A Polícia Federal (PF) investiga pagamentos que somam mais de R$ 217 mil realizados pela empresária e lobista Roberta Luchsinger em despesas pessoais de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que ocupou o cargo de chefe de gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre os gastos identificados estão faturas de cartão de crédito, parcelas de financiamento de veículo, consórcio e compras de joias.

Os pagamentos ocorreram principalmente entre fevereiro e novembro de 2024, período em que Marcola estava ligado diretamente à estrutura do Palácio do Planalto. As informações fazem parte de investigações da PF que também alcançam Roberta e Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente.

A apuração, no entanto, ainda não significa que os envolvidos tenham sido considerados culpados. As investigações buscam determinar a origem dos recursos, a natureza da relação entre os envolvidos e se houve eventual utilização de vínculos pessoais para obtenção de vantagens ou influência junto ao governo.

Cartão, carro e consórcio entre os pagamentos

Segundo os elementos reunidos pela Polícia Federal, os pagamentos feitos por Roberta incluem uma fatura de cartão de crédito do Banco do Brasil no valor de aproximadamente R$ 95 mil.

Também foram identificados pagamentos relacionados a um consórcio, que chegaram a cerca de R$ 48 mil, além de parcelas de um financiamento de veículo no Santander que somaram aproximadamente R$ 26 mil.

Outros pagamentos, incluindo boleto e Pix, totalizaram cerca de R$ 27,5 mil.

Somados, os valores analisados pela investigação ultrapassam R$ 217 mil.

A PF passou a examinar as transações dentro de um contexto mais amplo, envolvendo mensagens e contatos mantidos por Roberta com pessoas próximas ao governo federal.

A investigação procura entender se os pagamentos representavam apenas uma relação financeira privada, como afirma a defesa de Marcola, ou se poderiam estar relacionados a outras atividades da empresária.

Joias também aparecem na investigação

Além das despesas financeiras, os investigadores encontraram mensagens relacionadas à compra de joias.

Segundo a PF, Roberta teria comprado um par de brincos e um colar de diamantes no valor de aproximadamente R$ 9,2 mil. As peças teriam sido adquiridas para que Marcola pudesse presentear uma familiar no Dia das Mães de 2024.

As mensagens encontradas no celular de Roberta indicariam que Marcola teria enviado imagens dos modelos desejados antes da compra.

Para os investigadores, o episódio passou a ter relevância dentro do conjunto de informações analisadas porque as joias se somam aos demais pagamentos feitos pela lobista.

A defesa de Marcola, porém, apresenta outra versão para os valores.

Defesa diz que houve empréstimo pessoal

Marco Aurélio Santana Ribeiro afirma que havia contraído um empréstimo pessoal de aproximadamente R$ 249 mil com Roberta Luchsinger.

Segundo sua defesa, os valores identificados pela PF como pagamentos de despesas pessoais faziam parte desse empréstimo e foram posteriormente devolvidos.

A defesa sustenta ainda que a devolução ocorreu com juros e correção monetária. De acordo com as informações divulgadas, Marcola teria transferido cerca de R$ 249 mil para Roberta depois que a Polícia Federal já havia apreendido o celular da empresária.

Nesse entendimento, portanto, os pagamentos não representariam presentes ou vantagens indevidas, mas despesas quitadas por Roberta dentro de uma relação de empréstimo privado.

A explicação será analisada pelos investigadores no decorrer das apurações.

Relação com Lulinha amplia investigação

Roberta Luchsinger é apontada nas investigações como próxima de Fábio Luís da Silva, o Lulinha.

A Polícia Federal também apura a relação entre a empresária e o filho do presidente Lula, especialmente diante de mensagens e negócios que envolveriam possíveis tentativas de intermediação junto ao governo.

Segundo a investigação, Roberta teria buscado facilitar contatos com integrantes da administração federal para tratar de interesses empresariais.

