O México iniciou uma transformação no sistema educacional ao determinar o fim do modelo de escolas militarizadas que, durante décadas, adotaram uniformes, hierarquia, comandos e métodos inspirados nas Forças Armadas. A decisão do governo da presidente Claudia Sheinbaum reacendeu um debate nacional sobre os limites da disciplina militar no ambiente escolar, especialmente após a morte de adolescentes em instituições que adotavam esse tipo de formação.

A medida, determinada pela Secretaria da Educação Pública do México (SEP) em julho, estabelece que as escolas não podem continuar funcionando sob um modelo militarizado sem respaldo legal. O argumento oficial é que a educação militar deve ser oferecida exclusivamente pelas instituições das Forças Armadas, enquanto o ensino regular precisa permanecer submetido às normas civis.

A mudança atinge dezenas de estabelecimentos espalhados pelo país e obriga diretores, professores, estudantes e famílias a se adaptarem a uma nova realidade. Ao mesmo tempo, levanta questionamentos sobre como preservar valores tradicionalmente associados à formação militar sem reproduzir estruturas rígidas de comando e práticas que possam colocar a segurança dos alunos em risco.

Escolas abandonam uniformes e comandos militares

No Colégio Moderno Alarid, localizado na Cidade do México, a transformação pode ser percebida em pequenos detalhes da rotina. Os estudantes, que costumavam cumprimentar o diretor Óscar Lira com a expressão “Boa tarde, meu comandante”, precisam abandonar esse tratamento, assim como outras referências militares presentes no cotidiano escolar.

Até os comandos utilizados durante as atividades coletivas estão sendo modificados. A expressão “Cadetes, sentido!”, por exemplo, dá lugar a “Discentes, sentido!”. Os alunos continuam organizados em filas e mantêm uma postura disciplinada, mas a instituição procura adaptar seus procedimentos às novas determinações.

Os uniformes também passaram por mudanças para retirar a estética militar. O objetivo é romper com a identidade tradicional desse modelo de ensino, preservando, segundo a direção, aspectos considerados importantes para a convivência e a formação dos estudantes.

“O militarismo faz parte da nossa história, mas acabou”, afirma Óscar Lira, diretor do colégio.

Arquiteto e ex-aluno da instituição, Lira vem de uma família de militares e reconhece o peso emocional da mudança. Em seu escritório, objetos como escudos, flâmulas e uma espada demonstram a ligação histórica com esse universo.

Apesar disso, ele afirma que a escola precisa se reinventar. Para o diretor, o desafio consiste em abandonar a estrutura militarizada sem abrir mão de valores como honra, responsabilidade, disciplina, sacrifício e compromisso coletivo.

A instituição representa uma realidade enfrentada por outras escolas mexicanas que, nos últimos meses, precisaram reformular sua identidade e seus métodos de ensino.

Morte de adolescente intensificou a pressão por mudanças

A decisão do governo ganhou força após a morte de Dafne Zapata, de 13 anos, durante um acampamento de verão com características militares no estado de Tamaulipas, no nordeste mexicano.

Segundo a autópsia, a adolescente morreu por asfixia por submersão. O caso provocou comoção no país e levou a família a denunciar possíveis atos de tortura. A promotoria investiga o episódio como um possível feminicídio, enquanto três pessoas foram detidas, conforme as informações divulgadas sobre o caso.

A investigação ampliou as preocupações sobre a segurança de crianças e adolescentes submetidos a atividades com exigências físicas, hierarquia rígida e métodos de treinamento inspirados no ambiente militar.

A morte de Dafne, entretanto, não foi o primeiro episódio a provocar questionamentos sobre essas instituições.

Em 2023, Zamir Pinto, de 16 anos, morreu no Colégio Militarizado Aztlán, no Estado do México. De acordo com informações da necropsia, o adolescente sofreu diversos golpes violentos na região do abdômen. Uma pessoa foi detida, e a escola acabou fechada.

Outro caso ocorreu em 2025, quando Érick Terán Torbellín, de 13 anos, morreu durante um acampamento da Academia Ollin, no estado de Morelos. Relatos de colegas apontaram que uma instrutora teria arrastado o adolescente pelo chão durante cerca de dez minutos e o agredido violentamente. A entidade responsável atribuiu a morte a uma onda de calor. Três pessoas foram detidas.

Os episódios são investigados em circunstâncias específicas e não permitem concluir que todas as escolas militarizadas adotavam práticas semelhantes. Ainda assim, contribuíram para intensificar o debate sobre fiscalização, responsabilidade institucional e proteção dos estudantes.

Falta de dados dificulta avaliar o problema

Um dos obstáculos para compreender a dimensão dos casos é a ausência de registros oficiais abrangentes sobre abusos, mortes e outras ocorrências em escolas militarizadas mexicanas.

Durante décadas, essas instituições permaneceram em uma zona pouco definida entre a supervisão educacional civil e as referências militares que orientavam suas atividades. A falta de uma contabilização consolidada também dificulta determinar quantas escolas existiam e quantos estudantes eram atendidos.

Estimativas mencionadas no debate apontam que entre 20 e 50 instituições desse tipo funcionavam no país, reunindo aproximadamente 10 mil a 20 mil alunos. Os números, porém, variam conforme os registros utilizados.

