e defende mudanças semelhantes em áreas da administração pública brasileira.

Em julho de 2026, Milei participou de um evento relacionado à campanha presidencial de Flávio. Os dois já haviam se encontrado anteriormente em Buenos Aires, fortalecendo a associação política entre os projetos.

Durante suas manifestações, Flávio destacou a situação econômica encontrada por Milei ao assumir o governo e elogiou os cortes de despesas, a redução da estrutura administrativa e o equilíbrio das contas públicas.

A campanha do senador também apresentou a proposta de um “tesouraço” para o Brasil, com a promessa de enxugar a máquina pública, reorganizar as contas e reduzir impostos. Entretanto, conforme as informações citadas no material de referência, o documento não detalhou de forma suficiente como os cortes seriam distribuídos nem quais áreas seriam prioritariamente afetadas.

A campanha de Lula, por sua vez, utiliza os problemas sociais registrados na Argentina para questionar a possibilidade de reproduzir o modelo no Brasil. Publicações ligadas ao PT destacam a pobreza, os protestos contra cortes nas universidades e as mudanças nas regras trabalhistas.

A estratégia busca mostrar que a redução de gastos não deve ser analisada isoladamente, mas também pelos efeitos sobre emprego, renda, educação e serviços públicos.

Durante o primeiro debate presidencial do segundo turno brasileiro, Lula questionou Flávio sobre sua proximidade com Milei e perguntou se ele pretendia adotar no Brasil o modelo econômico argentino. Flávio não respondeu diretamente à pergunta, mas afirmou que governos de direita precisam corrigir problemas deixados por administrações de esquerda.

O que o Brasil pode aprender com a experiência argentina?

A experiência de Milei evidencia que o equilíbrio fiscal, o controle da inflação e a recuperação da confiança dos investidores são objetivos importantes para a estabilidade econômica. Ao mesmo tempo, mostra que os resultados precisam ser avaliados considerando a distribuição dos custos e dos benefícios das medidas adotadas.

O contexto brasileiro é diferente do argentino, tanto pela estrutura econômica quanto pelas características do sistema tributário, do mercado de trabalho e das políticas sociais. Por isso, a simples reprodução de medidas não garante resultados semelhantes.

Para os eleitores, a discussão exige atenção às propostas concretas dos candidatos. Mais do que slogans como “motosserra” ou “tesouraço”, é necessário compreender quais despesas seriam cortadas, quais políticas seriam preservadas, como os efeitos seriam distribuídos e quais mecanismos poderiam proteger a população mais vulnerável.

A economia argentina tornou-se, assim, um dos principais argumentos da disputa presidencial brasileira. De um lado, seus defensores destacam os avanços no controle da inflação e nas contas públicas. Do outro, os críticos apontam as dificuldades sociais e os impactos sobre o consumo, o emprego e a renda.

O resultado desse debate dependerá não apenas dos indicadores econômicos, mas também da capacidade de cada candidato de explicar como pretende transformar suas propostas em melhorias concretas para a vida dos brasileiros.