O mercado financeiro internacional reagiu com forte pessimismo à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na manhã desta segunda-feira (26), o fundo de investimentos EWZ, negociado nos Estados Unidos e utilizado como referência para acompanhar o desempenho das ações brasileiras no exterior, registrava queda de 26,02% no pré-mercado da Bolsa de Nova York.

Por volta das 7h41, no horário de Brasília, o fundo era negociado a US$ 31,51, ante US$ 42,59 registrados no fechamento da sexta-feira (23). O movimento representa uma desvalorização expressiva em poucas horas e evidencia a mudança nas expectativas de parte dos investidores após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

A vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) provocou uma revisão das apostas que vinham sendo feitas por participantes do mercado financeiro. Nas semanas anteriores à votação, parte dos investidores demonstrava preferência pelo cenário de uma vitória da oposição, diante das expectativas de mudanças na condução da política econômica e fiscal.

Com a confirmação do resultado eleitoral, investidores passaram a reavaliar suas posições em ativos brasileiros, movimento que atingiu ações, contratos cambiais e outros instrumentos financeiros negociados internacionalmente.

É importante destacar que a queda registrada no pré-mercado representa uma reação inicial dos investidores e não determina, por si só, o comportamento definitivo da Bolsa brasileira ao longo do pregão.

O que é o fundo EWZ e por que ele é importante?

O EWZ é um fundo negociado em bolsa, conhecido como ETF, que busca acompanhar o desempenho de um conjunto de ações de empresas brasileiras. Por ser negociado nos Estados Unidos, o produto permite que investidores internacionais tenham exposição ao mercado acionário do Brasil sem precisar comprar diretamente cada ação na B3.

Na prática, o fundo funciona como um dos indicadores utilizados para avaliar a percepção dos investidores estrangeiros sobre o ambiente econômico e político brasileiro.

Como a Bolsa brasileira não funciona aos domingos, os movimentos do EWZ nas negociações realizadas fora do horário regular ajudam a antecipar possíveis reações dos investidores antes da abertura do mercado nacional.

Na noite de domingo (25), após a confirmação da vitória de Lula, o fundo já havia registrado queda próxima de 19% nas negociações realizadas depois do fechamento regular do mercado, período conhecido como after hours.

A desvalorização se intensificou no pré-mercado desta segunda-feira, ampliando a pressão sobre os ativos brasileiros negociados no exterior.

Na sexta-feira anterior à eleição, o EWZ havia encerrado o pregão com alta de 1,77%, demonstrando uma trajetória diferente daquela observada após a divulgação do resultado eleitoral.

Petrobras e bancos estão entre os mais atingidos

A onda de vendas não ficou restrita ao EWZ. Ações de grandes companhias brasileiras negociadas nos Estados Unidos por meio de recibos de ações, conhecidos como ADRs, também apresentavam perdas expressivas.

Entre os destaques negativos estavam os papéis da Petrobras, que registravam recuo de aproximadamente 20%. No setor bancário, as ações do Itaú caíam 28,5%, enquanto os papéis do Bradesco apresentavam desvalorização de 26,8%.

O Nubank também era atingido pelo movimento, com queda de aproximadamente 24%. Já as ações do Mercado Livre, empresa com forte presença no comércio eletrônico brasileiro, recuavam 10,3%.

As variações divulgadas correspondiam às negociações no exterior durante a manhã e poderiam mudar ao longo do dia.

A intensidade das perdas demonstra como acontecimentos políticos podem influenciar as expectativas do mercado financeiro, principalmente quando investidores acreditam que o resultado de uma eleição poderá modificar a condução da economia.

Entretanto, a queda das ações não significa necessariamente que essas empresas tenham registrado uma deterioração imediata de seus resultados operacionais. Em movimentos dessa natureza, os preços também refletem expectativas, percepção de risco e decisões de investidores que procuram reduzir sua exposição a determinados mercados.

Dólar futuro também sinaliza preocupação

Outro indicador que chamou a atenção foi o comportamento dos contratos futuros relacionados ao real negociados na Chicago Mercantile Exchange (CME), nos Estados Unidos.

Durante as negociações de domingo, o contrato futuro do real com vencimento em novembro chegou a registrar queda de 10,02%, movimento equivalente, nas referências divulgadas, a um dólar próximo de R$ 5,56.

Esse valor, contudo, não corresponde à cotação oficial do dólar no mercado brasileiro. Trata-se de uma referência derivada das negociações de contratos futuros no exterior, sujeita a condições específicas de liquidez e negociação.

A desvalorização do real pode ter consequências importantes para a economia. Um dólar mais caro tende a elevar os custos de produtos importados, equipamentos, componentes industriais e determinados insumos utilizados por empresas brasileiras.

Também pode pressionar os preços de combustíveis e outros produtos influenciados pelo mercado internacional, dependendo das condições de comercialização e dos mecanismos de repasse.

