Jovens com diversidade sexual e de gênero apresentam maior probabilidade de utilizar serviços de saúde mental do que jovens cisgêneros e heterossexuais, especialmente quando se trata de atendimentos ambulatoriais e de emergência. A conclusão é de um estudo publicado em 11 de junho na revista científica JAMA Network Open, que acompanhou participantes desde a infância até o início da vida adulta.

A pesquisa analisou dados de 1.326 pessoas da província de Quebec, no Canadá, acompanhadas ao longo de diferentes fases do desenvolvimento. Entre os participantes, 340 foram classificados pelos pesquisadores como jovens com diversidade sexual ou de gênero.

Depois de considerar fatores como sexo atribuído ao nascimento e condição socioeconômica, os pesquisadores identificaram que esse grupo apresentou 41% mais probabilidade de utilizar serviços ambulatoriais de saúde mental e quase o dobro da probabilidade de recorrer a serviços de emergência por questões relacionadas à saúde mental em comparação com jovens cisgêneros e heterossexuais.

Os resultados chamam atenção principalmente porque a diferença no uso dos serviços não aparece de forma tão evidente na primeira infância. Segundo os pesquisadores, ela se amplia ao longo do desenvolvimento e se torna mais clara durante a adolescência e o início da vida adulta.

Pesquisa acompanhou jovens por mais de duas décadas

Os participantes fazem parte do Estudo Longitudinal de Desenvolvimento Infantil de Quebec e nasceram entre outubro de 1997 e julho de 1998.

Para realizar a análise, os pesquisadores cruzaram informações coletadas durante o acompanhamento dos participantes com registros do sistema de saúde da província canadense.

O atendimento ambulatorial de saúde mental foi analisado desde os primeiros anos de vida até os 23 anos. As internações foram avaliadas entre os 8 e os 23 anos, enquanto os atendimentos de emergência foram considerados no período entre 18 e 23 anos.

A orientação sexual e a identidade de gênero foram informadas pelos próprios participantes quando eles chegaram aos 23 anos.

Esse acompanhamento ao longo de diferentes etapas da vida permitiu aos pesquisadores observar como o uso dos serviços de saúde mental se modificou conforme os participantes envelheceram.

Diferença aumenta no início da vida adulta

Durante a primeira infância, não foi identificada uma diferença significativa entre os grupos em relação ao uso de atendimento ambulatorial de saúde mental.

A distância começou a aparecer posteriormente e aumentou com o avanço da idade.

Entre os 18 e os 23 anos, 40,9% dos jovens com diversidade sexual ou de gênero utilizaram serviços ambulatoriais de saúde mental, enquanto o percentual entre participantes cisgêneros e heterossexuais foi de 30,6%.

Depois dos ajustes realizados pelos pesquisadores, a diferença permaneceu significativa.

O resultado indica que o acesso ou a necessidade de utilização desses serviços pode se tornar mais frequente entre jovens com diversidade sexual e de gênero durante uma fase da vida marcada por importantes transformações pessoais, sociais e profissionais.

É justamente nesse período que muitos jovens também passam por mudanças relacionadas à identidade, relacionamentos, autonomia e entrada no mercado de trabalho.

Atendimento de emergência apresenta maior diferença

A diferença mais expressiva encontrada pela pesquisa apareceu nos atendimentos de emergência.

Entre os 18 e os 23 anos, 15% dos jovens com diversidade sexual ou de gênero procuraram serviços de emergência por questões relacionadas à saúde mental. Entre os participantes cisgêneros e heterossexuais, o percentual foi de 7,6%.

Após os ajustes estatísticos, a probabilidade de utilização da emergência continuou sendo quase duas vezes maior entre os jovens do primeiro grupo.

Entre os motivos registrados para os atendimentos estavam situações relacionadas à ansiedade e crises situacionais.

Os dados não significam que todos os jovens LGBTQIAPN+ apresentem problemas de saúde mental ou que a diversidade sexual e de gênero seja, por si só, responsável pelo maior uso dos serviços.

A pesquisa aponta uma associação observada na população estudada e busca compreender quais fatores podem estar relacionados a essa diferença.

Internações não apresentaram diferença significativa após ajustes

Os pesquisadores também analisaram as hospitalizações por questões relacionadas à saúde mental.

No período avaliado, 7,4% dos jovens com diversidade sexual ou de gênero foram hospitalizados, enquanto a proporção entre os participantes cisgêneros e heterossexuais foi de 4,8%.

