A música pernambucana ganha mais um capítulo de renovação com a chegada de “Baque irado”, primeiro álbum da banda Pernambulô. O trabalho, que será lançado no dia 4 de setembro, reúne 10 faixas autorais e aposta em uma combinação vibrante entre a força da percussão, os beats eletrônicos, a cultura popular de Pernambuco e a energia do rock.
Formado por Dio Santos, nos vocais, Leo D, responsável pelos sintetizadores e programações, e Márcio Alencar, no baixo, o trio constrói uma identidade sonora que nasce diretamente da experiência cultural do Recife e de suas periferias.
A proposta do grupo é transformar referências tradicionais em uma linguagem contemporânea, sem abandonar as raízes. Em “Baque irado”, ritmos populares pernambucanos convivem com programações eletrônicas, linhas de baixo marcantes e elementos associados ao rock.
O resultado é um álbum que procura traduzir musicalmente a diversidade das ruas, das manifestações culturais e do cotidiano pernambucano.
Um encontro entre tradição e modernidade
A Pernambulô surge com uma proposta que dialoga com diferentes momentos da música de Pernambuco.
O grupo reconhece a influência de artistas que ajudaram a aproximar a cultura popular de novas sonoridades, como Alceu Valença e Lenine, além da geração responsável pelo movimento Manguebeat, que transformou a música do Recife a partir dos anos 1990.
O Manguebeat ficou conhecido justamente pela capacidade de misturar ritmos tradicionais, como maracatu e coco, com rock, hip-hop, música eletrônica e outras linguagens urbanas.
A Pernambulô segue uma trilha semelhante, mas procura construir uma identidade própria.
Em “Baque irado”, a percussão tradicional não aparece apenas como elemento decorativo. Ela é parte fundamental da estrutura das músicas e se relaciona diretamente com os beats e as programações eletrônicas.
Essa combinação cria uma sonoridade que pode ser, ao mesmo tempo, regional e urbana, ancestral e contemporânea.
Dez músicas autorais
O álbum reúne dez composições próprias, construindo um repertório que percorre diferentes atmosferas.
Quatro faixas já foram apresentadas anteriormente em formato de single: “Caboclo”, “Capibaribe”, “Hino de Pernambuco” e “Pedra de badoque”.
Cada uma delas ajuda a apresentar ao público diferentes lados do projeto.
“Caboclo” estabelece uma conexão direta com a cultura popular e com personagens presentes no imaginário pernambucano.
“Capibaribe”, por sua vez, remete ao rio que atravessa Recife e possui enorme importância histórica, geográfica e simbólica para a capital pernambucana.
Já “Hino de Pernambuco” parte de uma referência institucional e cultural bastante conhecida para inseri-la dentro da estética sonora da banda.
“Pedra de badoque” se destaca por sua atmosfera mais roqueira, mostrando que a proposta do grupo não se limita aos ritmos tradicionais.
Novas faixas ampliam a experiência
Além das músicas já conhecidas, “Baque irado” apresenta seis novidades.
Entre elas está “Bala perdida”, composição que incorpora elementos do cotidiano e da realidade urbana.
Também aparece “Beira de mar”, apresentada como uma faixa de caráter agalopado, aproximando o repertório do universo poético e rítmico tradicional do Nordeste.
“Conto cotidiano” e “Quiprocó” completam parte desse conjunto de novas músicas, explorando diferentes possibilidades narrativas e musicais.
O álbum ainda traz “Carnavalizô”, uma faixa instrumental com apenas um minuto de duração.
Apesar de curta, a música representa uma característica importante da Pernambulô: o espírito carnavalesco que está presente na própria origem do grupo.
A faixa funciona quase como uma explosão rítmica, condensando em poucos segundos a energia das manifestações populares que inspiram a banda.
O repertório é completado por “Mar de cores”, que amplia a diversidade sonora do álbum.
O espírito do bloco que virou banda
A história da Pernambulô está diretamente relacionada ao carnaval e às manifestações culturais do Recife.
O grupo nasceu a partir do Bloco Pernambulô, e essa origem ajuda a explicar a presença constante de elementos carnavalescos e percussivos em sua música.
O carnaval pernambucano possui uma força cultural que ultrapassa os dias de festa. Ele representa uma forma de expressão comunitária, ocupação das ruas e preservação de tradições transmitidas entre gerações.
