Tumor cerebral infantil raro e agressivo pode ter seu crescimento reduzido com a ajuda de um medicamento já utilizado há anos no tratamento de convulsões e epilepsia. Um estudo publicado nesta quinta-feira (17) na revista científica Nature Medicine aponta que o levetiracetam pode ajudar a conter os gliomas difusos da linha média, um tipo de câncer que apresenta poucas opções terapêuticas e elevado índice de mortalidade.

A descoberta chama atenção porque o medicamento já faz parte da rotina médica para controle de crises epilépticas e possui um histórico de utilização clínica. No entanto, os pesquisadores ressaltam que os resultados ainda precisam ser confirmados em ensaios clínicos antes que o levetiracetam possa ser considerado uma estratégia de tratamento específica contra esses tumores.

Os gliomas difusos da linha média atingem regiões do cérebro e da medula espinhal e estão entre os tumores pediátricos mais difíceis de tratar. Nos Estados Unidos, estima-se que aproximadamente 300 a 400 crianças sejam diagnosticadas por ano com esse tipo de tumor. A sobrevida em cinco anos é estimada em cerca de 1%, segundo os dados apresentados no estudo.

Tumor utiliza comunicação entre neurônios

Um dos pontos mais importantes da pesquisa está na forma como os cientistas compreenderam a relação entre as células tumorais e os neurônios saudáveis.

Os gliomas difusos da linha média conseguem utilizar sinais enviados pelas células nervosas para favorecer seu próprio crescimento. Esses sinais são transmitidos por estruturas conhecidas como sinapses, responsáveis pela comunicação entre células por meio de impulsos elétricos e químicos.

Na prática, o tumor passa a se beneficiar de uma comunicação que normalmente faz parte do funcionamento do sistema nervoso.

Os pesquisadores investigaram justamente essa interação e descobriram que o levetiracetam pode interferir na transmissão desses sinais para as células tumorais.

A hipótese é que, ao reduzir essa comunicação, o medicamento dificulte um dos mecanismos utilizados pelo câncer para sustentar sua multiplicação.

Levetiracetam já é usado contra convulsões

O levetiracetam é um anticonvulsivante utilizado principalmente no controle de crises epilépticas. Seu uso contra tumores cerebrais, entretanto, representa uma linha de investigação diferente daquela para a qual o medicamento foi originalmente desenvolvido.

A pesquisa indica que a ação observada nas células tumorais não é necessariamente a mesma responsável pelo efeito anticonvulsivante nos neurônios saudáveis.

Essa diferença é importante porque mostra que os cientistas estão investigando uma possível propriedade adicional do medicamento dentro do ambiente tumoral.

Ainda não está completamente esclarecido como todos os mecanismos envolvidos funcionam. Por isso, novas pesquisas serão necessárias para compreender de maneira mais detalhada como o levetiracetam interfere na comunicação entre os neurônios e as células cancerígenas.

Dados de pacientes reforçaram hipótese

Além dos experimentos laboratoriais, os pesquisadores analisaram dados de prontuários de 218 pacientes pediátricos.

A avaliação indicou que as crianças que receberam levetiracetam viveram, em média, mais tempo do que aquelas que não utilizaram o medicamento.

Esse resultado é considerado relevante para a investigação, mas precisa ser interpretado com cautela. Dados obtidos a partir de prontuários não possuem o mesmo nível de controle de um ensaio clínico randomizado.

Isso significa que outros fatores podem ter influenciado a diferença observada entre os grupos.

Por essa razão, os resultados não permitem afirmar que o medicamento seja responsável, isoladamente, pelo aumento da sobrevida. A associação encontrada serve como um sinal importante para justificar novas pesquisas.

Experimentos em animais também apresentaram resultados positivos

A equipe também realizou experimentos com camundongos portadores de tumores semelhantes aos estudados em humanos.

Nos animais que receberam levetiracetam, os pesquisadores observaram uma redução no crescimento das células malignas.

O resultado ajudou a reforçar a hipótese de que a comunicação entre neurônios e células tumorais desempenha um papel importante no desenvolvimento desses gliomas e que interferir nesse processo pode desacelerar a evolução da doença.

