Maria Bethânia voltou aos palcos da Bahia em uma noite marcada pela espiritualidade, pela memória e por canções que atravessam diferentes momentos de sua trajetória. No sábado (22), a cantora foi uma das principais atrações do Festival de Inverno da Bahia, realizado no Parque de Exposições Teopompo de Almeida, em Vitória da Conquista, e apresentou um espetáculo renovado, com 24 músicas e uma novidade especialmente aguardada: a inédita “Luz e clarão”.
O show marca uma nova etapa na carreira da artista depois do encerramento do ciclo de comemorações pelos seus 60 anos de trajetória profissional. Embora mantenha elementos do espetáculo apresentado em 2025, Bethânia reformulou o roteiro e incorporou novas canções, criando uma apresentação que combina tradição, emoção e renovação.
A escolha da Bahia para a estreia não passou despercebida. Terra de origem da cantora e cenário fundamental de sua formação artística e espiritual, o estado ofereceu um ambiente simbólico para que Bethânia apresentasse ao público essa nova fase.
“Luz e clarão” abre o espetáculo
A principal novidade da noite foi justamente a música que abriu o show.
Presumivelmente intitulada “Luz e clarão”, a composição inédita trouxe uma forte carga espiritual logo nos primeiros momentos da apresentação.
Bethânia cantou versos que falam de proteção, purificação e axé, criando uma atmosfera de oração e conexão com suas raízes.
“Senhora guarda o meu coração / Sua purificação / É a luz de todo meu axé”, entoou a cantora.
A interpretação pareceu estabelecer uma ligação afetiva com sua mãe, Claudionor Viana Teles Veloso, a Dona Canô, figura de enorme importância na vida de Bethânia e personalidade profundamente ligada à cultura de Santo Amaro da Purificação, na Bahia.
A presença desse elemento espiritual logo na abertura reforçou uma característica que acompanha a trajetória da cantora: a capacidade de transformar o palco em um espaço de encontro entre música, poesia, memória, religiosidade e identidade cultural.
Um show novo, mas conectado ao passado
Embora seja considerado um novo espetáculo, o show apresentado em Vitória da Conquista mantém parte da estrutura musical da apresentação “60 anos de carreira”, realizada em 2025.
A banda foi preservada e algumas músicas também permaneceram no repertório.
Entre elas estão “Baioque”, de Chico Buarque; “Olha”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos; “O lado quente do ser”, de Marina Lima e Antonio Cicero; “Samba do grande amor”, de Chico Buarque; e “Vera Cruz”, de Xande de Pilares e Paulo César Feital.
A permanência dessas canções demonstra que Bethânia não busca romper completamente com o espetáculo anterior.
A proposta parece ser outra: aproveitar aquilo que funcionou e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas interpretações e surpresas.
Essa combinação entre continuidade e renovação é uma das marcas mais interessantes da nova apresentação.
Repertório atravessa décadas da música brasileira
Ao longo das 24 músicas, Maria Bethânia percorre diferentes períodos da música popular brasileira.
O repertório começa com a inédita “Luz e clarão” e segue com “Os mais doces bárbaros”, de Caetano Veloso, lançada em 1976.
Logo depois aparecem clássicos como “Fé cega, faca amolada”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, e “Baioque”, de Chico Buarque.
O roteiro também inclui músicas que se tornaram especialmente associadas à voz de Bethânia, além de obras de diferentes compositores brasileiros.
“Brincar de viver”, de Guilherme Arantes e Jon Lucien; “Cheiro de amor”; “Olha”; “Você”; “Balada de Gisberta”; e “Na primeira manhã” estão entre os destaques.
A diversidade de autores mostra a capacidade da cantora de transitar por diferentes estilos sem perder a unidade artística do espetáculo.
Canções conhecidas ganham nova leitura
Um dos grandes trunfos de Bethânia ao longo de sua carreira sempre foi a maneira particular de interpretar músicas já conhecidas pelo público.
No novo show, esse recurso permanece presente.
Canções como “As canções que você fez pra mim”, “Olhos nos olhos”, “Reconvexo” e “Carcará” carregam memórias de diferentes gerações e, quando interpretadas por Bethânia, ganham novos significados.
O público não apenas reconhece as melodias.
Reconhece também histórias, momentos e sentimentos associados a essas músicas.
É justamente nesse território entre memória individual e memória coletiva que a cantora construiu uma das carreiras mais importantes da música brasileira.
“Eterno em mim” aparece como surpresa
Entre as escolhas menos previsíveis do repertório está “Eterno em mim”, composição de Caetano Veloso criada para o espetáculo que marcou os 20 anos de carreira de Bethânia, em 1985.