É justamente esse espírito que a banda procura levar para o ambiente fonográfico.
Em vez de simplesmente reproduzir os sons tradicionais, a Pernambulô busca reconstruí-los a partir de ferramentas contemporâneas.
Sintetizadores, programações e beats eletrônicos entram em contato com a percussão e criam uma espécie de ponte entre o passado e o presente.
Beats e percussão eletrônica
Uma das marcas mais evidentes do álbum está na utilização de beats combinados com percussão eletrônica.
Essa escolha ajuda a aproximar a banda da cultura urbana do Recife e de uma juventude acostumada a consumir diferentes estilos musicais simultaneamente.
No universo musical contemporâneo, as fronteiras entre gêneros estão cada vez mais fluidas.
Rock pode conversar com música eletrônica. Ritmos tradicionais podem receber bases digitais. Instrumentos acústicos podem dividir espaço com sintetizadores.
A Pernambulô transforma justamente essa liberdade em linguagem artística.
“Baque irado” não parece interessado em escolher entre tradição e modernidade. A proposta é fazer com que os dois universos coexistam.
A força da periferia do Recife
Outro elemento importante do trabalho é a relação com a cultura das periferias recifenses.
O Recife possui uma produção cultural extremamente diversa, construída em bairros onde diferentes tradições musicais convivem diariamente.
Maracatu, frevo, coco, ciranda, rock, hip-hop, música eletrônica e outras expressões fazem parte de uma paisagem cultural que se transforma constantemente.
É desse ambiente que a Pernambulô retira parte da matéria-prima para sua criação.
Ao incorporar referências da periferia, a banda também transforma experiências cotidianas em música.
As letras e os ritmos procuram refletir um território marcado por criatividade, resistência e capacidade de reinvenção.
Nesse sentido, “Baque irado” funciona não apenas como uma coleção de músicas, mas também como uma espécie de retrato sonoro de uma determinada experiência urbana e cultural.
A influência de Alceu Valença e Lenine
A proposta da Pernambulô também se conecta a uma tradição de artistas pernambucanos que ajudaram a romper barreiras entre gêneros.
Alceu Valença é uma das referências mais importantes nesse processo, com uma carreira marcada pelo encontro entre música nordestina, rock e elementos da cultura popular.
Lenine também construiu uma obra baseada na mistura de ritmos regionais com linguagens contemporâneas.
A geração do Manguebeat aprofundou ainda mais essa lógica, aproximando ritmos pernambucanos de rock, música eletrônica, hip-hop e outras expressões urbanas.
A Pernambulô reconhece essa história, mas não pretende simplesmente reproduzi-la.
O objetivo é utilizar essa herança como ponto de partida para construir uma sonoridade própria.
Um “baque” pensado para o presente
O título “Baque irado” sintetiza bem a proposta do álbum.
“Baque” remete diretamente à força da percussão e aos ritmos de matriz popular que atravessam a cultura pernambucana. Já “irado” acrescenta uma dimensão urbana, contemporânea e energética.
A combinação das duas palavras representa a identidade do trio.
A música da Pernambulô pretende ser física, rítmica e dançante, mas também carregada de referências culturais.
É uma música pensada para as ruas, para os palcos e para um público que reconhece suas raízes, mas também está conectado às novas tecnologias e linguagens.
Um novo capítulo para a música pernambucana
O lançamento de “Baque irado” coloca a Pernambulô diante de um desafio comum a artistas que trabalham com tradição e inovação: preservar a essência sem transformar a cultura em peça de museu.
O trio parece escolher outro caminho.
Ao misturar percussão, beats, sintetizadores, baixo e rock, a banda procura mostrar que a cultura pernambucana continua viva justamente porque pode ser reinventada.
O álbum chega às plataformas digitais em 4 de setembro como o primeiro grande registro dessa identidade.
Mais do que apresentar dez músicas, “Baque irado” representa a estreia de uma banda que pretende dialogar com diferentes gerações e mostrar que as tradições populares podem encontrar novas formas de expressão.
Da energia do carnaval às batidas eletrônicas, do rock às manifestações culturais do Recife, a Pernambulô constrói um som que carrega o passado sem ficar preso a ele.
E é nessa mistura que está a principal força do grupo: transformar o “baque” da cultura pernambucana em uma linguagem contemporânea, pulsante e pronta para conquistar novos espaços.













