Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, fez nesta terça-feira (22) um alerta sobre o que classificou como “relativização da soberania” durante uma reunião de ministros da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), realizada em Nova York. A manifestação ocorreu no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo o Itamaraty, o chanceler brasileiro também chamou atenção para o que considera um processo de erosão do multilateralismo. A expressão foi divulgada pelo próprio Ministério das Relações Exteriores em uma publicação sobre a reunião, realizada paralelamente à programação da Assembleia Geral da ONU.

A fala ocorre em um momento de tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos e a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras. O governo brasileiro tem manifestado preocupação com possíveis interferências externas no processo eleitoral, enquanto a administração do presidente americano Donald Trump adotou medidas comerciais e diplomáticas que aumentaram as divergências entre os dois países.

Embora o governo brasileiro tenha evitado apresentar o discurso de Mauro Vieira como uma resposta nominal a uma autoridade específica, a defesa da soberania ganhou espaço na agenda diplomática do país durante a passagem da delegação brasileira por Nova York.

Soberania no centro do discurso diplomático

Ao falar aos representantes da Celac, Mauro Vieira defendeu a preservação da autonomia dos países latino-americanos diante das transformações no cenário internacional.

O Itamaraty informou que o ministro alertou para a “relativização da soberania e a erosão do multilateralismo”. A declaração não apresentou, na nota divulgada, nomes de países ou autoridades aos quais o alerta estaria diretamente direcionado.

O conceito de soberania ocupa espaço importante na política externa brasileira e está relacionado ao direito de cada país conduzir seus assuntos internos sem interferências externas.

A posição também dialoga com uma tradição da diplomacia brasileira de defesa do multilateralismo, ou seja, da negociação entre diversos países por meio de instituições internacionais.

Em discursos anteriores, o governo brasileiro já havia defendido o fortalecimento das Nações Unidas e a ampliação da participação de países em desenvolvimento nas decisões internacionais. Em 2024, por exemplo, Lula defendeu uma reforma da ONU e afirmou que a organização precisava refletir melhor a realidade geopolítica atual.

Relação com os Estados Unidos passa por momento delicado

A manifestação de Mauro Vieira ocorre em meio a divergências entre Brasília e Washington.

Nos últimos meses, o governo Trump adotou novas tarifas sobre produtos brasileiros e justificou algumas das medidas com argumentos relacionados à política comercial e a questões envolvendo o Brasil.

Apesar das divergências, os dois governos também mantiveram canais de diálogo. Em agosto, após conversas entre Lula e Trump, os ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa participaram de uma reunião virtual com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, para tratar das tarifas aplicadas a produtos brasileiros. O encontro foi apresentado pelos dois governos como parte da tentativa de avançar nas negociações comerciais.

O cenário, portanto, combina medidas de pressão econômica, divergências políticas e esforços diplomáticos para manter as negociações abertas.

É nesse ambiente que a questão da soberania passou a ocupar espaço ainda maior no discurso do governo brasileiro.

Eleições brasileiras também entram no contexto

A preocupação com interferência externa ganhou importância adicional porque o Brasil está próximo do primeiro turno das eleições de 2026.

Integrantes do governo brasileiro vêm manifestando preocupação com possíveis ações externas que possam afetar o processo eleitoral. Lula também já declarou que gostaria de conversar pessoalmente com Trump sobre o assunto.

Em uma conversa telefônica recente entre os dois presidentes, realizada antes da viagem de Lula a Nova York, o tema das eleições brasileiras teria sido mencionado. Segundo relatos de integrantes do governo brasileiro que acompanharam a conversa, Lula afirmou que o processo eleitoral ocorre normalmente e que o sistema de votação brasileiro é confiável.

As diferentes interpretações sobre a relação entre Estados Unidos e Brasil, entretanto, fazem parte de um cenário político ainda em desenvolvimento. Não há, portanto, uma conclusão definitiva sobre eventual interferência estrangeira nas eleições, e alegações desse tipo precisam ser analisadas com base em evidências concretas.

Lula deve abordar soberania na ONU

A agenda de Mauro Vieira antecedeu o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU. O presidente brasileiro abriu nesta terça-feira o debate geral da organização, em uma sessão marcada por temas como guerras, soberania, democracia e multilateralismo.

