Anitta apresentou, na noite deste sábado (22), em Niterói, no Rio de Janeiro, mais uma etapa da “Equilibrium Tour”, espetáculo que reúne diferentes facetas da artista e busca aproximar a imagem pública de Anitta de sua identidade pessoal, Larissa.
Transmitido ao vivo pelo Globoplay e pelo canal Multishow, o show revelou uma cantora disposta a explorar caminhos diferentes daqueles que tradicionalmente marcaram sua carreira. Ao longo da apresentação, Anitta transitou entre referências espirituais, ritmos brasileiros, momentos de introspecção, sensualidade e, finalmente, o funk que ajudou a transformar seu nome em uma das maiores referências brasileiras da música pop internacional.
Não foi por acaso que a artista mencionou seu nome de batismo durante a apresentação. A proposta de “Equilibrium” está justamente ligada à tentativa de encontrar um ponto de equilíbrio entre a personagem Anitta, conhecida mundialmente, e Larissa, a mulher por trás da artista.
O resultado é um espetáculo que começa contemplativo e espiritualizado, mas termina mergulhado na energia dos bailes cariocas.
Uma Anitta mais próxima de Larissa
A “Equilibrium Tour” nasceu a partir dos dois volumes do álbum “Equilibrium”, projeto que apresenta uma Anitta diferente daquela acostumada a dominar as paradas com músicas dançantes e performances provocantes.
A turnê percorre diferentes referências culturais e musicais brasileiras e utiliza elementos visuais e sonoros para construir uma atmosfera quase ritualística.
Em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro, onde Anitta nasceu, essa proposta ganhou uma dimensão ainda mais especial.
O palco montado no Caminho Niemeyer recebeu bailarinos, ritmistas e projeções que ajudaram a criar diferentes ambientes durante a apresentação.
O espetáculo foi dividido em quatro atos, cada um explorando uma dimensão diferente do universo construído pela cantora.
A princípio, o público foi convidado a desacelerar e acompanhar uma Anitta mais espiritual, conectada às suas referências culturais e religiosas.
Música brasileira ganha protagonismo
Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando Anitta interpretou “É d’Oxum”, composição de Gerônimo Santana e Vevé Calazans lançada em 1985.
A música é uma das obras mais representativas da tradição musical afro-baiana e possui forte ligação com a cultura dos orixás.
Ao incluir a canção no repertório, Anitta reforçou a intenção de apresentar ao público uma parte da música brasileira que vai além do pop contemporâneo.
A escolha também dialoga com músicas próprias incluídas nos dois volumes de “Equilibrium”.
Entre elas estão “Bemba” e “Ogum me rodeia”, faixas que exploram referências relacionadas à fé, à Bahia, aos orixás e às tradições afro-brasileiras.
Em “Ogum me rodeia”, o espetáculo ainda reproduz versos recitados por Maria Bethânia no álbum, reforçando a ligação entre a produção de Anitta e nomes históricos da música brasileira.
Entre fé e sensualidade
A proposta de “Equilibrium” não se limita à espiritualidade.
O espetáculo também trabalha com sensualidade, romantismo e desejo, criando uma combinação entre o sagrado e o profano.
Um dos exemplos é “Caso de amor”, faixa de R&B romântico gravada por Anitta com o trio Os Garotin no primeiro volume do álbum.
A música trouxe para o palco um clima mais íntimo e sedutor, contrastando com os momentos de maior intensidade dos ritmos dançantes.
Outro destaque foi “Eu não sou santa”, música de inspiração forrozeira que brinca justamente com a contradição entre a imagem de santidade e o comportamento mais provocante associado à artista.
Essa mistura de referências é uma das principais características do espetáculo.
Anitta não tenta escolher entre suas diferentes identidades musicais. Pelo contrário, coloca todas elas no mesmo palco.
O funk chega para incendiar o show
Depois de uma sequência marcada por referências espirituais, ritmos brasileiros e momentos mais contemplativos, a apresentação muda completamente de atmosfera no quarto ato.
É nesse momento que Anitta, a artista dos bailes, toma conta do palco.
O funk aparece com força em músicas como “Você já sabe”, “Choka choka”, “Meia noite” e “Okê”.
A mudança de clima é quase imediata.
As referências espirituais continuam presentes, mas agora dividem espaço com batidas mais pesadas e com a energia característica dos bailes cariocas.
“Meia noite” ganha uma performance marcada pela presença da Pomba Gira, incorporando ao espetáculo elementos de religiosidade popular e teatralidade.
