Uma estátua de 11 metros em homenagem ao Diabo, inaugurada no litoral do Ceará, tem chamado a atenção nas redes sociais e despertado debates sobre liberdade religiosa, intolerância e diversidade de crenças no Brasil. A obra foi erguida no Palácio Estrela Negra da Quimbanda, templo localizado na Taíba, distrito de São Gonçalo do Amarante, e idealizada por Mãe Rainha das Trevas, líder religiosa e praticante da quimbanda.

Com quase 800 mil seguidores no Instagram, ela utiliza as redes sociais para divulgar sua rotina, compartilhar ensinamentos da religião e mostrar os rituais realizados no templo, onde também reside.

Líder religiosa mantém identidade cercada de mistério

Conhecida por se apresentar como “feiticeira” — termo que utiliza para definir sua função dentro da quimbanda —, Mãe Rainha das Trevas afirma que sua idade faz parte de um “mistério” e prefere não revelá-la.

Nas redes sociais, ela também se apresenta como a “Feiticeira dos políticos”, alegando receber parlamentares que buscam auxílio espiritual, principalmente com pedidos relacionados a campanhas eleitorais.

Templo completa 29 anos de história

A estátua foi inaugurada em 25 de julho, mesma data em que o Palácio Estrela Negra da Quimbanda completou 29 anos de fundação.

Antes de se estabelecer na Taíba, a líder religiosa viveu durante quatro anos no bairro Montese, em Fortaleza, onde comandava um espaço conhecido como “Casa dos Caixões”.

Segundo ela, o imóvel era completamente pintado de preto e possuía quatro caixões utilizados em cerimônias religiosas, cenário que despertava curiosidade e também reações negativas por parte de moradores.

Relatos de preconceito

Mãe Rainha das Trevas afirma que o preconceito contra sua religião não começou com a construção da estátua.

Segundo ela, as críticas já eram frequentes desde a época da Casa dos Caixões.

“Os comentários preconceituosos não começaram na construção da maior imagem do Diabo no mundo. Eles começaram quando eu abri a Casa dos Caixões. Era uma casa toda pintada de preto, com quatro caixões, onde eu reverenciava a minha fé”, relatou.

A líder religiosa diz que, ao longo dos anos, enfrentou episódios de intolerância religiosa por praticar uma crença pouco conhecida pelo grande público.

O que é a quimbanda?

A quimbanda é uma tradição religiosa de matriz afro-brasileira que possui práticas, rituais e fundamentos próprios. Seus adeptos a descrevem como um culto ancestral voltado ao desenvolvimento espiritual e à busca pela evolução do indivíduo.

Embora elementos como Exu e outras entidades façam parte de seus rituais, especialistas destacam que a quimbanda possui características específicas e não deve ser confundida automaticamente com outras religiões afro-brasileiras, como a umbanda ou o candomblé.

Debate sobre liberdade religiosa

A construção da estátua ganhou grande repercussão nacional, dividindo opiniões nas redes sociais. Enquanto parte do público criticou a iniciativa por motivos religiosos, outros defenderam o direito à livre manifestação de fé, garantido pela Constituição Federal.

O caso reacende discussões sobre respeito à diversidade religiosa e combate à intolerância, tema que continua sendo um desafio no Brasil, especialmente para praticantes de religiões de matriz africana e outras crenças minoritárias.