Por outro lado, empresas exportadoras podem se beneficiar parcialmente de uma moeda americana mais valorizada, pois suas receitas obtidas em dólares passam a representar um valor maior quando convertidas para reais.

JP Morgan reduz recomendação para ativos brasileiros

A reação negativa também influenciou as avaliações de instituições financeiras internacionais. O banco americano JP Morgan reduziu sua recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros após a vitória de Lula.

A classificação passou de overweight, expressão utilizada quando se recomenda uma exposição superior à referência de mercado, para marketweight, que indica uma posição mais próxima da média.

Em relatório atribuído ao analista Vinicius Moreira e sua equipe, o banco avaliou que o resultado eleitoral poderia provocar uma revisão significativa dos preços dos ativos brasileiros.

Segundo a análise, parte dos investidores havia construído posições considerando a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro. Com a confirmação da reeleição de Lula, essas posições passaram a ser revistas, contribuindo para a pressão vendedora.

O banco destacou três pontos que deverão concentrar a atenção dos investidores nos próximos dias: a reação da oposição ao resultado eleitoral, a formação da equipe do novo governo e as possíveis consequências da instabilidade dos mercados para as decisões econômicas da próxima administração.

A avaliação também aponta que empresas mais dependentes da economia doméstica, especialmente nos setores de consumo e serviços, podem enfrentar maior pressão caso a aversão ao risco persista.

Contas públicas estão no centro das preocupações

Uma das principais questões para os investidores envolve a trajetória das contas públicas brasileiras.

O próximo governo terá de administrar despesas, receitas, investimentos e programas sociais em um cenário no qual a sustentabilidade da dívida pública continuará sendo acompanhada de perto pelo mercado.

A preocupação dos investidores está relacionada à capacidade de o governo manter o equilíbrio fiscal e, simultaneamente, cumprir compromissos sociais e econômicos.

Quando o mercado percebe maior risco nas contas públicas, pode exigir juros mais elevados para financiar a dívida do governo. Esse encarecimento também pode afetar o crédito oferecido a empresas e consumidores.

Além disso, uma combinação de desvalorização cambial, incerteza fiscal e expectativas de inflação mais elevada pode dificultar a redução dos juros básicos da economia.

Esses fatores, entretanto, dependem das decisões efetivamente adotadas pelo governo, da evolução dos indicadores econômicos e das condições internacionais. A reação inicial dos investidores não representa uma conclusão definitiva sobre o desempenho econômico dos próximos anos.

Existe risco de interrupção das negociações na B3?

Diante da intensidade das perdas observadas no exterior, também surgiu a preocupação com a possibilidade de acionamento do circuit breaker na Bolsa brasileira.

O mecanismo interrompe temporariamente as negociações quando o Ibovespa atinge determinados níveis de queda, conforme as regras da B3. A medida busca reduzir a velocidade de movimentos extremos e permitir que os participantes do mercado reavaliem suas decisões.

A possibilidade de acionamento depende, porém, do comportamento efetivo do índice durante o pregão brasileiro. As perdas observadas no EWZ e nos ADRs não significam que a interrupção ocorrerá automaticamente.

Antes das eleições, o mercado acionário brasileiro vinha registrando um período de valorização expressiva. Segundo os dados apresentados, o Ibovespa acumulava ganhos superiores a 27% em 2026 até a sexta-feira anterior à votação.

Esse histórico ajuda a compreender a dimensão da mudança de expectativas, mas também reforça a necessidade de acompanhar os indicadores ao longo de vários pregões, em vez de tirar conclusões a partir de uma única sessão.

O que esperar dos próximos dias?

A reação do mercado à reeleição de Lula coloca a economia brasileira diante de um período de maior atenção dos investidores internacionais. Os próximos movimentos dependerão não apenas do resultado eleitoral, mas também dos anúncios do governo, das escolhas para a equipe econômica e das medidas relacionadas às contas públicas.

A definição de prioridades, a comunicação com o mercado e a apresentação de propostas concretas poderão influenciar a percepção de risco ao longo das próximas semanas.

Para trabalhadores, consumidores e empresários, a principal preocupação é saber se a turbulência financeira terá efeitos duradouros sobre o dólar, os juros, os investimentos e o custo de vida.

É necessário, contudo, distinguir as oscilações dos mercados financeiros dos resultados da economia real. Uma queda acentuada em determinado fundo não significa, isoladamente, que toda a economia brasileira tenha perdido a mesma proporção de valor.

O episódio mostra que o resultado das eleições pode provocar ajustes rápidos nas expectativas dos investidores. A dimensão e a duração desses movimentos dependerão das decisões políticas e econômicas que serão tomadas a partir de agora.

Para o Brasil, o desafio será transformar o novo ciclo político em um ambiente de previsibilidade, crescimento e responsabilidade fiscal. Para os investidores, a atenção estará voltada à capacidade do próximo governo de apresentar medidas consistentes e reduzir as incertezas que influenciam os preços dos ativos brasileiros no mercado internacional.