A música brasileira ganha um novo encontro de gerações e sensibilidades com o lançamento de “Pelo tempo que durar”, sexto álbum do coletivo Lado Alado. O trabalho reúne interpretações de canções compostas por cinco importantes nomes da música nacional: Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis.
Com lançamento previsto para agosto de 2026, o álbum aposta em um repertório cuidadoso e, principalmente, distante das escolhas mais óbvias. Em vez de recorrer apenas aos grandes sucessos conhecidos pelo público, o Lado Alado mergulha em diferentes momentos das trajetórias dos compositores para resgatar músicas que, embora tenham grande valor artístico, nem sempre recebem a mesma atenção.
O resultado é um projeto que funciona como uma homenagem afetiva e musical a cinco artistas que ajudaram a construir parte importante da música brasileira contemporânea.
Uma homenagem feita por novas vozes
O coletivo Lado Alado é formado pelos cantores Cecília Einsfeld, Fabiano Bianco, Júlia Fialho, Manu Santos e Vall Coutinho. Juntos, eles dão novas interpretações às dez faixas selecionadas para o álbum.
A direção musical é assinada por Luiz Lopez, responsável por guitarra e violão. O time de músicos também conta com Pedro Herzog, no baixo; Rafael Martins, nos teclados e piano; e Rike Frainer, na bateria e percussão.
A formação cria uma sonoridade que permite que as músicas mantenham suas características originais, mas ganhem novas cores a partir das interpretações coletivas.
Mais do que simplesmente regravar canções conhecidas, a proposta é apresentar ao público novas possibilidades de escuta.
“Pelo tempo que durar” ganha nova interpretação
A música que dá nome ao álbum tem uma história especial.
“Pelo tempo que durar” foi composta por Adriana Calcanhotto em parceria com Marisa Monte e apresentada originalmente por Marisa no álbum “Infinito Particular”, lançado em 2006.
Duas décadas depois da gravação original, a canção ganha uma nova leitura na voz de Manu Santos, com contracanto de Fabiano Bianco.
A escolha da faixa como título do álbum reforça a ideia central do projeto: preservar canções, memórias e sentimentos ao longo do tempo, permitindo que novas gerações encontrem significado em obras que continuam atuais.
A interpretação do Lado Alado procura respeitar a delicadeza da composição, ao mesmo tempo em que estabelece uma identidade própria para a gravação.
Outra parceria entre Adriana e Marisa
Adriana Calcanhotto e Marisa Monte aparecem novamente no repertório com “Devo lhe dizer”, outra parceria que ganha uma nova leitura.
A música foi lançada originalmente em 2010 em um álbum de Dadi Carvalho, que também participou da composição. Na gravação original, Adriana Calcanhotto participou da interpretação.
Agora, o Lado Alado recupera a obra com as vozes de Cecília Einsfeld, Júlia Fialho, Manu Santos e Vall Coutinho.
A escolha reforça uma das características mais interessantes do projeto: apresentar músicas que fazem parte da história dos artistas homenageados, mas que nem sempre estão entre as primeiras lembranças do público quando seus nomes são mencionados.
Arnaldo Antunes aparece em diferentes fases
O repertório também percorre diferentes momentos da carreira de Arnaldo Antunes.
Uma das escolhas é “O sol”, parceria de Arnaldo Antunes com Edgard Scandurra, lançada em 1998. A música é interpretada por Cecília Einsfeld e Fabiano Bianco.
Outra faixa selecionada é “Fim do dia”, parceria de Arnaldo Antunes com Paulo Miklos, também de 1998, que recebe as vozes de Fabiano Bianco e Vall Coutinho.
As duas canções foram lançadas no álbum “Um som”, quarto trabalho solo de Arnaldo Antunes.
Ao recuperar essas faixas, o coletivo amplia o olhar sobre a trajetória do compositor e apresenta ao público músicas que ficaram menos conhecidas diante de outros trabalhos de sua carreira.
Nando Reis também ganha espaço
A obra de Nando Reis está representada por duas canções de seu primeiro álbum solo, “12 de janeiro”, lançado em 1995.
O disco chegou ao público quando o cantor ainda fazia parte dos Titãs e marcou uma etapa importante de sua trajetória individual.
O Lado Alado escolheu “A Urca” e “O seu lado de cá” para integrar o novo álbum.
A decisão mostra novamente a intenção de fugir do caminho mais previsível. Em vez de apostar somente em músicas que se tornaram grandes sucessos, o coletivo procura explorar diferentes lados da produção dos compositores.
Nesse processo, canções de diferentes épocas acabam estabelecendo uma conversa natural entre si.
Carlinhos Brown é representado por trabalhos dos anos 1990
Carlinhos Brown aparece no álbum com “Argila” e “Covered saints”, ambas de 1996.
As músicas fazem parte de “Alfagamabetizado”, primeiro álbum solo do artista, lançado há três décadas.
O disco foi fundamental para apresentar ao público uma dimensão ainda mais ampla do trabalho de Brown, que já possuía uma trajetória ligada à música baiana e posteriormente se consolidaria como cantor, compositor, percussionista e produtor.
Ao revisitar essas canções, o Lado Alado recupera um período marcante da carreira do artista e ajuda a mostrar a riqueza de um repertório que vai muito além dos sucessos mais conhecidos.
Uma conexão entre cinco compositores
Talvez a principal força do álbum esteja justamente na maneira como o repertório foi construído.
Embora Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis possuam trajetórias particulares e estilos distintos, suas obras compartilham uma série de diálogos.
São artistas de uma mesma geração que participaram de diferentes momentos da transformação da música popular brasileira, transitando entre o pop, a MPB, o rock, a música eletrônica, os ritmos brasileiros e outras influências.
O Lado Alado percebe essas conexões e transforma o álbum em uma espécie de conversa musical.
Um exemplo está na gravação de “Abololô”, parceria de Marisa Monte com Lucas Santtana, lançada originalmente em 2000.
Na interpretação do coletivo, a música incorpora uma citação de “Asas”, composição de Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, de 1998.
É justamente esse tipo de detalhe que dá ao projeto uma identidade própria.
Um álbum para redescobrir canções
“Pelo tempo que durar” não pretende apenas homenagear nomes consagrados da música brasileira. O trabalho também convida o público a redescobrir músicas que talvez tenham passado despercebidas em outros momentos.
Essa escolha torna o álbum especialmente interessante para quem já conhece a trajetória dos cinco compositores, mas também pode funcionar como uma porta de entrada para ouvintes mais jovens.
Ao colocar essas canções em novas vozes e novos arranjos, o Lado Alado mostra que uma obra musical não precisa permanecer presa ao momento em que foi lançada.
As músicas podem ganhar novos significados, novas interpretações e novas emoções conforme o tempo passa.
A música brasileira permanece viva
O lançamento do sexto álbum do Lado Alado acontece em um momento em que revisitar grandes compositores brasileiros também significa preservar uma parte importante da memória cultural do país.
“Pelo tempo que durar” propõe exatamente isso: olhar para trás sem transformar o passado em algo distante.
As dez faixas escolhidas mostram que a música brasileira produzida por essa geração continua capaz de dialogar com novos intérpretes e públicos.
Com cinco cantores, uma equipe musical dedicada e um repertório selecionado com cuidado, o coletivo transforma a homenagem em uma experiência própria.
Mais do que um álbum de releituras, “Pelo tempo que durar” é um convite para ouvir novamente, descobrir detalhes e perceber como grandes canções podem atravessar décadas sem perder a capacidade de emocionar.














