Uma pesquisa recente realizada pela Associação Brasileira das Empresas do Setor de Fitoterápicos, Suplementos Alimentares e Promoção da Saúde (Abifisa) revela um cenário curioso sobre o consumo de medicamentos à base de plantas no Brasil: embora 80% dos entrevistados afirmem saber o que são fitoterápicos, apenas 14% relatam utilizá-los com frequência.
O levantamento ouviu mil pessoas nas cinco regiões do país e mostra que existe interesse pelos produtos, mas também falta de informação sobre suas características, indicações e diferenças em relação a suplementos alimentares e outros produtos naturais.
Em um país reconhecido pela enorme biodiversidade, os medicamentos produzidos a partir de plantas ainda enfrentam um desafio importante: fazer com que a população compreenda exatamente o que são, para que servem e de que maneira devem ser utilizados.
Os dados indicam que apenas 20% dos entrevistados conseguem diferenciar efetivamente um medicamento fitoterápico de produtos naturais ou suplementos alimentares.
A falta de conhecimento pode ajudar a explicar por que, apesar da percepção positiva sobre esses medicamentos, o consumo frequente permanece relativamente baixo.
Interesse existe, mas informação ainda é limitada
O levantamento mostra que a relação dos brasileiros com os fitoterápicos é marcada por uma combinação de curiosidade, confiança e desconhecimento.
Entre os entrevistados, 75% concordam que os fitoterápicos podem ser uma alternativa eficaz e segura para cuidar da saúde. Apenas 3% afirmaram que não utilizariam esse tipo de medicamento em nenhuma situação.
Para Laerte Dall’Agnol, presidente da Abifisa, os números demonstram que existe uma grande parcela da população potencialmente aberta ao uso desses produtos, mas que ainda precisa de informações adequadas para tomar decisões.
Segundo a entidade, o resultado sugere que fatores como confiança, conhecimento e orientação profissional têm papel importante na escolha dos consumidores.
Outro dado chama atenção: 54% dos entrevistados não conseguiram citar nenhuma marca ou nome de medicamento fitoterápico.
Ou seja, conhecer o conceito de fitoterapia não significa necessariamente saber identificar os medicamentos disponíveis ou compreender suas diferentes finalidades.
Afinal, o que são fitoterápicos?
Os fitoterápicos são medicamentos obtidos exclusivamente a partir de matérias-primas ativas de origem vegetal.
Apesar de serem produzidos a partir de plantas, eles não devem ser confundidos simplesmente com chás, ervas utilizadas de maneira caseira ou suplementos alimentares.
Por serem medicamentos, os fitoterápicos precisam atender a requisitos relacionados à qualidade, segurança e eficácia para receber autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Essa diferença é fundamental.
O fato de um produto ter origem vegetal não significa automaticamente que ele seja um medicamento fitoterápico.
Também não significa que seja completamente livre de riscos.
Plantas possuem substâncias químicas capazes de produzir efeitos no organismo. Dependendo da espécie, da concentração, da dose e da condição de saúde da pessoa, podem ocorrer efeitos adversos ou interações com outros medicamentos.
Fitoterápicos não são suplementos alimentares
Uma das principais confusões identificadas pela pesquisa envolve a diferença entre medicamentos fitoterápicos e suplementos alimentares.
De acordo com Maria Angélica Fiut, presidente da Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT), os suplementos alimentares não são medicamentos.
Eles têm como finalidade complementar a alimentação de pessoas saudáveis, fornecendo nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos.
Por essa razão, suplementos não devem apresentar indicação de prevenção, tratamento ou cura de doenças.
Já os fitoterápicos são classificados como medicamentos e podem ter indicações terapêuticas específicas.
A distinção é importante para evitar que uma pessoa substitua um tratamento médico por um produto que não possui finalidade terapêutica comprovada para determinada doença.
Quais problemas podem ser tratados?
Os fitoterápicos podem ser utilizados em diferentes situações de saúde, dependendo do medicamento, da indicação aprovada e da avaliação do paciente.
Entre os usos citados estão o alívio de sintomas de ansiedade leve e insônia, regulação intestinal, ação expectorante e broncodilatadora, melhora de sintomas relacionados ao climatério e auxílio em alguns processos inflamatórios.
Isso não significa, porém, que qualquer planta possa ser utilizada livremente para essas finalidades.
Cada medicamento possui características próprias e deve ser utilizado conforme sua indicação.
Alguns fitoterápicos também possuem restrições específicas e determinados medicamentos só podem ser adquiridos mediante apresentação de receita.
Por isso, a orientação de um profissional de saúde continua sendo importante.
Maioria reconhece importância da orientação profissional
Outro resultado expressivo da pesquisa é que 80% dos entrevistados reconhecem que a orientação de um profissional de saúde é indispensável para o uso de fitoterápicos.
O dado demonstra que, apesar do interesse por alternativas de origem vegetal, os brasileiros também reconhecem a necessidade de buscar informações qualificadas antes de iniciar um tratamento.