No entanto, experimentos realizados em animais não garantem que o mesmo efeito será reproduzido em seres humanos.

Essa é uma das razões pelas quais os pesquisadores pretendem avançar para estudos clínicos, nos quais será possível avaliar de forma mais controlada a segurança, a dose adequada e a efetividade do medicamento em crianças com o tumor.

Efeito não foi observado em todos os tumores cerebrais

Outro achado importante da pesquisa é que o efeito do levetiracetam não parece ser generalizado para todos os tipos de câncer cerebral.

Nos gliomas que surgem em outras regiões do cérebro, os pesquisadores não observaram a mesma alteração na evolução da doença.

A diferença pode estar justamente na maneira como esses tumores se relacionam com os neurônios.

Os gliomas difusos da linha média apresentam características específicas que permitem uma interação mais significativa com a atividade neuronal. Em outros tumores, essa conexão pode não existir da mesma forma.

Isso indica que o potencial do levetiracetam está relacionado a uma característica específica do tumor e não simplesmente ao fato de ele estar localizado no cérebro.

Possível novo caminho para medicamentos já existentes

A pesquisa também chama atenção para uma estratégia que vem ganhando espaço na ciência: o reaproveitamento de medicamentos já conhecidos para combater outras doenças.

Esse caminho pode apresentar vantagens porque determinados medicamentos já possuem informações acumuladas sobre sua segurança, efeitos colaterais, formas de administração e comportamento no organismo.

No caso de tumores cerebrais, existe ainda outro desafio: fazer com que os medicamentos consigam alcançar adequadamente o cérebro.

Como o levetiracetam já é utilizado em doenças neurológicas, os pesquisadores consideram que ele apresenta características que podem facilitar sua investigação como possível terapia complementar.

Isso, porém, não significa que o medicamento possa ser utilizado por conta própria ou que pacientes com câncer devam iniciar o tratamento sem orientação médica.

Próximos passos serão ensaios clínicos

Depois dos resultados obtidos em laboratório, nos animais e na análise de prontuários, os pesquisadores planejam avançar para ensaios clínicos.

Esses estudos serão fundamentais para determinar se o efeito observado pode realmente beneficiar crianças diagnosticadas com gliomas difusos da linha média.

Os ensaios também deverão avaliar questões como dose, segurança, possíveis efeitos adversos e combinação com tratamentos já utilizados.

A expectativa não é necessariamente transformar o levetiracetam em uma terapia isolada. Os pesquisadores consideram que o medicamento poderá, caso sua eficácia seja confirmada, integrar uma estratégia mais ampla de tratamento.

Entre as possibilidades estudadas estão combinações com outras abordagens, incluindo terapias que utilizam células modificadas para reconhecer e atacar as células cancerígenas.

Descoberta traz esperança, mas exige cautela

Para famílias que enfrentam o diagnóstico de um tumor cerebral agressivo em uma criança, qualquer avanço científico pode representar uma fonte de esperança. Ao mesmo tempo, é fundamental que resultados preliminares sejam tratados com responsabilidade.

O estudo publicado na Nature Medicine apresenta evidências de que o levetiracetam pode interferir em um mecanismo utilizado pelos gliomas difusos da linha média para crescer. Também foram observadas associações entre o uso do medicamento e maior sobrevida em dados de pacientes, além de resultados positivos em modelos animais.

Mas ainda não existe confirmação de que o medicamento seja um tratamento eficaz contra esse câncer em crianças.

A realização de ensaios clínicos será decisiva para responder a essa pergunta.

Enquanto a pesquisa avança, o estudo oferece uma nova perspectiva sobre a relação entre atividade cerebral e desenvolvimento de tumores. Mais do que apontar imediatamente para uma nova terapia, a descoberta ajuda os cientistas a compreenderem melhor como determinados cânceres conseguem utilizar mecanismos naturais do cérebro para sobreviver e crescer.

Se os próximos estudos confirmarem os resultados, um medicamento criado para controlar convulsões poderá, no futuro, fazer parte de uma estratégia de tratamento contra um dos tumores infantis mais difíceis de combater. Até lá, os pesquisadores reforçam a necessidade de continuar investigando o mecanismo e testando a segurança e a eficácia da abordagem em pacientes.