A inclusão da música representa uma espécie de reencontro com uma fase importante da trajetória da artista.
Em um espetáculo que surge depois das comemorações dos 60 anos de carreira, recuperar uma composição ligada a uma celebração anterior cria uma ponte entre diferentes momentos de sua história.
É como se o novo show olhasse simultaneamente para o passado e para o futuro.
A força da música baiana e brasileira
A Bahia aparece não apenas como cenário da estreia, mas também como elemento presente na identidade do espetáculo.
Bethânia sempre manteve uma relação profunda com a cultura baiana, com a religiosidade afro-brasileira, com as tradições populares e com a literatura.
Essa conexão pode ser percebida na escolha das músicas e na maneira como a artista conduz o espetáculo.
“Lindomar”, tema tradicional, aparece no repertório ao lado de “Samba de dois-dois”, de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro.
A presença dessas obras reforça a valorização da tradição popular e do samba como elementos fundamentais da identidade musical brasileira.
Gonzaguinha também ganha espaço
O repertório reserva ainda um espaço significativo para Gonzaguinha, compositor que aparece em diferentes momentos da apresentação.
Bethânia interpreta “Festa”, “Explode coração” e, no encerramento, “O que é o que é”.
A escolha de Gonzaguinha ajuda a criar uma curva emocional ao longo do espetáculo.
Suas músicas carregam sentimentos intensos, questionamentos sobre a vida e uma forte dimensão humana.
No encerramento com “O que é o que é”, a cantora deixa o palco após uma sequência que resume boa parte da proposta do espetáculo: celebrar a vida, a música e a capacidade de seguir adiante.
“Carcará” mantém a força histórica
Outro momento importante é a presença de “Carcará”, de João do Vale e José Cândido.
A música ocupa um lugar especial na trajetória de Bethânia.
Foi uma das obras que ajudaram a projetar sua carreira nacional e permanece associada à imagem de uma artista que sempre utilizou a música como instrumento de expressão social e cultural.
Mais de cinco décadas depois de sua chegada ao repertório da cantora, “Carcará” continua atual e preserva a força que marcou sua interpretação original.
Sua presença no novo espetáculo funciona como uma lembrança da trajetória construída ao longo de décadas.
Um repertório que dialoga com diferentes gerações
A seleção das 24 músicas permite que o espetáculo alcance públicos de diferentes idades.
Há canções dos anos 1960, 1970, 1980, 2000 e também uma composição lançada em 2025.
Essa variedade cria uma apresentação que não depende exclusivamente da nostalgia.
Ao lado de músicas consagradas, Bethânia apresenta uma obra inédita e mantém espaço para compositores contemporâneos.
É uma maneira de mostrar que uma carreira de seis décadas não precisa ser construída apenas sobre o passado.
Novo show seguirá para outros festivais
A apresentação realizada na Bahia não será um evento isolado.
O espetáculo deverá ser levado a outros festivais ao longo do segundo semestre de 2026, incluindo o Coala, em São Paulo, e o Clássicos do Brasil, no Rio de Janeiro.
A expectativa é que o roteiro continue sendo acompanhado de perto pelo público, especialmente por se tratar de um show que combina sucessos conhecidos com novidades.
A inédita “Luz e clarão” deve naturalmente ocupar um espaço especial entre as canções apresentadas.
Uma nova fase sem abandonar as raízes
A estreia em Vitória da Conquista mostra uma Maria Bethânia que continua se reinventando sem abandonar aquilo que construiu sua identidade.
Depois de celebrar 60 anos de carreira, a cantora poderia simplesmente revisitar seus maiores sucessos.
Preferiu, porém, apresentar algo renovado.
O novo espetáculo preserva músicas importantes, recupera obras menos esperadas e introduz uma composição inédita que estabelece uma atmosfera espiritual desde o primeiro instante.
Mais do que uma simples mudança de repertório, a apresentação representa uma continuidade natural de uma carreira construída sobre a capacidade de transformar música em experiência.
Na Bahia, diante de um público que conhece profundamente suas raízes, Bethânia apresentou um show que olha para trás sem ficar preso ao passado.
Entre a espiritualidade de “Luz e clarão”, a força de “Carcará”, a emoção de “Olhos nos olhos”, a energia de “Festa” e a celebração de “O que é o que é”, a cantora reafirmou que sua história continua sendo escrita no palco.
E, aos 60 anos de carreira já celebrados, Maria Bethânia demonstra que ainda há espaço para novidades, surpresas e novas canções capazes de encontrar morada na memória do público.













