Três anos após o assassinato brutal de Mãe Bernadete, familiares, amigos, lideranças quilombolas e organizações de defesa dos direitos humanos continuam transformando a dor da perda em mobilização por justiça, proteção e preservação de um legado que ultrapassa as fronteiras da comunidade de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Bahia.
A liderança quilombola e religiosa foi assassinada em 17 de agosto de 2023, dentro da própria casa. Bernadete Pacífico, conhecida como Mãe Bernadete, foi atingida por 25 disparos, a maioria no rosto, enquanto estava sentada no sofá. O crime chocou o país e colocou novamente em evidência a situação de vulnerabilidade enfrentada por comunidades quilombolas e por pessoas que atuam na defesa de seus territórios e direitos.
Nesta segunda-feira (17), data que marca os três anos da morte, uma missa em homenagem à liderança está prevista para ser realizada às 9h, no Santuário do Senhor do Bonfim, em Salvador. O momento reúne pessoas que conviveram com Bernadete e que continuam trabalhando para que sua história não seja esquecida.
Para a família, lembrar Mãe Bernadete significa também falar sobre resistência.
O neto Wellington Pacífico, de 25 anos, estava na residência no momento do assassinato, acompanhado de outras duas crianças da família. A experiência deixou marcas profundas e se somou a outra tragédia que já havia atingido sua família.
Em 2017, o pai de Wellington, Flávio Pacífico, conhecido como Binho do Quilombo, também foi assassinado. Assim, a morte de Bernadete representou uma segunda perda devastadora para o jovem e para a comunidade.
“São feridas que não foram reparadas”, afirmou Wellington, ao recordar a dor provocada pelas duas mortes e a sensação de impunidade que ainda acompanha a família.
A trajetória de Mãe Bernadete também estava diretamente ligada à busca por justiça pela morte do filho. Ela havia se tornado uma voz importante na cobrança por respostas e responsabilização. Anos depois, o neto decidiu transformar parte dessa experiência em uma nova forma de luta.
Wellington ingressou no curso de Direito em uma faculdade da Bahia. A escolha, segundo ele, nasceu das próprias vivências familiares e do desejo de compreender melhor os caminhos jurídicos para defender pessoas que enfrentam situações semelhantes.
O jovem também integra o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, diante dos riscos relacionados à atuação de sua família e à defesa dos direitos das comunidades quilombolas.
A formação acadêmica, nesse contexto, ganhou um significado especial. Para Wellington, estudar Direito é uma maneira de transformar uma história marcada pela violência em uma trajetória de defesa de outras pessoas.
Justiça começa a avançar
No caso do assassinato de Mãe Bernadete, parte dos acusados já foi julgada.
Arielson da Conceição dos Santos, apontado como executor do crime, foi condenado a mais de 40 anos de prisão. Marílio dos Santos, apontado como um dos envolvidos no planejamento do assassinato, recebeu uma pena de 29 anos e nove meses.
Outros três acusados ainda aguardam julgamento. Segundo estimativa apresentada pela família, a expectativa é de que os julgamentos ocorram em outubro. O processo tramita em segredo de Justiça, e o Tribunal de Justiça da Bahia não confirmou oficialmente a data.
Para os familiares, cada etapa representa um passo importante, mas a luta ainda não terminou.
Wellington defende que a sociedade continue acompanhando o caso mesmo quando a atenção da imprensa diminui. Para ele, manter os crimes contra lideranças quilombolas em evidência é fundamental para evitar que outras pessoas sejam vítimas da violência.
A preocupação não se limita à própria família. Segundo ele, outras lideranças continuam expostas a ameaças e riscos em diferentes territórios.
O legado que permanece
Apesar da dor, a família de Mãe Bernadete procura manter vivas as iniciativas que fizeram parte da trajetória da ativista.
Entre os projetos está a realização de um novo festival de cultura e arte quilombola, iniciativa conduzida pelo filho dela, Jurandir Pacífico. A proposta é reunir cultura, memória e participação comunitária, fortalecendo a identidade e as tradições do povo quilombola.
