A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) chegou aos 60 anos celebrando uma trajetória marcada pela produção científica, formação de pesquisadores, inovação e participação ativa em importantes transformações da sociedade brasileira. A comemoração reuniu dirigentes, ex-reitores, professores, autoridades e familiares de personagens que ajudaram a construir a instituição, em uma cerimônia que também serviu para olhar além do passado e discutir os desafios das próximas décadas.

Ao completar seis décadas de existência, a Unicamp se apresenta diante de uma pergunta que ultrapassa os números e as conquistas acumuladas ao longo de sua história: como continuar sendo uma universidade necessária para o Brasil em um mundo cada vez mais marcado por mudanças tecnológicas, ambientais e sociais?

Para o reitor Montagner, esse é justamente um dos principais desafios colocados para a instituição.

“Um dos maiores desafios é fazer com que a Universidade continue sendo tão necessária ao Brasil do futuro quanto foi necessária ao Brasil de 1966. Talvez seja esta a melhor maneira de compreender um legado tão relevante”, afirmou.

A declaração sintetiza o espírito das celebrações: reconhecer a trajetória construída desde a fundação, mas sem transformar os 60 anos em um ponto final. A intenção é fazer da experiência acumulada uma base para enfrentar problemas que ainda estão surgindo.

Uma universidade que aprendeu a mudar

Ao falar sobre o futuro, o reitor destacou uma característica que acompanha a Unicamp desde sua origem: a capacidade de se transformar sem abandonar os princípios que deram identidade à instituição.

Segundo Montagner, a universidade dos próximos 60 anos precisará manter a mesma disposição para inovar que marcou seus primeiros anos.

“Que a Unicamp dos próximos 60 anos tenha a mesma coragem de futuro que marcou sua origem”, afirmou. Para ele, parte da resposta para os desafios que virão está justamente na própria história da universidade, construída a partir da capacidade de preservar aquilo que considera essencial e, ao mesmo tempo, transformar o que precisa ser atualizado.

A ideia de mudança aparece como um elemento central da trajetória da Unicamp. Em seis décadas, a instituição passou por diferentes períodos da história brasileira, acompanhou transformações sociais e ampliou sua atuação acadêmica e científica.

O aniversário, portanto, não representa apenas uma celebração do que já foi realizado. Também funciona como oportunidade para discutir que tipo de universidade será necessária nas próximas décadas.

Olhar para o passado com orgulho e para o futuro com curiosidade

O coordenador-geral da Unicamp, Coelho, reforçou que a instituição deve preservar uma postura de curiosidade diante do futuro.

Para ele, a universidade precisa continuar jovem justamente naquilo que mais importa: na coragem de fazer perguntas, na disposição para experimentar e na vontade de se transformar.

“Desejamos que a universidade continue jovem naquilo que realmente importa, na coragem de perguntar, na disposição de experimentar e na vontade de se transformar”, afirmou.

Coelho também defendeu uma universidade brasileira em sua visão, internacional em suas conexões e universal em sua vocação.

Na avaliação do coordenador-geral, os 60 anos não devem ser encarados como uma linha de chegada. A data representa o início de uma nova etapa, marcada por desafios que já afetam a sociedade e deverão ganhar ainda mais importância nos próximos anos.

Entre eles estão as mudanças ambientais, o avanço acelerado da inteligência artificial e a necessidade de fortalecer o pensamento crítico.

A expectativa é que a Unicamp continue participando ativamente da construção de respostas para esses problemas, mantendo a pesquisa e a formação acadêmica como instrumentos de transformação.

Família do fundador participa da celebração

A cerimônia também teve um significado especial para a família de Zeferino Vaz, fundador da Unicamp.

Sérgio Vaz, filho do fundador, participou da comemoração acompanhado das filhas, Camila e Fernanda. Durante o evento, lembrou que uma das prioridades de seu pai era atrair pesquisadores e profissionais qualificados para construir uma universidade de excelência.

Segundo Sérgio, o projeto idealizado por Zeferino Vaz alcançou os objetivos estabelecidos.

“Tudo o que ele sonhou para a Unicamp se tornou realidade”, afirmou.

A presença da família reforçou a ligação entre a origem da universidade e a instituição que se consolidou ao longo das décadas. A ideia de reunir grandes pesquisadores e construir uma universidade com padrões elevados de ensino e pesquisa esteve no centro da proposta inicial.

Unicamp ganhou projeção internacional

O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Vahan Agopyan, destacou o crescimento da universidade e sua projeção no cenário internacional.

Segundo ele, a Unicamp passou por uma evolução significativa nos últimos anos.

