Fifa vive uma das maiores crises políticas de sua história recente, e a permanência de Gianni Infantino na presidência da entidade passou a ser questionada por importantes confederações continentais. Dirigentes estudam a possibilidade de apresentar uma moção de desconfiança, mecanismo que poderia abrir caminho para uma tentativa formal de afastamento do presidente.
A movimentação ocorre depois da forte reação ao projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), proposta que previa a criação de uma estrutura comercial avaliada em cerca de US$ 20 bilhões e a possibilidade de venda de uma participação minoritária a investidores privados. O plano acabou abandonado após resistência de dirigentes e federações de diferentes partes do mundo.
Segundo informações da Reuters, UEFA, Confederação Asiática de Futebol (AFC) e Concacaf estão entre as entidades que avaliam os próximos passos diante do desgaste político. A discussão sobre uma eventual moção de desconfiança representa uma mudança significativa no cenário da Fifa e coloca em dúvida a capacidade de Infantino de reunir novamente apoio suficiente para continuar no comando.
Infantino, que busca um quarto mandato, tem eleição marcada para 18 de março de 2027, em Rabat, no Marrocos.
Uma crise que começou com um projeto bilionário
O Fifa Forward Enterprise foi apresentado como uma iniciativa para ampliar as receitas da entidade e aumentar os recursos destinados às 211 associações nacionais filiadas.
A proposta previa reunir atividades comerciais ligadas a direitos de transmissão, patrocínios, ingressos e outros negócios relacionados às competições da Fifa em uma nova estrutura. A ideia era permitir a entrada de investidores privados com uma participação minoritária.
O projeto, porém, provocou reação imediata entre dirigentes de confederações e federações nacionais.
As críticas se concentraram principalmente na falta de transparência e na forma como a iniciativa teria sido conduzida. A proposta acabou retirada depois que a resistência aumentou e não havia garantia de aprovação.
O episódio deixou uma marca política profunda. Para críticos de Infantino, o problema não foi apenas o conteúdo do projeto, mas a maneira como decisões de grande impacto financeiro teriam sido discutidas dentro da organização.
Demissão aumentou o desgaste
A crise ganhou uma dimensão ainda maior com a saída de Kevin Lamour, então diretor de operações da Fifa.
A demissão foi interpretada por integrantes da estrutura internacional do futebol como mais um sinal de conflito interno. Segundo relatos publicados pela Reuters, o afastamento de Lamour foi considerado pelo vice-presidente da Fifa, Sandor Csanyi, como um momento decisivo para o aumento da oposição a Infantino.
Csanyi também retirou seu apoio ao presidente, enquanto dirigentes de diferentes regiões passaram a questionar publicamente a condução da entidade.
A sucessão de acontecimentos transformou uma discussão comercial em uma crise de governança.
Como funcionaria uma moção de desconfiança
O estatuto da Fifa estabelece que um Congresso Extraordinário pode ser convocado quando pelo menos um quinto das associações filiadas fizer um pedido formal por escrito.
Como a entidade possui 211 membros, seriam necessárias manifestações de pelo menos 43 associações.
O estatuto determina que, uma vez recebido o pedido, o Congresso Extraordinário deve ser realizado dentro de três meses. Cada associação tem direito a um voto, e não é permitida votação por procuração ou por carta.
A existência desse mecanismo não significa, porém, que o afastamento de Infantino já esteja decidido.
Primeiro seria necessário reunir o número mínimo de associações para provocar a convocação. Depois, os integrantes do Congresso precisariam analisar e votar a proposta de desconfiança de acordo com as regras estatutárias aplicáveis.
A própria Fifa afirmou recentemente que qualquer processo relacionado à presidência precisa respeitar os estatutos, os procedimentos democráticos e o sistema de governança da entidade.
Um precedente que nunca aconteceu
Caso a iniciativa avance até uma votação de desconfiança contra o presidente, o episódio será inédito.
Em mais de um século de existência, a Fifa nunca passou por um processo desse tipo para tentar retirar seu presidente do cargo.