A determinação da SEP busca estabelecer limites mais claros para o funcionamento das escolas e para a responsabilidade das autoridades educacionais. A intenção é impedir que instituições civis adotem uma estrutura militarizada sem a devida autorização legal.

A mudança também exige que os estabelecimentos revisem currículos, cargos, uniformes, atividades e formas de organização. Para algumas escolas, o processo representa uma reestruturação profunda, com consequências financeiras e administrativas.

Famílias contestam o fim do modelo

Embora a decisão tenha sido apoiada pelo governo federal, a medida não foi recebida de maneira uniforme pela sociedade mexicana.

No estado de Puebla, na região centro-sul do país, pais de estudantes da Academia Zaragoza realizaram protestos e bloquearam avenidas para defender a continuidade da instituição. Mais de 50 responsáveis participaram de manifestações com palavras de ordem contra o fechamento da escola.

Segundo relatos divulgados pela imprensa local, as famílias argumentam que a instituição oferecia disciplina, respeito e formação de valores. Elas também sustentam que não havia denúncias de maus-tratos contra a escola e consideram injusto que estabelecimentos diferentes sejam atingidos por episódios registrados em outras instituições.

A insatisfação também aparece no Bacharelado Geral Militarizado, uma escola pública localizada em Zacatecas, no centro-norte mexicano. Com a reformulação, os instrutores militares foram substituídos por professores civis.

Pais de alunos criticaram a mudança e classificaram o novo modelo como uma imposição. Para essas famílias, a formação militarizada era justamente o principal motivo para escolher aquela instituição.

Outro ponto de contestação envolve a substituição de conteúdos militares por disciplinas e atividades como educação financeira, esporte de alto rendimento e inteligência artificial. Os responsáveis questionam se a nova proposta preservará a identidade e os objetivos que motivaram a matrícula dos estudantes.

Para parte dos defensores dessas escolas, escolher esse tipo de educação está relacionado à liberdade das famílias de buscar uma formação compatível com seus valores. Já os defensores da mudança destacam a necessidade de garantir que qualquer proposta pedagógica respeite a legislação e a integridade física e emocional dos alunos.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Dinamic, em julho, indicou que aproximadamente um terço dos mexicanos consultados rejeitava o fechamento em massa dessas instituições, mas defendia a realização de auditorias. Outros 27% apoiavam o encerramento definitivo, enquanto uma parcela expressiva demonstrava indecisão ou posições intermediárias.

Os resultados mostram que o tema está longe de produzir consenso na sociedade.

Escolas militarizadas não são o mesmo que instituições militares

O debate exige uma distinção importante: as escolas militarizadas são diferentes das instituições militares oficiais, que integram a estrutura das Forças Armadas mexicanas.

O país possui cerca de 40 instituições militares de ensino, voltadas à formação de profissionais em diferentes especialidades. Esses centros seguem regras próprias e fazem parte da estrutura oficial das Forças Armadas.

Entre eles está o Heroico Colégio Militar, criado no século XIX e instalado, desde 1976, em um amplo complexo na região sul da Cidade do México. Com arquitetura monumental e processos seletivos exigentes, a instituição prepara futuros integrantes da carreira militar.

As Forças Armadas mexicanas possuem elevado reconhecimento público e desempenham funções importantes no país, inclusive em áreas que ultrapassam a defesa nacional. Essa reputação, entretanto, não elimina a necessidade de investigar denúncias e garantir mecanismos de responsabilização em qualquer ambiente de formação.

O próprio universo militar mexicano também enfrenta questionamentos relacionados a práticas de recepção de novos integrantes, conhecidas como trotes. Em determinadas situações, essas práticas são justificadas como parte da adaptação dos iniciantes, mas podem envolver humilhações e violência.

O desafio é conciliar disciplina e proteção

A desmilitarização das escolas mexicanas abre uma discussão que vai além dos uniformes e dos comandos utilizados em sala de aula. O principal desafio é definir como a disciplina deve ser ensinada e quais métodos são aceitáveis na formação de crianças e adolescentes.

Organização, responsabilidade, respeito às regras e compromisso coletivo podem fazer parte de diferentes propostas pedagógicas. A questão está em estabelecer limites claros para que esses princípios não sejam utilizados como justificativa para agressões, humilhações ou práticas que coloquem os estudantes em perigo.

Para instituições como o Colégio Moderno Alarid, a adaptação significa preservar parte da própria história sem manter uma estrutura que o governo considera incompatível com as normas educacionais vigentes.

Para as famílias que defendem o modelo anterior, a preocupação é não perder uma proposta de ensino que consideram diferenciada. Para as autoridades, a prioridade é garantir que a educação ocorra dentro de parâmetros legais e com proteção aos alunos.

O futuro dessas escolas dependerá da capacidade de implementar as mudanças, oferecer alternativas pedagógicas consistentes e fiscalizar o cumprimento das novas regras.

A transformação em curso no México mostra que disciplina e educação não precisam estar vinculadas a uma estrutura militar. O desafio é construir ambientes em que respeito, responsabilidade e exigência acadêmica caminhem junto com a segurança, a dignidade e os direitos de crianças e adolescentes.