“Há 10 anos, a Unicamp era considerada uma das melhores universidades jovens do mundo. De lá para cá, porém, já se transformou em uma das melhores universidades do mundo”, afirmou.

Agopyan ressaltou ainda que avaliações internacionais analisam milhares de instituições, em um universo de dezenas de milhares de universidades existentes no mundo.

Para o secretário, entretanto, o reconhecimento internacional precisa vir acompanhado de uma aproximação ainda maior com as necessidades concretas da população.

Ele defendeu que a universidade amplie sua relação com a sociedade para além dos modelos tradicionais de extensão e adapte tanto o ensino quanto a pesquisa ao avanço da inteligência artificial e de outras novas tecnologias.

Ex-reitores relembram histórias pessoais

A celebração dos 60 anos também abriu espaço para memórias de antigos dirigentes da instituição.

Tadeu Jorge, que ocupou a Reitoria em dois períodos, entre 2005 e 2009 e entre 2013 e 2017, fez um discurso marcado pelo bom humor e pela emoção. Ele contou que recebeu apenas dois minutos para falar sobre sua relação com a universidade.

Brincando com o tempo disponível, disse que chegou a reivindicar mais minutos por ter exercido dois mandatos. No entanto, afirmou que percebeu que não precisava de muito tempo para explicar a importância da instituição em sua vida.

“A Unicamp é praticamente tudo em minha vida”, declarou, destacando que sua trajetória pessoal e profissional esteve profundamente ligada à universidade.

Carlos Vogt, reitor entre 1990 e 1994, também falou sobre a missão de ensinar. Ao citar o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, destacou que o trabalho de um professor não se resume à transmissão de conhecimento.

Para Vogt, ensinar exige renovação permanente, curiosidade e disposição para manter a mente aberta.

Ao falar de sua relação com a instituição, resumiu o sentimento em uma frase: “Tenho a sensação contínua de que jamais saí da Unicamp, e que a Unicamp jamais saiu de mim”.

Universidade pública, ciência e inclusão

Marcelo Knobel, reitor entre 2017 e 2021, lembrou que sua relação com a Unicamp começou ainda na infância. Segundo ele, seu pai foi convidado a trabalhar por Zeferino Vaz, enquanto sua mãe atuou no Caism, o Hospital da Mulher. Ele e a irmã também estudaram na universidade.

Atualmente diretor-executivo da Academia Mundial de Ciências, ligada à Unesco, Knobel destacou a importância da defesa da universidade pública, da ciência e da tecnologia como instrumentos capazes de enfrentar desigualdades e desenvolver soluções para problemas complexos.

Antônio Meirelles, que comandou a universidade entre 2021 e 2025, também apresentou uma trajetória profundamente ligada à instituição. Ele ingressou na Faculdade de Engenharia de Alimentos em 1976 e participou de momentos importantes da história da universidade, incluindo movimentos pela autonomia universitária.

Meirelles ressaltou ainda os avanços relacionados à inclusão social e étnica, que ajudaram a tornar a Unicamp mais representativa da sociedade brasileira.

Ele também lembrou a atuação da instituição durante a pandemia de Covid-19, período em que universidades e centros de pesquisa tiveram papel importante na busca por respostas científicas para uma crise de proporções globais.

Para o ex-reitor, a capacidade de unir ciência, inovação tecnológica e justiça social é uma das características que ajudam a definir a universidade.

Fernando Costa, reitor entre 2009 e 2013, destacou a visão de Zeferino Vaz de atrair os melhores professores e estudantes do Brasil e do exterior, além de adotar critérios internacionais de avaliação.

Um novo capítulo

As comemorações pelos 60 anos da Unicamp continuaram ao longo do dia com atividades culturais e encontros que reuniram diferentes gerações da comunidade universitária.

Mais do que celebrar seis décadas, a programação colocou em evidência uma instituição que pretende continuar olhando para frente.

A história da Unicamp é marcada por nomes, pesquisas, descobertas, salas de aula, laboratórios e gerações de estudantes que passaram por seus espaços. Mas seu legado também está na capacidade de responder aos desafios de cada época.

Agora, diante da inteligência artificial, das mudanças ambientais, das novas demandas sociais e das transformações no mundo do trabalho, a universidade entra em uma nova fase.

A pergunta que permanece não é apenas o que a Unicamp já construiu, mas o que ela ainda será capaz de construir.

Aos 60 anos, a universidade celebra o passado sem perder de vista o futuro. E, como resumiu o coordenador-geral, a expectativa é que, quando a instituição chegar aos 120 anos, as próximas gerações possam olhar para este momento e reconhecer que aqueles 60 anos foram apenas o começo de uma história ainda maior.