A família também busca manter projetos como cursos de artesanato, festivais culturais e uma cozinha solidária. A intenção é encontrar parcerias e políticas públicas que permitam a continuidade dessas ações.
Mais do que eventos, essas iniciativas representam uma maneira de manter viva a presença de Mãe Bernadete na comunidade.
Ela era reconhecida não apenas pela militância, mas também pelo cuidado com as pessoas, pela liderança religiosa e pelo papel exercido dentro do território.
Proteção às lideranças
Para organizações como a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o assassinato de Mãe Bernadete não pode ser analisado como um caso isolado.
A entidade cobra do poder público medidas efetivas para proteger defensores dos direitos humanos e lideranças que atuam na defesa dos territórios quilombolas.
A ativista Selma Dealdina, da Conaq, conhecia de perto o trabalho desenvolvido por Mãe Bernadete e participa das homenagens realizadas nesta segunda-feira.
Segundo ela, é necessário ampliar a proteção oferecida pelo Estado às lideranças que atuam na defesa da terra, dos territórios e dos direitos das comunidades quilombolas.
Em nota, a Conaq destacou a trajetória de Bernadete como mulher, liderança, ialorixá e defensora de seu povo. A organização afirma que sua memória permanece presente nas mulheres quilombolas que ocupam espaços de decisão e nas comunidades que continuam resistindo diante de ameaças.
Violência contra mulheres negras
O caso também chama atenção para uma realidade mais ampla: a vulnerabilidade enfrentada por mulheres negras que atuam na defesa dos direitos humanos.
A historiadora baiana Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, destaca que essas mulheres estão expostas a diferentes formas de violência, incluindo racismo, violência de gênero e violações relacionadas à defesa de seus territórios.
Dados apresentados pela Conaq apontam que pelo menos 22 mulheres foram assassinadas entre 2016 e 2024 e outras 33 foram ameaçadas entre 2021 e 2023.
Os números reforçam a necessidade de políticas específicas de proteção.
A organização também destaca que apenas uma parcela dos brasileiros quilombolas vive atualmente em territórios oficialmente demarcados. Para as lideranças, garantir segurança dentro desses territórios é uma condição fundamental para que as comunidades possam preservar seus modos de vida e continuar defendendo seus direitos.
Diante desse cenário, a Conaq elaborou um plano emergencial de proteção para mulheres quilombolas, com o objetivo de apresentar propostas ao poder público e fortalecer mecanismos de segurança.
Memória como forma de resistência
Três anos depois, o nome de Mãe Bernadete continua associado à luta por justiça, dignidade e proteção.
Sua morte deixou uma ferida profunda na família e na comunidade de Pitanga dos Palmares, mas também fortaleceu a determinação de pessoas que decidiram continuar os projetos pelos quais ela lutava.
A história de Bernadete também se mistura à de Binho do Quilombo, seu filho, cuja morte ela própria buscava esclarecer e transformar em um símbolo de luta por justiça.
Para a família, manter essas histórias vivas é uma forma de impedir que a violência seja o ponto final.
Neste aniversário de três anos de sua morte, a homenagem à Mãe Bernadete não se resume a uma cerimônia religiosa. Ela representa um compromisso com a memória, com a cultura quilombola e com a defesa daqueles que continuam lutando para viver com segurança em seus próprios territórios.
A busca por justiça segue sendo uma das principais bandeiras.
Enquanto os processos judiciais avançam e novos projetos são construídos, familiares e lideranças procuram transformar o luto em esperança. A memória de Mãe Bernadete permanece como símbolo de resistência e como lembrança de que defender direitos, preservar a cultura e lutar pela própria comunidade também pode significar enfrentar riscos enormes.
Três anos depois, sua voz já não está presente fisicamente, mas continua ecoando entre aqueles que decidiram seguir adiante.
E, para quem conviveu com ela, manter esse legado vivo é também uma maneira de dizer que sua história não terminou no dia em que sua vida foi interrompida.