Isso explica a cautela de dirigentes envolvidos nas discussões. Uma eventual votação não teria apenas consequências para Infantino, mas poderia estabelecer um novo precedente sobre a relação entre o presidente da Fifa, o Conselho, as confederações continentais e as associações nacionais.
A disputa, portanto, ultrapassa o futuro de um único dirigente. O que está em discussão é também a forma como a maior organização do futebol mundial deve tomar decisões que envolvem bilhões de dólares e interesses de centenas de federações.
Apoio a Infantino começa a diminuir
A pressão também aparece na base eleitoral da Fifa.
Federações nacionais que anteriormente apoiavam Infantino passaram a retirar esse respaldo ou anunciar oposição à continuidade do dirigente.
Dinamarca, País de Gales, Israel, Escócia e outras associações europeias estão entre as que manifestaram insatisfação. A Federação Dinamarquesa, por exemplo, anunciou que não apoiará Infantino na eleição de 2027 e defendeu a construção de uma alternativa para a presidência.
Na Europa, a resistência é especialmente forte. A UEFA declarou perda de confiança em Infantino depois da crise envolvendo a proposta comercial.
Ao mesmo tempo, o apoio não desapareceu de todas as regiões.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) continuam entre as estruturas que demonstram apoio ao presidente. Essa divisão torna o cenário ainda mais complexo, porque qualquer tentativa de afastamento dependerá da capacidade dos opositores de transformar insatisfação política em votos concretos.
A eleição de 2027 no horizonte
Infantino pretende disputar um novo mandato em março de 2027.
O dirigente foi eleito pela primeira vez em 2016, depois da crise que atingiu a Fifa durante a gestão de Joseph Blatter. Em 2023, foi reeleito para um terceiro período.
Agora, a possibilidade de um quarto mandato enfrenta um ambiente político muito diferente.
Além da crise relacionada ao Fifa Forward Enterprise, organizações e dirigentes também levantaram questionamentos sobre transparência, governança e limites de mandato.
Ainda não há, contudo, uma candidatura alternativa consolidada capaz de reunir apoio suficiente para substituir Infantino.
Esse é um dos fatores que tornam o cenário imprevisível.
O futebol no centro da disputa
A crise atual revela uma realidade que muitas vezes fica escondida atrás dos grandes eventos esportivos: a Fifa é também uma organização política e econômica de enorme dimensão.
A entidade administra direitos comerciais, transmissões, patrocínios e competições que movimentam bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, reúne 211 associações nacionais com interesses diferentes e, muitas vezes, conflitantes.
Para algumas federações, o modelo de gestão de Infantino ampliou investimentos e fortaleceu o futebol em diferentes regiões. Para seus críticos, decisões recentes demonstram concentração de poder e falta de diálogo suficiente com as confederações.
Esse contraste ajuda a explicar por que a disputa pelo comando da Fifa ganhou tanta força.
O que pode acontecer agora
Por enquanto, uma moção de desconfiança é uma possibilidade em discussão, não uma decisão já tomada.
O primeiro obstáculo será reunir as 43 associações necessárias para solicitar formalmente um Congresso Extraordinário. Depois, seria preciso superar as etapas previstas no estatuto e obter apoio suficiente dentro do Congresso.
Paralelamente, a eleição presidencial de março de 2027 permanece no calendário.
Enquanto isso, Infantino tenta preservar sua base de apoio, e seus opositores buscam construir uma alternativa capaz de reunir diferentes regiões do futebol mundial.
A crise, portanto, ainda está em movimento.
Independentemente do resultado, o episódio já representa um dos momentos mais delicados da administração de Gianni Infantino. Uma proposta comercial que pretendia ampliar as receitas da Fifa acabou desencadeando uma discussão muito maior sobre transparência, poder e governança.
Agora, os próximos meses dirão se a insatisfação ficará restrita às críticas públicas ou se conseguirá chegar ao ponto mais sensível da estrutura da Fifa: uma votação formal sobre a permanência de seu presidente.