Essa orientação pode ser especialmente importante para pessoas que já utilizam outros medicamentos.
Isso porque determinados compostos presentes em plantas podem interagir com medicamentos convencionais, alterando seus efeitos ou aumentando a possibilidade de reações adversas.
A avaliação profissional também ajuda a identificar situações em que o fitoterápico pode ser inadequado.
Uso ainda é limitado
Apesar da percepção positiva, somente 14% dos entrevistados disseram utilizar fitoterápicos com frequência.
Outros 26% afirmaram fazer uso raramente, enquanto 14% disseram não utilizar esse tipo de medicamento.
Os números mostram que existe uma distância entre a aceitação dos produtos e o consumo efetivo.
A maioria não rejeita a possibilidade de utilizar fitoterápicos, mas também não incorporou esses medicamentos de maneira frequente à rotina.
Esse comportamento pode estar relacionado justamente à falta de informação sobre quais produtos existem, suas indicações e a maneira correta de utilizá-los.
Confiança na produção brasileira
A pesquisa também identificou um nível significativo de confiança na fabricação nacional.
Segundo o levantamento, 68% dos participantes confiam na qualidade da produção de medicamentos fitoterápicos no Brasil.
A avaliação é relevante porque a fabricação de medicamentos exige o cumprimento de regras sanitárias e padrões de qualidade.
Para chegar ao consumidor como medicamento autorizado, o produto precisa passar pelos processos regulatórios estabelecidos pela Anvisa.
Isso diferencia os medicamentos regularizados de produtos de origem desconhecida ou comercializados sem comprovação adequada de qualidade.
Biodiversidade brasileira ainda é pouco aproveitada
O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta e concentra uma enorme variedade de espécies vegetais.
Esse patrimônio natural representa um potencial importante para pesquisas científicas e desenvolvimento de novos medicamentos.
Entretanto, segundo Maria Angélica Fiut, o país ainda aproveita apenas uma parcela relativamente pequena dessa biodiversidade na produção de medicamentos fitoterápicos.
A utilização responsável desse patrimônio exige pesquisa, investimento, conhecimento científico e preservação ambiental.
Não basta simplesmente identificar uma planta com potencial medicinal.
É necessário compreender suas propriedades, determinar concentrações adequadas, avaliar segurança, estudar possíveis efeitos adversos e comprovar sua eficácia.
Esse processo pode levar anos e exige participação de pesquisadores, universidades, indústria e órgãos reguladores.
O desafio de transformar conhecimento em acesso
O cenário revelado pela pesquisa mostra que o Brasil possui uma população relativamente receptiva aos fitoterápicos, mas ainda existe um grande espaço para ampliar o conhecimento sobre esses medicamentos.
A diferença entre saber que um fitoterápico existe e compreender como ele deve ser utilizado é significativa.
Informações equivocadas podem levar ao uso inadequado de plantas ou medicamentos, principalmente quando existe a falsa percepção de que tudo aquilo que é natural é necessariamente seguro.
A origem vegetal de um produto não elimina a possibilidade de efeitos adversos.
Por isso, a utilização responsável depende de informação correta e orientação profissional.
Fitoterapia exige responsabilidade
O interesse crescente pelos medicamentos de origem vegetal também reforça a necessidade de combater a automedicação.
Antes de iniciar qualquer tratamento, é importante avaliar a indicação do produto e verificar se ele é adequado para aquela situação.
Pessoas que utilizam medicamentos de uso contínuo, gestantes, idosos e pacientes com determinadas condições de saúde podem necessitar de cuidados específicos.
Além disso, produtos adquiridos sem registro ou procedência conhecida podem representar riscos.
A recomendação de especialistas é que o consumidor procure profissionais habilitados e dê preferência a medicamentos regularizados.
Um mercado com espaço para crescer
Os números da pesquisa apontam para um mercado com grande potencial no Brasil.
Se 80% da população afirma conhecer os fitoterápicos, mas apenas 14% declara utilizá-los com frequência, existe uma parcela significativa de consumidores que ainda não incorporou esses medicamentos à rotina.
O desafio, entretanto, não deve ser simplesmente aumentar o consumo.
O caminho passa principalmente pela educação em saúde, permitindo que a população saiba diferenciar medicamentos, suplementos, chás e outros produtos naturais.
Com mais informação, o consumidor pode compreender melhor os benefícios, as limitações e os possíveis riscos associados aos fitoterápicos.
Em um país com uma das maiores biodiversidades do mundo, ampliar o conhecimento científico sobre as plantas medicinais pode representar uma oportunidade importante para a saúde, para a pesquisa e para a indústria nacional.
Mas essa expansão precisa caminhar lado a lado com segurança, fiscalização e orientação profissional.
A pesquisa da Abifisa mostra, portanto, que o brasileiro já demonstra interesse pelos fitoterápicos. O próximo passo é transformar esse interesse em conhecimento responsável, para que os medicamentos de origem vegetal sejam utilizados de maneira segura, consciente e adequada às necessidades de cada paciente.