Já “Okê” representa um dos momentos mais explosivos da noite.
O funk de inspiração indígena foi tão bem recebido pelo público que acabou sendo apresentado duas vezes seguidas, após um pedido dos espectadores.
A reação demonstrou que, mesmo diante de uma proposta mais espiritualizada, o público ainda esperava encontrar a Anitta que conhece dos grandes hits e dos bailes.
O equilíbrio entre dois mundos
A força da “Equilibrium Tour” está justamente na capacidade de unir universos aparentemente diferentes.
De um lado, existe a artista internacional, associada ao pop, à sensualidade e ao funk que levou o batidão carioca para diferentes países.
Do outro, existe Larissa, mulher que busca explorar suas crenças, suas referências culturais e uma dimensão mais pessoal de sua identidade.
O espetáculo tenta aproximar essas duas figuras.
Em determinados momentos, a cantora parece querer conduzir o público para um ambiente de contemplação. Em outros, abandona completamente a tranquilidade e mergulha na energia do funk.
Esse contraste não é um problema para a apresentação. É justamente o elemento que dá personalidade ao show.
Visual colorido e atmosfera ritualística
Além da música, o espetáculo também chama atenção pelo trabalho visual.
As cores predominantes passam pelo amarelo e pelo vermelho, criando uma atmosfera vibrante e intensa.
As projeções ajudam a transportar o público para diferentes cenários ao longo dos quatro atos.
Em determinados momentos, porém, o espetáculo desacelera e abre espaço para cores e movimentos mais tranquilos.
Um exemplo é “Azul”, clássico de Djavan lançado em 1982.
Anitta apresenta a música em espanhol, em uma tradução bastante próxima da letra original.
A escolha reforça mais uma vez a proposta de misturar referências brasileiras com elementos que dialogam com o público internacional.
Uma artista que não abandona suas raízes
Mesmo depois de conquistar espaço internacional, Anitta continua mantendo uma forte relação com a cultura brasileira.
A artista se tornou conhecida mundialmente por levar o funk e outros elementos da música brasileira para públicos de diferentes países.
Na “Equilibrium Tour”, entretanto, ela amplia esse movimento.
Em vez de apresentar apenas o funk como símbolo do Brasil, Anitta mergulha em diferentes tradições musicais.
Ijexá, reggae, samba, forró e funk aparecem lado a lado.
Essa diversidade também ajuda a mostrar que a música brasileira possui inúmeras possibilidades e que a artista pode explorar diferentes caminhos sem abandonar aquilo que construiu sua carreira.
O público embarca na proposta
A reação do público em Niterói mostrou que a experiência funcionou.
Mesmo nos momentos mais contemplativos, a plateia acompanhou a apresentação com atenção e entusiasmo.
Quando os funks chegaram ao palco, a energia aumentou ainda mais.
A resposta a “Okê”, apresentada duas vezes, foi uma das demonstrações mais claras da conexão entre Anitta e seus fãs.
O espetáculo conseguiu, assim, construir uma narrativa que começa em um ambiente espiritualizado e termina no clima de um grande baile.
Essa transição também pode ser interpretada como uma representação da própria trajetória da artista.
Anitta não precisa escolher entre Larissa e a personagem que criou para o mundo.
Um espetáculo sobre identidade
“Equilibrium” talvez seja, acima de tudo, um espetáculo sobre identidade.
Ao mencionar Larissa no palco e construir uma apresentação inspirada em seus anseios pessoais, Anitta mostra uma artista interessada em revelar aspectos que normalmente ficam escondidos atrás da fama.
A turnê também permite que ela revisite diferentes referências culturais e musicais que ajudaram a formar sua identidade.
No fim, a proposta parece simples: encontrar equilíbrio entre diferentes partes de si mesma.
E esse equilíbrio aparece na música, na dança, na estética e na relação com o público.
Entre a tranquilidade do clima zen e a explosão do funk, entre a fé e o desejo, entre Larissa e Anitta, a cantora constrói um espetáculo que consegue ser ao mesmo tempo pessoal e grandioso.
Em Niterói, “Equilibrium” mostrou que Anitta não precisa abandonar o batidão para revelar uma versão mais íntima de si mesma. Pelo contrário: é justamente ao colocar espiritualidade, cultura brasileira, sensualidade e funk no mesmo palco que a artista encontra o equilíbrio que dá nome à turnê.