Entre os assuntos analisados está uma tentativa de negociação envolvendo produtos à base de canabidiol com o Ministério da Saúde. Uma minuta de contrato chegou a ser enviada por Roberta para Marcola, que confirmou ter recebido o documento, embora tenha negado qualquer favorecimento. O negócio, segundo as informações disponíveis, não chegou a ser concretizado.

A PF investiga se essas relações configurariam tráfico de influência ou outras irregularidades.

Investigação também alcança o chamado “Careca do INSS”

Roberta também aparece nas investigações relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

Ele é apontado nas apurações como um dos operadores de um esquema investigado pela Polícia Federal envolvendo descontos indevidos e possíveis fraudes contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A empresária e Antunes são investigados no contexto da chamada Operação Sem Desconto.

A PF passou a cruzar as relações financeiras e profissionais entre diferentes personagens justamente para entender se existia uma estrutura de influência capaz de aproximar empresários de autoridades ou integrantes do governo.

Nesse cenário, os pagamentos feitos a Marcola ganharam relevância para os investigadores.

Três inquéritos envolvendo Lulinha

As informações reunidas pela Polícia Federal também serviram de base para representações que levaram à abertura de três inquéritos envolvendo Lulinha.

Os procedimentos tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria dos ministros André Mendonça e Flávio Dino.

Lulinha é investigado sob suspeita de tráfico de influência. A defesa nega irregularidades e afirma que os fatos precisam ser analisados dentro do contexto completo das provas.

Os advogados também questionaram a divulgação de informações que estão sob sigilo e afirmaram que pretendem se manifestar de maneira mais ampla somente depois de terem acesso integral aos elementos da investigação.

Marcola deixou o governo e depois saiu da campanha

Marcola ocupava uma posição de confiança na estrutura do governo Lula e tinha acesso direto ao gabinete presidencial.

Ele deixou o cargo no Palácio do Planalto em julho deste ano. A justificativa oficial apresentada na época foi a de que passaria a integrar o núcleo de coordenação da campanha de Lula à reeleição.

Após a divulgação das informações sobre os pagamentos feitos por Roberta, entretanto, Marcola também deixou a campanha presidencial.

A saída ocorreu em meio ao aumento da repercussão pública das investigações e das dúvidas sobre a relação financeira entre ele e a empresária.

Antes disso, integrantes do entorno de Lula haviam defendido a necessidade de aguardar a conclusão das investigações e respeitar a presunção de inocência.

O que a PF tenta esclarecer

O ponto central das investigações não é apenas identificar quanto foi pago por Roberta, mas compreender por que os pagamentos foram realizados e qual era a natureza da relação entre os envolvidos.

A Polícia Federal busca estabelecer se as transações estavam restritas a uma relação privada de empréstimo, como afirma Marcola, ou se poderiam ter alguma ligação com atividades de intermediação e influência investigadas pela corporação.

Também estão sob análise mensagens trocadas entre os personagens, movimentações financeiras, contatos profissionais e possíveis negociações com órgãos públicos.

Até o momento, as suspeitas continuam sendo objeto de investigação e não representam condenação.

Defesas têm direito de se manifestar

A defesa de Marcola afirma que os valores correspondem a um empréstimo pessoal integralmente quitado e nega irregularidades.

Os advogados de Lulinha também negam as suspeitas e afirmam confiar nas instituições responsáveis pela apuração. A defesa de Roberta, segundo as informações divulgadas, não apresentou manifestação específica sobre os pagamentos e sustenta que o caso está sob sigilo.

O espaço permanece aberto para eventuais esclarecimentos dos envolvidos.

Enquanto a investigação avança, o caso expõe uma complexa rede de relações entre empresários, lobistas e pessoas que circularam próximas ao núcleo do governo federal.

Mais do que os valores, a questão que permanece para os investigadores é compreender se essas relações eram exclusivamente pessoais e financeiras ou se havia, por trás delas, alguma tentativa de acesso privilegiado ao poder público.

A resposta dependerá da análise completa das provas e das conclusões da Polícia Federal e do Judiciário. Até lá, os envolvidos devem ser tratados dentro das garantias previstas pela legislação e da presunção de inocência.