Apesar da diferença numérica, ela não foi considerada estatisticamente significativa depois que os pesquisadores fizeram os ajustes necessários.

Por isso, o estudo não permite afirmar que jovens com diversidade sexual e de gênero tenham maior probabilidade de serem internados por questões de saúde mental.

Essa distinção é importante porque os resultados relacionados aos atendimentos ambulatoriais e às emergências foram mais consistentes, enquanto as hospitalizações não apresentaram evidência estatística suficiente para estabelecer uma diferença entre os grupos.

Discriminação pode estar entre os fatores associados

Por ser um estudo observacional, a pesquisa não estabelece uma relação de causa e efeito entre orientação sexual, identidade de gênero e problemas de saúde mental.

Na discussão dos resultados, os pesquisadores apontam alguns fatores que podem ajudar a explicar as diferenças observadas.

Entre eles estão discriminação, bullying e estresse relacionado à condição de minoria.

Experiências negativas vivenciadas durante a infância, adolescência e juventude podem afetar o bem-estar emocional e contribuir para o surgimento ou agravamento de dificuldades relacionadas à saúde mental.

Ao mesmo tempo, o apoio social aparece como um possível fator de proteção.

Ter uma rede de pessoas que ofereça acolhimento, respeito e segurança pode contribuir para que jovens enfrentem situações de dificuldade com maior suporte.

Emergência pode indicar atendimento tardio

Outro ponto levantado pelos pesquisadores é que a maior utilização de serviços de emergência pode indicar que algumas necessidades de saúde mental não foram identificadas ou atendidas de maneira adequada antes de uma situação de crise.

Quando o acompanhamento ocorre apenas depois que o problema se agrava, a pessoa pode chegar aos serviços de emergência em uma condição que exige intervenção imediata.

Por isso, os autores defendem a importância de ampliar o acesso a cuidados de saúde mental de maneira preventiva e contínua.

A ideia é identificar dificuldades ainda nas fases iniciais e oferecer acompanhamento adequado antes que elas evoluam para situações mais graves.

Estudo possui limitações

Apesar dos resultados relevantes, os pesquisadores destacam limitações que precisam ser consideradas.

Nem todos os tipos de atendimento em saúde mental estavam disponíveis nos registros utilizados na análise. Além disso, a orientação sexual e a identidade de gênero foram avaliadas quando os participantes tinham 23 anos.

Outro ponto importante é o número relativamente pequeno de participantes com diversidade de gênero, o que impediu análises mais detalhadas de diferentes grupos separadamente.

Dessa forma, os resultados devem ser interpretados dentro das características específicas da população estudada e do sistema de saúde de Quebec.

Pesquisas realizadas em outros países e com grupos maiores poderão ajudar a verificar se os padrões observados se repetem em diferentes contextos sociais e sistemas de saúde.

Importância do cuidado desde a infância

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de oferecer serviços de saúde mental acessíveis e adequados desde a infância.

A identificação precoce de sinais de sofrimento emocional pode permitir que crianças e adolescentes recebam acompanhamento antes que as dificuldades se transformem em crises.

Nesse processo, escolas, famílias, profissionais de saúde e serviços especializados podem desempenhar papéis importantes.

Um ambiente acolhedor também pode contribuir para reduzir situações de isolamento e sofrimento.

Saúde mental exige acolhimento e prevenção

Os resultados do estudo canadense colocam em evidência uma questão que vai além das estatísticas de atendimento: a necessidade de compreender as diferentes experiências vividas pelos jovens e garantir que todos tenham acesso a cuidados de saúde mental quando precisarem.

A maior utilização de serviços ambulatoriais e de emergência entre jovens com diversidade sexual e de gênero não deve ser interpretada como consequência da identidade ou da orientação sexual, mas como um sinal que merece investigação sobre as condições sociais e os fatores de proteção e risco presentes ao longo do desenvolvimento.

Para os pesquisadores, investir em prevenção, acesso e acolhimento pode ajudar a evitar que dificuldades emocionais cheguem ao ponto de exigir atendimento emergencial.

Em uma fase da vida marcada por profundas transformações, ter acesso a profissionais preparados e a redes de apoio pode fazer diferença para que jovens enfrentem desafios de maneira mais segura e tenham melhores condições de cuidar da própria saúde mental.