A defesa da soberania deve aparecer entre os principais pontos da manifestação presidencial.

A escolha do tema ocorre em um momento particularmente sensível para a diplomacia brasileira. Além das relações com os Estados Unidos, o governo busca apresentar sua visão sobre conflitos internacionais, comércio, funcionamento das instituições multilaterais e participação dos países em desenvolvimento na governança global.

A Assembleia Geral da ONU é tradicionalmente utilizada pelo Brasil para apresentar posições sobre esses temas. A abertura do debate geral também possui importância simbólica porque o presidente brasileiro é tradicionalmente um dos primeiros líderes a discursar.

Brasil defende mulher latino-americana no comando da ONU

Durante a reunião da Celac, Mauro Vieira também tratou da sucessão no comando das Nações Unidas.

O chanceler reiterou a posição brasileira favorável à escolha de uma mulher da América Latina e do Caribe para ocupar o cargo de secretária-geral da ONU.

O Itamaraty informou que Vieira defendeu que os países da região trabalhem pela construção de uma candidatura regional, levando em consideração o princípio de rotatividade entre as diferentes regiões do mundo.

A defesa brasileira também tem um componente histórico: até hoje, nenhuma mulher ocupou o cargo máximo da organização.

O governo brasileiro havia apoiado a candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, mas ela deixou a disputa. Com isso, o Brasil ainda não anunciou qual nome deverá receber seu apoio.

Mesmo sem uma candidata definida pelo governo brasileiro, Mauro Vieira afirmou que a região possui mulheres capazes de ocupar a função.

Disputa pela liderança da ONU

A sucessão do secretário-geral António Guterres ocorre em um momento de mudanças no sistema internacional. O mandato do português chega ao fim neste ano, e os países-membros precisam construir uma alternativa para a liderança da organização.

A escolha depende de um processo político e diplomático envolvendo os Estados-membros e o Conselho de Segurança da ONU, antes da confirmação pela Assembleia Geral.

A posição brasileira busca combinar dois objetivos: ampliar a representação regional e estabelecer, pela primeira vez, uma mulher no comando da organização.

Para o Itamaraty, a América Latina e o Caribe deveriam atuar de maneira coordenada para defender uma candidatura da própria região.

Multilateralismo como estratégia diplomática

O alerta feito por Mauro Vieira sobre a erosão do multilateralismo também se conecta a uma das principais linhas da política externa brasileira.

O governo Lula tem defendido que problemas globais, como guerras, mudanças climáticas, pobreza, segurança alimentar e comércio internacional, sejam tratados por meio de instituições multilaterais.

Essa visão coloca a ONU e organizações regionais, como a Celac, no centro da estratégia diplomática brasileira.

O discurso sobre soberania, portanto, não aparece isoladamente. Ele faz parte de uma discussão mais ampla sobre o equilíbrio entre autonomia nacional e cooperação internacional.

Para o governo brasileiro, fortalecer instituições multilaterais é uma maneira de ampliar a participação de países que possuem menor peso econômico ou militar nas decisões globais.

Um cenário internacional em transformação

A passagem da delegação brasileira por Nova York ocorre em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, conflitos armados, mudanças nas alianças políticas e questionamentos sobre o funcionamento das instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial.

Nesse ambiente, o Brasil tenta manter uma posição de diálogo com diferentes grupos de países e, ao mesmo tempo, defender interesses considerados estratégicos para sua política externa.

O alerta de Mauro Vieira sobre a soberania e a defesa de uma mulher latino-americana para comandar a ONU fazem parte dessa agenda.

Agora, a expectativa se concentra no discurso de Lula diante dos representantes dos países-membros das Nações Unidas. A fala deverá apresentar a posição brasileira sobre os principais temas internacionais e reforçar as prioridades diplomáticas do governo em um momento de elevada atenção sobre o país.

A reunião da Celac e o discurso na ONU mostram que, para o Brasil, a discussão sobre soberania não está restrita às relações com uma única potência. Ela está inserida em um debate mais amplo sobre como os países devem se relacionar em um mundo marcado por disputas de poder, interesses econômicos e transformações na ordem internacional.